Crítica | A Terceira Margem do Rio (Primeiras Estórias), de João Guimarães Rosa

De todos os contos que o Modernismo brasileiro produziu, talvez o que mais tenha se notabilizado por seus signos abertos e desafiadores à interpretação seja A Terceira Margem do Rio – possivelmente também o mais famoso de Guimarães Rosa. O escritor mineiro é sempre lembrado pelo estilo calcado nos neologismos e na oralidade do sertanejo, não só capturando as tipicidades de sua fala, mas colocando suas inovações sintáticas a serviço dos temas que aborda. Sentimos isso rapidamente em seu célebre conto. O rio é um elemento que ressurge em sua obra (lembrando que o protagonista de Grande Sertão: Veredas recebe o nada gratuito nome de Riobaldo) e, dessa vez, sente-se a ideia de fluxo, de corrente, de escoamento, na própria construção linguística do conto. A narração acontece ao sabor da consciência do narrador (o filho do homem que se lança ao rio com sua canoa). As orações tão eivadas de vírgulas parecem embaladas por elas, tal como a canoa do enigmático pai segue impulsionada pelas águas.

No terceiro parágrafo, Guimarães Rosa usa outro artifício linguístico para dar conta da ideia de distanciamento e de partida de um ente querido para muito longe. A mãe diz ao pai na despedida: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. A dilatação do pronome “você” diz respeito à ampliação da distância para aquele que se vai. Uma engenhosidade que não deve ser perdida. A narração do menino saudoso do pai, repleta de regionalismos e de forte oralidade, torna todo o relato extremamente subjetivo. Não é possível separar os fatos das lembranças contaminadas por seu sentimento de orfandade. E quando uso o termo “orfandade”, não intenciono induzir à ideia de que a famigerada “terceira margem” signifique a morte física da figura paterna. Parece-me claro, dentro escopo do conto, que o filho passa por um processo de luto. Mas o grande mérito de A Terceira Margem do Rio é não permitir, em nenhum momento, que se defina a real natureza dessa separação. O curioso título da obra é exatamente o que ela se nega a revelar. E assim precisa ser.

Ocorre, ao longo do texto, todo tipo de tentativa de se definir essa nova margem em que o pai está. Recorre-se às mais variadas hipóteses. Estaria o homem pagando alguma promessa? Estaria ele padecendo de alguma doença contagiosa, como a lepra, o que exigiria a sua completa reclusão? Teria ele simplesmente enlouquecido? Nenhuma delas parece satisfazer. O filho, determinado a obter respostas (ou mesmo vestígios delas), passa a levar roupas, comida e todo tipo de utensílio para o pai, deixando-os nas conhecidas margens do rio. A imagem criada (Guimarães Rosa mais uma vez revela sua expertise com elas) é bastante clara – nada que pertencesse ao mundo conhecido e, por metáfora, fosse depositado nas margens visíveis do rio, seria recolhido pelo homem que deixara há tantos anos de pisar em terra firme. Novamente, a “terceira margem” permaneceria incógnita. A prosa coloquial mas sofisticada do escritor brasileiro estabelece uma cumplicidade entre o filho e o leitor. Ambos aguardam por respostas, que nunca chegam.

Penso que o que torna este conto tão especial seja justamente o trabalho com essa inversão de expectativas. Ao longo da obra, o leitor se vê tentado a procurar por razões compreensíveis e a decifrar a exatidão da alegoria que Guimarães Rosa propõe. Ao se aproximar do desfecho de A Terceira Margem do Rio, é possível concluir que esse não é um texto dado a justificativas. Na realidade, sua beleza não sobreviveria a elas. O intrigante conto me parece propor muito mais uma experiência. Um contato com algo que vai além do desconhecido. Além do sigiloso, pois o que está oculto ainda pode se revelar – o que jamais acontece no conto rosiano. Ao que tudo indica, a jornada do pai ruma para outro lugar. Lugar sem margens nem nome. Lugar que sequer precisa de um. Ruma ao intangível.

A Terceira Margem do Rio (Brasil, 1962)
Em: Primeiras Estórias
Autor: João Guimarães Rosa
Editora original: José Olympio
Outras editoras: Nova Fronteira
Arte da capa original: Luís Jardim
5 páginas

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.