Crítica | A Terra é Plana

Sabe quando você espera algo de um filme e ele entrega uma surpresa, mesmo quando ele não consegue alcançar seus objetivos completamente, ganhando pontos só por tentar? Isso é A Terra é Plana, documentário sobre o aparentemente crescente grupo de pessoas que realmente parece acreditar que, bem… o planeta Terra não é uma esfera.

Daniel J. Clark deixa evidente, logo nos minutos iniciais, que ele não tem intenção alguma de trazer uma abordagem científica para seu documentário no sentido de tentar provar que nosso planeta não é plano. O que ele procura fazer, e é esse elemento que eleva A Terra é Plana para um nível acima do que se poderia esperar, é estabelecer um diálogo franco e direto com os chamados terraplanistas, sem ridicularizá-los. Ou pelo menos Clark faz de tudo para não ridicularizá-los e, por não conseguir totalmente seu objetivo, é que ele ganha pontos por tentar.

Focando primordialmente em Mark Sargent, considerado e reverenciado por um grande número de terraplanistas como o responsável pela propagação dessa… hummm, teoria, além de Patricia Steere, a musa bloqueira deles, o documentário abre espaço para que uma conversa seja estabelecida, mostrando que há um gigantesco “mundo escondido” debaixo dessa bandeira pré-filosofia grega (porque não, não descobriram que o mundo é esférico apenas na Idade Média) que envolve eventos e a fabricação e venda de diversas mercadorias, notadamente camisetas e relógios de parede com o modelo da Terra plana que grande parte do grupo que acredita nisso acha, ainda, que há uma redoma protegendo a superfície do planeta, ou seja, exatamente igual a um relógio…

E o documentário desvela também a existência de uma concorrência pesada entre os que ficam ao lado de Sargent e os que ficam ao lado de Matt Powerland, aparentemente a pessoa que “realmente” começou com essa febre recente que tenta afirmar que estamos vivendo há séculos em uma enorme teoria da conspiração que tenta manter o status quo só porque os cientistas se recusam a voltar atrás e dar a cara a tapa, o que nos exige ignorar as circunavegações, os satélites, as fotografias do espaço e meros voos transatlânticos em voos comerciais normais em que é possível constatar o formato esferoide da Terra com os olhos nus. Há, portanto, um quê de crítica não à teoria em si, mas também ao comportamento humano mesquinho e pequeno em arvorar-se como isso ou aquilo e amealhar seguidores que não discutem e bovinamente seguem o que quer que seja.

Há também uma discussão muito interessante que, porém, não ganha o desenvolvimento que merecia, relacionada com o que se poderia rotular de “isolamento da minoria”. Como um grupo pequeno (que espero que não cresça para mais do que apenas uma curiosidade) defendendo uma teoria bizarra, Sargent e outros são afastados do convívio com a sociedade como um todo, em uma demonstração de intolerância e preconceito, algo extremamente comum hoje em dia com os assuntos mais triviais da vida. Vê-se aí a semente de uma crítica social forte, mas que acaba ficando soterrada pela bizarrice da teoria que Sargent defende com paixão.

E é nessa defesa que os terraplanistas se enrolam. O documentário – e é aí que ele começa a falhar como uma tentativa isenta de se abordar a questão – dá a proverbial linha para eles se enforcarem, permitindo e focando em experimentos pseudo-científicos (mas caros, com a compra de um aparelho de 20 mil dólares!) que os terraplanistas usam para provar finalmente que a Terra é plana. Não focarei aqui no que acontece, mas o leitor certamente pode adivinhar, o que acaba reduzindo naturalmente a “distância” que Clark queria manter. Em outras palavras, o diretor não alcança completamente o que quer não por inabilidade sua, mas sim pela premissa em si.

No entanto, o documentário é muito bem estruturado e agrega conhecimento mesmo para aqueles que, como eu, esperava ver as teorias terraplanistas destruídas sob o peso das evidências. A Terra é Plana, bem diferente de ser um ataque e muito menos uma defesa (já vi gente dizendo que esse documentário é um desserviço à ciência pois propaga a teoria terraplanista –  o que é uma bobagem sem tamanho), tenta mergulhar na natureza do ser humano e entender o porquê de pessoas cultas abraçarem de maneira tão firme posicionamentos que não se sustentam em pé nem por um segundo.

A Terra é Plana (Behind the Curve, EUA – 2018)
Direção: Daniel J. Clark
Com: Mark Sargent, Patricia Steere, Bob Knodel, Jeran Campanella, Nathan Thompson, Chris Pontius, Scott Kelly, Spiros Michalakis, Per Espen Stoknes, Hannalore Gerling-Dunsmore, Tim Urban, Stephen Hagberg
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.