Crítica | A Torre Negra (Sem Spoilers)

  • Leiam, aqui, a crítica com spoilers.

Inspirando-se na franquia homônima do escritor Stephen King, o cineasta Nikolaj Arcel teria como um dos seus principais desafios propor a mistura de gêneros que a criação de universo do autor instiga. A partir de uma construção bastante particular de mitologia, pistoleiros, magos, monstros e criaturas das trevas se encontram em uma obra que, portanto, supostamente combinaria faroeste a ficção científica, fantasia e até mesmo terror. Esses elementos estão presentes no longa, de certa maneira, apesar do péssima trabalho de evidenciação e exploração de cada um deles, parecendo envenenar o restante por uma chateação extrema. O desgosto marcado na apresentação de uma obra que, quiçá, começaria uma franquia é prejudicial, ao passo que o desinteresse é sintomático desde o início da projeção. Diante de uma premissa simples, que posiciona bem contra o mal em uma jornada ao mesmo tempo íntima dos seus protagonistas – que lidam com perdas pessoais -, o resultado é sucateado por conta das imprecisões dos responsáveis pelo projeto. Assim sendo, os valores de gênero, úteis às imagens, são esquecidos em prol de uma aventura genérica que se desenrola rapidamente, sem aproveitar as oportunidades criativas surgidas para ela. Diria até que, em comparação a tantos outros universos de protagonistas juvenis que ocuparam o começo desse século, o longa é um tardio exemplar negativo de uma febre que não é mais importante realmente.

Como acontece em grandes desventuras protagonizadas por crianças, a descoberta de um outro mundo está presente nessa adaptação cinematográfica. No longa, o jovem Jake Chambers (Tom Taylor) é o centro das atenções, pois sonha rotineiramente com uma torre negra, um homem de preto, pessoas sinistras com pele falsa, dentre outras tantas coisas. A sua mãe e o seu padrasto, contudo, acreditam que o trauma decorrente da perda do pai do menino é o que vem causando os seus pesadelos. Clássica característica essa, por sinal, a de protagonistas-mirins que não têm pai. Mas, nesse sentido, o maior problema do roteiro – assinado por várias cabeças – é não conseguir conectar a perda pessoal referida, em menor escala, com a trama mais grandiloquente que em breve será assumida, antecipada pelos terremotos em Nova Iorque. Se Harry Potter não ter pais é relevante a mais de um âmbito dramático, Jake não ter um o ajuda apenas a se aproximar de um certo personagem. Contudo, um posterior evento específico mina qualquer relevância do pai, para que a união dos dois se concretize por outras razões. Um roteiro que entendesse, em termos de construção, as propostas das coisas que insere, não tardaria em unir uma questão a outra. Do contrário, inúmeros pontos apresentados soam alheios a quaisquer desenvolvimentos – como o garoto sofrer bullying na escola, que é citado em uma única cena, ou o seu gratuito amigo humano.

O primeiro ato da obra, porém, traz bem mais decisões precipitadas que meramente essa. Logo que o enredo se consolida, no caso, urge uma necessidade por contraste entre mundos e, por isso, apresentação de um novo, principalmente os seus inimigos. Nikolaj, portanto, poderia realmente construir uma ameaça marcante por meio do gênero de terror, através dos pesadelos do garoto. A presença do antagonista, interpretado por Matthew McConaughey, é, no entanto, esvaziada por uma série de equívocos crassos, compartilhados também pelo péssimo roteiro. O longa conta, por exemplo, com uma introdução que também serve como parte dos pesadelos de Jake, assim como contextualização do enredo e seus confrontos. O teor onírico, porém, é ignorado completamente, o que exemplifica a recusa do cineasta em explorar a ameaça do seu vilão. No mais, também existe um outro rejeito em questão, que é em não se querer preparar terreno para a quebra da realidade com a magia. Ora, as visões de Jake já são compreendidas pelo público como visões, enquanto um questionamento mais alongado da sua mentalidade poderia intensificar todos os processos simultâneos que o acompanha – as rixas com o padrasto, a frustração da mãe. Do contrário, tudo se resolve em quinze minutos, ocupados por vastas sequências no passado que já desperdiçam a apresentação de dois personagens icônicos: o tal Homem de Preto e Ronald Deschain (Idris Elba).

O problema do longa não reside em simplificar-se a mitologia naturalmente mais complexa dos materiais originais, porém, em apressar-se o que continua presente no seu todo, como uma disputa classicista entre bem e mal, um contraste entre mundo mágico e realidade e a típica jornada do herói. Os noventa minutos de duração mostram ser, assim, insuficientes para o que a obra busca alcançar. Por isso, não apenas por conta de uma contextualização desestimulante, o resultado não conquista. Pois esse também é um longa-metragem insípido na sua execução imagética, tanto por parte das imagens em si quanto por parte de um roteiro que pouco espaço tem para oferecer ao cineasta. Cenas são comprometidas por uma velocidade excessiva, e dramas são intercalados por segmentos postos no momento errado, sem conseguir se movimentar bem ao longo do filme – como é o caso do pai morto de Jake. É parte da obra, deste modo, uma montagem problemática: o susto que Ronald toma ao ouvir o nome do seu arqui-inimigo é picotado por planos que não se encaixam, que não permitem nem os momentos menos explosivos de respirarem e promoverem os seus objetivos sem um frenesi. Dito isso, um roteiro que não sabe como construir a sua narrativa, que parece ter sido composto de forma aleatória por peças desconjuntadas, junta-se a uma direção que não entende como decupar as cenas para que fossem eficientes em relação ao que se propõe.

Do tanto que termina se contradizendo ou perdendo força ao longo da obra, rumando sem uma direção exata, a produção aparenta ter passado por uma costura de retalhos que não compõem um tecido uniforme. Criativamente, nem os ideais estéticos são bem pensados. Ao passo que o Homem de Preto, como aponta o seu nome, veste preto, o Pistoleiro igualmente, o que não ajuda nenhum pouco na fundamentação de uma dicotomia, ainda que o personagem de Elba esteja passando por um processo depressivo – por sinal, superficial. Em vista da cinematografia, existe mesmo uma identidade visual notória – tons acinzentados que cada vez mais sustentam ares pessimistas, pela aproximação à escuridão. No entanto, não intensifica-se de um modo honesto o processo narrativo do embate do bem contra o mal, pois este soa irrelevante, inconsequente. Nem os momentos teoricamente mais intensos, na verdade, sustentam a intensidade almejada, porque são desmanchados por irregularidades constantes ao projeto inteiro. Veja os cenários: ainda que Nova Iorque seja um que renova os olhos dos espectadores, os ambientes exteriores à cidade redundam uma atmosfera que estafa não por ser tão sombria, mas incompetente em se expressar, ser sentida pela magnitude que Nikolaj gostaria. Isso tudo, entretanto, é extremamente natural a bastidores muito nervosos, que complicaram bastante a execução, o lançamento e apreço da obra.

Em um longa que não compreende a capacidade dos elementos que posiciona em cena, resta a competência de indivíduos que, por sua vez, realmente buscam conquistar algo por meio de suas interpretações, ou seja, serem sentidos de maneira sincera. Por exemplo, o personagem de Elba consegue ser muito mais convincente em comparação aos demais – especialmente McConaughey, que decepciona -, justamente por conta do seu artista. O ator se compromete à jornada pessoal de Roland, investindo peso as suas motivações, mesmo que sejam unidimensionais. Claro que, caso soubéssemos menos acerca do Pistoleiro de maneira tão antecipada, um mistério ajudaria para construir ainda mais aura sobre o co-protagonista, o que dependeria, entretanto, de uma obra que visse os tantos potenciais subjacentes. Em contrapartida, nada da sua Terra, o Mundo-Médio, é tão crível quanto a sua presença, o que minimiza a experiência a somente uma única relação com substância – e uma muito simples, na verdade. E, ao invés de aproveitar isso, a obra, ao contrário, opta por cenas de teor cômico – no contraponto entre mundos distintos, Nova Iorque e a inóspita outra dimensão – que pouco agregam. Por ser um longa sem pé e nem cabeça, não existe uma real unidade no projeto, que trace propostas de fato coesas entre si. Dessa forma, A Torre Negra troca as expressividades que nunca conquista por uma inocuidade, representativa de seu fracasso.

A Torre Negra (The Dark Tower) — EUA, 2017
Direção:
Nikolaj Arcel
Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen, Nikolaj Arcel (baseado na série de livros de Stephen King)
Elenco: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Ben Gavin, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Fran Kranz, Abbey Lee, Katheryn Winnick, Nicholas Pauling, Michael Barbieri, José Zúñiga, Nicholas Hamilton, Inge Beckmann, Alfredo Narciso
Duração: 95 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.