Crítica | A Tortura do Medo

Um homem fascinado pela imagem, responsável por retratar os seus assassinatos por meio de fotografias, tendo em vista observar as expressões de horror das vítimas antes de se tornar “um nome na lista”. Eis o argumento central de A Tortura do Medo, filme de Michael Powell, lançado em 1960, ignorado pela crítica especializada, mas visto por muita gente especializada como o grande precursor do slasher. Martin Scorsese, por exemplo, é um dos defensores da produção como uma pérola do cinema esquecido pelos gritos de pavor e uma tal cena de assassinato no banheiro, oriundos de um filme que também é tido como uma das bases do slasher e que em 1960, foi um pomposo e estrondo midiático, haja vista seu apuro estético e contextual: Psicose, de Alfred Hitchcock, produzido do outro lado do mundo, grande responsável por ofuscar o filme de Powell.

Lançados no mesmo ano, ambas as produções foram tidas como reveladoras de traumas da infância. O problema é que Powell sucumbiu, sem a mesma experiência que Hitchcock para lidar com a crítica e seus desdobramentos no sucesso ou fracasso de um filme. Taxado de patológico e pervertido, o psicopata de A Tortura do Medo traz alguns traços do assobio arrepiante de um dos monstros de Fritz Lang e seu expressionismo alemão. Na seara das interpretações, o crime resultado em morte, consequência que por sua vez, ganha dimensão estética, tornando-se belo, algo que causa no mínimo estranheza, não atualmente, já que nos encontramos numa sociedade onde a violência é um rentável e desejável espetáculo, mas para a época hipócrita, foi um choque lamentável, pois com seu virtuosismo, Powell tinha potencial suficiente para realizar muita coisa, haja vista seu interesse por experimentações e exploração de temas inusitados.

Na trama, Mark Lewis (Carl Bohm) é traumatizado por conta de experiências realizadas quando criança, oriundas da mente instável de seu pai. Lewis, em seu tenebroso passado, foi laboratório para um estudo sobre a resistência das pessoas diante de seus medos e por isso, tornou-se um assassino que utiliza as pontas do tripé de sua câmera como arma branca para o crime. Ele vive uma existência pacata, não tão quanto Ed Gein, mas discreto. Funcionário de uma pequena produtora de filmes, também atua como fotografo de uma agência de notícia. Um indivíduo acima de qualquer suspeita, mas que esconde a sua faceta assassina. Ao se posicionar para filmar a pessoa que sequer espera ser aniquilada, ele capta a expressão de horror estampada no rosto das pessoas. Uma delas é Vivian (Moira Sheaver). Mais adiante, ele estabelece uma amizade com Helen (Anna Massey), inquilina do prédio onde mora, mas os planos de torna-la a sua próxima vítima são corrompidos quando a moça descobre o seu plano macabro para executá-la.

Próximo ao final, a polícia chega em tempo de estragar os seus planos. Contudo, ele não deixa de registrar a sua própria agonia na exata hora da morte, ao se suicidar, captação tal qual fez com suas vítimas. Com sua paleta de cores bem peculiar, oriunda do cuidadoso design de produção de Arthur Lawson, a narrativa nos guia por esse mundo de mortes e fetiche pela imagem através da direção de fotografia eficiente de Otto Haller, sempre bem acompanhada da condução musical de Brian Easdale. É uma linguagem audaciosa, onde tais elementos, justapostos, entregam ao espectador um filme com atmosfera psicanalítica, repleto de detalhes alegóricos. Voyeurismo, perversão e o ato de produzir imagens para alimentar a sua obsessão por captação do medo na expressão facial alheia é material para extensas elucubrações sobre as extensões da psicopatia nas relações humanas.

A Tortura do Medo encontrou ressonâncias em Um Tiro na Noite, de Brian De Palma, cineasta que já revelou, certa vez, ter sido marcado pela experiencia estética e temática do filme.  Também há traços em Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter. O fascínio do cinema no ato de despertar a curiosidade alheia já ressoou também em outros tantos cineastas, inclusive no ítalo-americano Scorsese, ciente do problema dos filmes diante do contemporâneo, sendo as suas produções, inclusive, alvo de reinterpretação anos depois de seu lançamento original, saiu numa cruzada em busca da restauração e reconhecimento atual deste clássico. A produção responsável por destruir a carreira de Michael Powell na Inglaterra foi encontrada e levada por Scorsese para Nova Iorque, onde junto ao apoio financeiro de Francis Ford Coppola, teve relançamento garantido, com versões repletas de extras, isto é, análises retrospectivas e afins.

Com cenas de flashback, adentramos na zona psicológica perturbada do protagonista, um homem marcado pelas experiências do pai, interpretado pelo próprio Michael Powell, em dupla função. Dentre as cenas marcantes e que recaem para um debate filosófico, temos a cega que adentra ao local de exibição particular do perigoso personagem e pede que ele descreva cada uma de suas telas, num exercício inteligente de metalinguagem e poder da imagem. Um filme que mereceu o seu resgate e deve ser visto pelos interessados na evolução da linguagem do cinema enquanto arte. Por fim, como curiosidade, em Pânico 4, próximo ao desfecho, o assassino faz algumas perguntas ao telefone e uma delas é sobre o primeiro filme de assassino em série. A personagem responde Psicose, mas Ghostface retruca e diz que não, pois antes, Michael Powell havia lançado o primeiro filme do tema com os assassinatos sob o ponto de vista do assassino. Kevin Williamson e Wes Craven, como bem sabemos, entendem das coisas.

Tratado como mórbido e revoltante, o filme teve dificuldades para ser lançado. Powell, guiado pelo roteiro e história original de Leo Marks, tornou imagem as ideias freudianas do roteirista, num filme com reconhecimento tardio, hoje objeto de culto para pesquisadores e cinéfilos. Em sua trajetória, Michael Powell não foi apenas concorrente de Alfred Hitchcock em 1960. Conta-se que ele atuou como diretor de fotografia do mestre do suspense em Chantagem e Confissão, primeiro filme falado de Hitchcock, tendo ainda como experiência a execução da famosa cena de perseguição no museu britânico. Tendo experimentado várias funções no processo de realização fílmica, Powell teria um destino menos obscuro se não tivesse sucumbido com as críticas de A Tortura do Medo, hoje um filme poderoso e necessário para compreensão de um dos personagens mais comuns na cinematográfica industrial: o psicopata em série, com seus fetiches e passado traumático.

A Tortura do Medo (Peeping Tom/Inglaterra, 1960)
Direção: Michael Powell
Roteiro: Leo Marks
Elenco: Anna Massey, Brenda Bruce, Karlheinz Böhm, Martin Miller, Maxine Audley, Miles Malleson, Moira Shearer
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.