Crítica | A Tortura do Silêncio

A Tortura do Silêncio foi um dos filmes de Alfred Hitchcock que mais demoraram para sair do papel, com oito anos desde o tratamento do primeiro roteiro até a versão que seria filmada, 12 roteiristas depois. Mas as dificuldades não pararam por aí. Apesar de o período de filmagens ter permanecido dentro do esperado (entre agosto e outubro de 1952), houve uma enorme dificuldade de Hitchcock em se adaptar ao estilo Método de Montgomery Clift atuar, sem contar o fato de que o ator bebia constantemente e causava mal-estar no set por insistir na presença de sua orientadora dramática (Maria Rostova), dirigindo-se a ela para checar como fora sua atuação e não ao diretor.

Mas nem mesmo esses problemas tiraram a força da atuação de Clift, que traz para a tela a delicadeza, a paz e a visível insatisfação em momentos de crise de um jovem padre que ouve uma confissão de assassinato, mas não pode dizer nada à polícia, mesmo quando as suspeitas do crime recaem sobre ele. O sacramento da confissão é aqui tratado com o maior respeito pelo roteiro e pelo diretor, que torna o crime ouvido durante a confissão o núcleo moral da fita, que colocará o sacerdote em uma crise de fé: ou ele cumpre a missão de manter o segredo diante da confissão ouvida ou ele renuncia o sacerdócio para então livrar o seu pescoço da forca.

Esta não é uma temática simples e sua condução por Hitchcock indica isso desde o início. O filme não é um noir, mas empresta uma boa quantidade de elementos visuais desse estilo, e isso já na forma como o público é introduzido ao espaço geográfico onde a trama acontecerá (lembrando que parte das filmagens aqui aconteceram no Canadá, local onde a história se passa). Planos inclinados, ruas vazias, montagem que sugere uma urgência que ainda não entendemos e a trilha sonora de Dimitri Tiomkin criando uma gravidade imediata, tom que o compositor sustentará em todas as peças do filme, com toques mais solenes da metade para o final.

A jornada de angústia do padre passa por momentos interessantes e outros nem tanto. Me parece sem propósito aquela caminhada pela cidade, onde Logan chega a ver o pôster de Um Preço Para Cada Crime (1951) e se enxerga no lugar do prisioneiro. A sequência, por extensão de tempo, termina com o padre se entregando na delegacia, mas a caminhada em si recebe apenas dos marcos que começam a validá-la, dar-lhe o pretendido sentido de reflexão (esse momento do pôster e o momento em que Logan se encosta, com as mãos no rosto, em uma coluna), uma iniciativa que não recebe continuidade e é interrompida para terminar com entrada do acusado na sala do Inspetor. Desse ponto em diante, a reflexão de culpa, consciência e fé é parcialmente colocada de lado e a direção se torna bem mais ágil, ao passo que o roteiro investe na final construção do personagem de O.E. Hasse (Otto), o fiel infame.

Não sou exatamente fã da sequência do julgamento, mas ela cumpre o papel de preparação para o final, mesmo com sua rapidez e falta de detalhes dramáticos em momentos necessários. Sequências de tribunal são importantes demais em um filme, e num enredo já bastante adiantado e com coisas ainda mais notáveis para acontecer, espremer um bloco no tribunal abre espaço para dois problemas que encontramos na reta final da película: menos tempo de tela para alguns personagens e situações que poderiam ter pontas dramáticas e polidas; e adição de algo que não receberá o cuidado que sabemos que um diretor como Hitchcock poderia dar, em outro contexto. O resultado é que cenas como a saída de Logan do tribunal e a perseguição a Otto no hotel acabam tendo maior força que a sequência de julgamento.

Como qualquer religião (especialmente as monoteístas) o Cristianismo exige de seus fiéis uma série de renúncias e comportamentos que normalmente causam incômodo e incompreensão para quem está de fora do Evangelho, para os que não possuem fé. O padre Logan tem um passado não exatamente bem visto pela sociedade (como a maioria dos religiosos no mundo inteiro), mas sua devoção é legítima e sua confiança em uma justiça maior, embora isso não seja abordado no filme, o ajuda a manter-se firme no silêncio sacramental da confissão. É uma postura interessante, com ares de milagre após a decisão do júri e com um final que obviamente caminha para uma situação moralista, mas é perfeitamente coerente com a marca cristã que abraça o texto, confirmando que “o salário do pecado é a morte“, máxima sugerida pela mesma religião. Suspense de linha religiosa bem conduzido e bem atuado, A Tortura do Silêncio é capaz de gerar uma boa discussão sobre o exercício e as escalas da justiça terrenas e celestiais.

A Tortura do Silêncio (I Confess) — EUA, Canadá, 1953
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: George Tabori, William Archibald, Paul Anthelme
Elenco: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl MaldenBrian Aherne, O.E. Hasse, Roger Dann, Dolly Haas, Charles Andre
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.