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Crítica | A Tragédia de Macbeth, de William Shakespeare

Algo sinistro vem nessa direção...

por Ritter Fan
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Out out brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.
– Macbeth – Ato V, Cena V

Como praticamente toda a incomparável bibliografia de William Shakespeare, existem muitas dúvidas sobre quando exatamente o bardo britânico escreveu Macbeth – ou A Tragédia de Macbeth, para usar o título integral – e, mais ainda, em quanto tempo. Mas existe uma certeza, que a peça foi montada, pela primeira vez, em 1606, com muitos historiadores concordando que ele a teria escrito não muito tempo antes, algo como entre o final de 1605 e o começo de 1606, ainda que existam outros que defendam que pelo menos os primeiros rascunhos tenham surgido tão cedo quanto 1599.

A relevância do momento em que a peça foi escrita se dá por duas razões primordiais. A primeira dela, referente ao tempo que ele levou para escrevê-la, tem conexão direta com seu tamanho. Trata-se da mais curta tragédia de Shakespeare, uma em que seus famosos e longos solilóquios basicamente inexistem, sendo substituídos por monólogos consideravelmente curtos, ainda que não menos marcantes. Há especialistas que defendem que o escritor teria soltado a primeira versão da peça em apenas 10 dias, como uma obra para substituir às peças outra que sua companhia de teatro havia montado e fracassado. O momento histórico, porém, em que ele talvez tenha escrito Macbeth é mais relevante, já que a tragédia é claramente uma obra para afagar o ego do Rei Jaime VI (ou I se considerarmos seu título como rei da Inglaterra e Irlanda), da dinastia Stuart, que sucedeu a Tudor, da afamada Rainha Elizabeth I, famosa por patrocinar as artes.

A expectativa era que Jaime VI fosse reestabelecer a religião católica na Inglaterra, mas ele seguiu a linha de seus antepassados, o que levou a protestos que culminaram na famosa Conspiração da Pólvora, em 1605, aquele em que Guy Fawkes foi preso logo antes de conseguir explodir o Parlamento. Portanto, havia descontentamento pelo reinado de Jaime VI e, como ele, assim como Elizabeth I, era patrono das artes, por ser altamente letrado e também autor de livros, era importante que as companhias teatrais estivessem “de bem” com ele. Se Shakespeare escreveu Macbeth em algum momento entre 1605  e 1606, muito do que está na obra pode ser visto como uma resposta à conspiração citada, especialmente porque o grande autor usa como base para a tragédia três elementos importantíssimos e queridos para Jaime VI: elementos de bruxaria (o rei escrevera Daemonologie, em 1597, um tratado sobre o tema), as qualidades que fazem de um rei um bom rei (o rei escrevera The True Law of Free Monarchies e Basilikon Doron, em 1598 e 1599, que abordam essa discussão em minúcias) e, finalmente, a linhagem Stuart, com o personagem mais importante depois de Macbeth e Lady Mcbeth, Banquo, sendo retratado com honestidade e pureza, já que Jaime o considerava seu antepassado direto.

Nesse ponto, é relevante lembrar que Macbeth não é pura ficção. A obra tem firme base histórica. O Rei Macbeth da Escócia (ou, originalmente, Mac Bethad mac Findlaích) realmente existiu, assim como Banquo, seu fiel amigo, com Macbeth só se tornando rei depois da morte, em batalha, do Rei Duncan I. O que Shakespeare faz, com base na regra elisabetana que proibia a abordagem de eventos recentes, é usar a figura histórica, que reinou de 1040 a 1057 sendo geralmente considerado um bom monarca, e subvertê-la completamente, fazendo com que o nome Mcbeth passe a ser, no imaginário popular, sinônimo de pessoa influenciável, traidor, obcecado, assassino e louco. Com isso, ele muito claramente abre espaço para Banquo, inicialmente amigo de Mcbeth, mas que logo percebe seu maquiavelismo ao lado de sua esposa, ser o bastião da moralidade.

A peça é, essencialmente, sobre ambição desmedida. O brilhante gatilho narrativo é a profecia de três bruxas – chamadas de Irmãs Estranhas – que dizem a Macbeth, então um valoroso general do Rei Duncan, que ele em breve será rei. Banquo está a seu lado quando a profecia é falada e, ao perguntar sobre si próprio, as bruxas afirmam que ele não será rei, mas sim o patriarca de uma linhagem de reis (novamente, um aceno à dinastia Stuart). É fascinante ver como esse começo simples – retirado diretamente de Holinshed’s Chronicles, famosa compilação de contos sobre a formação das ilhas britânicas – é trabalhado como a maldita profecia autorrealizável, com Macbeth logo salivando pelo trono e, no processo, sendo obviamente influenciado por sua esposa, a fria e inteligente Lady Mcbeth. Mas o que realmente importa é o que Macbeth glosa: a profecia sobre Banquo. Se Macbeth será rei, mas é Banquo quem será o pai de uma linhagem de reis, o que exatamente isso significa para o reinado de Macbeth?

O que segue daí é o famoso assassinato do Rei Duncan pelas mãos de Macbeth com a valiosa ajuda de sua esposa, momento marcante e sombrio que passa a assombra terrivelmente o casal e iniciando uma espiral de outros assassinatos decorrentes de obsessão, ganância e puro pavor. Muita gente considera que Lady Mcbeth é a real vilã por trás dos atos de Macbeth, mas a grande verdade é que ela apenas amplifica o que já está perfeitamente formado na cabeça do general e, logo em seguida, rei. O que Lady Mcbeth tem de brilhante é ser uma das melhores personagens femininas de Shakespeare – se não for a melhor – por ganhar espaço não como coadjuvante, não como dama em perigo ou objeto de cobiça, mas sim como participante direta nos atos que são chave para o desenvolvimento da peça.

Em termos relativos, dentre todas as tragédias e/ou peças históricas de Shakespeare, Macbeth, pelo seu tamanho “diminuto”, é uma das mais fáceis de ler. O inglês ainda é, claro, bastante rebuscado e repleto de referências eruditas à história da Inglaterra e do mundo conhecido à época, além de diversas obras literárias, incluindo as citadas do próprio Rei Jaime VI, mas o que o bardo faz é criar o que hoje poderíamos classificar de um thriller psicológico em que ele mergulha profundamente na mente humana, trabalhando obsessão, paranoia, depressão, ansiedade e até esquizofrenia, com uma fascinante abordagem sobre a influência de sonhos e pesadelos, isso algo como 300 anos antes de Freud e do começo da psiquiatria como a conhecemos.

Outra impressionante característica de A Tragédia de Macbeth, uma que está presente desde as primeiras linhas do Ato I que apresentam as três bruxas, é a falácia patética, com a natureza sendo largamente utilizada para refletir os eventos e pensamentos que são discutidos, literalmente personificando o que é narrado. Desde a chuva torrencial que banha as Irmãs Estranhas que preveem a chegada – ou atraem, dependendo de como interpretamos – Macbeth em seu caminho, passando pelo terremoto sentido durante o regicídio, além da ordem natural das coisas ser subvertida por aves predadoras que são caçadas por suas suas presas, além deu um sinistro eclipse, tudo que está ao redor dos personagens respira e tem vida e comenta os eventos como um bizarro, sufocante e maligno Coro Grego. Não é que seja a primeira vez que Shakespeare usa a falácia patética, já que Sonho de uma Noite de Verão é um dos maiores exemplos dessa técnica literária, mas, em Macbeth, creio que ele alcance seu ponto alto, transformando a natureza em verdadeiro personagem e um que influencia a espiral de loucura que traga Macbeth e sua esposa, até porque, ao final, há uma cena em que uma floresta literalmente ataca o castelo do rei traidor, algo que obviamente inspirou diretamente ninguém menos do que J.R.R. Tolkien.

Macbeth é, em resumo certamente injusto e inadequado, o tratado literário definitivo sobre a ganância humana. O que Shakespeare coloca em relativas poucas palavras reverbera fácil e precisamente hoje em dia como se a obra tivesse sido escrita ontem e revela de vez o bardo como um profundo e sensível conhecedor da terrível natureza humana capaz de fazer qualquer coisa por objetivos efêmeros, além de indicar sua inimitável capacidade de escrever com objetivos econômicos claros, como foi o caso aqui para “agradar” Jaime VI, mesmo que, no geral, a obra fale muito mais do que monarcas são capazes de fazer para agarrar-se ao seu trono do que especificamente Macbeth faz para chegar ao dele.

Obs: Por último, gostaria de comentar que, como é muito comum nas obras de Shakespeare, existem diversas versões de Macbeth. Por curiosidade, quando reli a peça para escrever a crítica, procurei a versão que foi adicionada de cenas muito obviamente não escritas pelo bardo, mas sim por Thomas Middleton, seu contemporâneo. O autor de As Bruxas focou suas inserções justamente para amplificar a participação das maléficas irmãs, inclusive acrescentando ninguém menos do que Hecate como personagem. Não só a métrica de Middleton é completamente diferente da de Shakespeare, o que obviamente quebrar o ritmo do texto, como ele acrescenta canções pelas bruxas que esvaziam de Macbeth – o personagem – a responsabilidade por suas ações, fazendo tudo parecer influência direta da magia das criaturas, o que obviamente nunca foi a intenção. E, como se isso não bastasse, o mítico “número três” – três bruxas, três cenas em que elas aparecem, três profecias – é destroçado pela adição de mais uma bruxa, a “chefe” delas e outras duas cenas, levando o total completamente sem sentido de quatro bruxas e cinco cenas. Moral da história: fujam da versão com Middleton!

A Tragédia de Macbeth (The Tragedy of Macbeth – Reino Unido, 1605-6)
Autor: William Shakespeare
Data original de publicação (montagem): 1606 (publicado de maneira organizada no fólio de Edward Blount e WilliamJaggard, em 1623)
Páginas: 340 (na versão lida)

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