Crítica | A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe

O final, senhoras e senhores… O final dessa peça escrita por Christopher Marlowe entre 1589 e 1592 é algo absolutamente pavoroso e ao mesmo tempo fascinante de se ler. Mas estamos colocando os diabos na frente dos bois, vamos começar do começo. E isso quer dizer… contexto.

The Tragical History of the Life and Death of Doctor Faustus é uma das mais antigas dramatizações da lenda desse famoso personagem, possivelmente Johann Georg Faust (c. 1466 ou 1480 – c. 1541), um alquimista itinerante, astrólogo e mago do Renascimento alemão. Como o tema do Diabo aliado aos resquícios da neurose eclesiástica no imaginário popular sempre foi algo muito forte na Europa medieval e moderna, não é nada difícil imaginar o motivo pelo qual um personagem histórico que trabalha com coisas supostamente “mágicas, sombrias e impossíveis” tenha se tornado uma lenda ligada ao Sete Pele. A considerada primeira versão impressa a respeito da vida e dos pecados desse personagem aconteceu em 1587 (Historia von D. Johann Fausten) volume cuja tradução para o inglês, em 1592, inspirou o dramaturgo e poeta Christopher Marlowe a escrever essa peça que foi essencial para a cristalização da lenda.

Consta que A Trágica História recebeu diversos adendos, alguns feitos por diversos outros autores, mas a versão hoje normalmente divulgada é a que provavelmente se aproxima da versão revisada do próprio autor. Muito se debate sobre a presença ou ausência das partes cômicas na peça, se seriam ou não de Marlowe, mas devo dizer que as cenas desse caráter na peça são em geral coerentes com o todo, não parece um encaixe mal feito ou que estão ali apenas para distrair o público após momentos de tensão e horror, de modo que a importância disso é mais histórica do que literária, já que não afeta a qualidade geral obra (apenas atrapalha algumas cenas) e nem chama atenção, por muito tempo, para além daquilo que ela tem de melhor.

Das várias gravuras de grimórios ou textos mágicos atribuídos ao Fausto histórico, temos aqui a essência, assim como aquilo que marca a lenda, em qualquer versão aliada ao original: um homem da ciência, já tendo esgotado o estudo das coisas que lhe interessavam e tendo grande desprezo por outras áreas de estudo (especialmente a Teologia) o Doutor Fausto dessa peça pede orientação a alguns amigos para que consiga invocar o Diabo e após conseguir, realiza um pacto: sua alma para Lucifer em troca de conhecimentos inomináveis, algo que ele não sabia, mas só duraria vinte e tantos anos e não seria assim tão amplo quanto imaginava — tendo no meio do caminho a assistência do cínico Mefistófeles.

O momento do pacto na peça é realmente impressionante, mesmo para um leitor de hoje, e fico imaginando isso para um espectador num teatro do século XVI. Lendas da época atestam que em uma das apresentações o próprio Capiroto apareceu no palco (!) e isso mostra a força da escrita de Marlowe, que é reforçada no final, com uma sequência simplesmente angustiante sobre os últimos momentos de Fausto, em seu dilema final entre se arrepender ou não para ter a salvação de Deus e o orgulho + o Diabo o atormentando para se manter firme ao pacto e encarar o Inferno. Se a sequência do pacto atemorizou o público naquele início de Idade Moderna, certamente o final deixou todo mundo roendo as unhas.

Eu não gosto de muitos momentos do desenvolvimento da peça, e a ideia que o autor quis passar das viagens de Fausto ao lado de Mefistófeles não faz sempre jus ao restante da obra, especialmente a cômica e entediante cena em que o personagem “invade” uma reunião em que o Papa e o topo da hierarquia católica estavam. De toda forma, entendemos a função dessas viagens e a interação feita entre Fausto e pessoas de diferentes classes sociais e crenças, mas nem sempre essas interações funcionam de maneira tão boa quanto outros momentos da peça (as cenas cômicas entre os servos funcionam melhor que as cenas cômicas com Fausto!). Extremamente importante para a formulação das bases sobre a vida desse personagem na ficção, esta Trágica História tem um sabor todo especial para quem gosta de histórias de terror com essa premissa de pacto para o Diabo. Uma peça clássica que entretém e impressiona mesmo séculos depois de ter sido escrita.

A Trágica História do Doutor Fausto (The Tragical History of the Life and Death of Doctor Faustus) — Reino Unido, 1592
Autor: Christopher Marlowe
Publicação lida para esta crítica: Editora Hedra (2017 – edição e-book)
Tradução: A. de Oliveira Cabral
125 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.