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Crítica | A Trilogia Nikopol

por Luiz Santiago
165 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5

Nascido em Belgrado, Sérvia (antiga Iugoslávia), Enki Bilal é o autor da Trilogia Nikopol, lançada no Brasil pela Editora Nemo, reunindo em uma luxuosa edição os três álbuns que compõem a obra original, A Feira dos Imortais (1980), A Mulher Armadilha (1986) e Frio Equador (1992). A história se passa em versões futurísticas e distópicas Paris, Londres, Berlim, Cairo e da fictícia Equador City, localidades repletas de seres de todos os lugares e planos da existência. Em relação a outras obras de ficção científica e nuances políticas vistas em quadrinhos, a saga de Enki Bilal traz o diferencial do máximo absurdo, do grotesco social e antropológico que vai de querubins a cyborgs, de deuses egípcios a sanguessugas empoleiradas na Torre Eiffel, de Benito Mussolini a Alcide Nikopol.

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A Feira dos Imortais

A imortalidade é uma forma de ditadura da vida sobre a morte. Sendo ditador e estando vivo, só me resta tornar-me imortal. E me tornarei, mesmo que morra por isso.

J.F. Choublanc (Escritos Diversos, Paris, 2023)

Quem tem por hábito ler quadrinhos sabe que não é assim tão comum uma história impressionar, desde o início, pela sua arte e roteiro. Algumas vezes a história é maravilhosa, mas a arte vai se construindo aos poucos, passando de uma realidade mediana para algo melhor ao final da edição; outras vezes é o texto que começa pouco inspirado e só engrena depois de algumas páginas ou capítulos. No caso desse primeiro álbum da Trilogia Nikopol, arte e roteiro deslumbram o leitor já nos primeiros quadros. Sabemos que a história se passa em Paris, no início de março de 2023, e a primeira cena que temos, após a introdução ácida de Enki Bilal, é a de uma pirâmide flutuante no meio da cidade (no Astroporto Paris-Sul), onde os deuses egípcios Anúbis, Bastet, Thoth, Khépri e Bes estão jogando Monopoly.

Passamos então para o Eliseu, palácio do governo de uma ditadura fascista comandada por Jean-Ferdinand Choublanc. O caráter do governo é de uma falocracia, onde as mulheres são condenas a viver como reprodutoras e sem nenhum direito, em lugares escondidos. Na superfície transitam apenas homens de maquiagem pesada e aparência afeminada. Essas caraterísticas aparecem como plano de fundo da história e o autor vai adicionando lenha à fogueira com a aparição de Alcide Nikopol e a possessão de seu corpo por Hórus, deus egípcio que quer vingança de seus pares que vivem na pirâmide flutuante.

Junto ao absurdo dos acontecimentos, Eki Bilal toca nas mais ocultas feridas sociais, passando pela religião, ironizando rituais papais, questionando o modo como governos e ideologias são obedecidos e como se erguem e caem com facilidade impressionante. Esse primeiro volume trata justamente da questão da mudança de poder no meio de uma sociedade de neve esverdeada, ventos sulfúricos e destruição quase total depois de duas guerras nucleares. Do fascismo para a democracia que não abandona rituais antigos, convivemos com a farsa política, a chantagem e as ameças de grupos descontentes com o poder em vigor. Fica muito claro o reflexo da França dos anos 1980 nas entrelinhas do roteiro. Cada personagem tem sua representação na geopolítica mundial, mesmo os alienígenas que convivem entre os homens desse futuro sujo e contaminado. O final do álbum ridiculariza a própria situação com um Deus ex machina irônico, culminando no lugar mais provável, depois de tudo o que se passou: um centro psiquiátrico.

A arte de Enki Bilal nesse álbum é repleta objetos e pessoas por todos os lados, com quadros sempre muito cheios, cores frias e opacas, muita sujeira e abuso de planos médios e pequenos, tornando toda a saga bastante pessoal. Diferente do álbum seguinte, temos poucas narrações e muito material de imprensa, mostrando diferentes versões do que acontece na cidade. O roteiro, ao mesmo tempo que dilacera todo o tipo de instituição, mantém vivo um humor negro de alta categoria crítica.
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A Mulher Armadilha

Após dois anos (no tempo narrativo) e alguns sonhos premonitórios que separam os acontecimentos do primeiro para este segundo álbum, a parte dois da Trilogia Nikopol mostra o que aconteceu ao desafortunado e perturbado Alcide Nikopol quando o deus Hórus abandonou o seu corpo. O homem não consegue parar de recitar Baudelaire e rir sem motivo aparente. Do Centro Psiquiátrico Saint-Sauveur, em Paris, 22 de fevereiro de 2025, vamos para Londres, onde conhecemos a heroína que dá título ao álbum, Jill Bioskop, a mulher armadilha.

O álbum é centrado na vida de Jill e nos percalços políticos e étnicos que compõem a sociedade europeia naquele momento. O que é trabalhado em torno das diversas etnias que se aglomeram em Londres não foi trabalhado em Paris, no álbum anterior. Citações às “minorias afro-paquistanesas” e a uma “coalizão benino-togolo-ganesa” são exemplos do caldeirão étnico da cidade.

Há também a presença dos alienígenas, elemento que descobrimos melhor no jornal Libération, um anexo do álbum. Diferente do volume anterior, a mídia aqui não aparece como páginas no meio da narrativa central. Temos a citação pela própria protagonista, que é uma jornalista desempregada, dos fatos políticos importantes no presente ano de 2025, digitados em seu script-walker e enviando de volta no tempo, para 1993, e sendo interceptadas pelo Libération. A atividade divide-se entre o desabafo e a função profissional. Às vezes Jill divaga sobre seu amor, sua vida, as drogas que consome; às vezes escreve sobre a situação dos imigrantes e da corrupção em Londres. Um fato interessante são as várias citações políticas e culturais que o autor espalha pelo álbum, como por exemplo, os conflitos no Oriente Médio, o governo de Margaret Thatcher e o filme O Amigo Americano, de Wim Wenders, exposto como cartaz em uma estação de Berlim.

O traço de Enki Bilal nesse álbum é menos sujo e mais harmonioso que na edição anterior. A história se desenvolve em um ritmo editorial/jornalístico, ou seja, a narração de Jill e os quadros narrativos em cada página acabam por dar um ar mais literal à história, como se fizesse parte de uma publicação que altera narrativa em primeira e terceira pessoa sem que jamais diminua a sua qualidade. De modo geral, porém, essa álbum é sensivelmente inferior ao primeiro.
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Frio Equador

A conclusão da história de Nikopol, Hórus, Jill e Niko (Nikopol Filho) acontece no magnífico Frio Equador (1992), um álbum que desde o seu título causa estranheza e curiosidade. A visão de mundo que o autor e artista nos apresenta já no início dos anos 90 (mesmo que ele estivesse falando de uma sociedade de 2034), guarda muitas semelhanças com o nosso tempo, seja no domínio político que as grandes corporações passaram a ter, seja no altíssimo nível de corrupção em escala mundial ou de estranhezas climáticas e descaso ou abandono das militâncias políticas.

Equador-City é uma cidade do centro-leste africano, na Linha do Equador e à margem de um lago. Com uma amplitude térmica muito alta (entre -21ºC e 47ºC) e governada por uma grande corporação corrupta, a KKDZO, Equador-City é um antro de opressão, burocracia burra e forte tendência cesaropapista. De alguma forma, há bastante semelhança política com a Paris de Jean-Ferdinand Choublanc, o fascista e falocrata de A Feira dos Imortais. Há também semelhanças com as questão corporativa de A Mulher Armadilha, onde vários grupos legais ou ilegais disputam território, dinheiro e influência ante os governantes.

A conclusão da história perpassa toda a mitologia da saga, as nuances familiares, o amor perdido, o “apagar a memória”, a influência dos deuses egípcios na vida dos humanos desse universo e a dominação territorial dos animais, nesse volume em especial, dos insetos e dos répteis. Tanto a arte quanto o roteiro de Enki Bilal nos apresentam um futuro hipotético, mas, infelizmente, possível de se realizar. E talvez seja por isso mesmo que a história se torna tão fascinante e tão amedrontadora ao mesmo tempo. A Trilogia Nikopol é um poderoso estudo sobre os resultados da autodestruição do mundo pelos próprios humanos e as consequências da nossa dominação desmedida sobre a Terra.

A Trilogia Nikopol (La Trilogie Nikopol – La foire aux immortels • lafemme piège • froid équateur) – França, 1980 – 1992
Publicação em 3 álbuns, posteriormente reunidos
Lançamento no Brasil: Editora Nemo
Roteiro: Enki Bilal
Arte: Enki Bilal
Páginas: 184

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12 comentários

ycekyll 6 de junho de 2019 - 21:19

Ótima analise Luiz.Gostaria de republicar parte dela em nosso portal, com seus creditos, claro. vc me autoriza?

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Luiz Santi🐂GADO 7 de junho de 2019 - 00:02

Obrigado!

Se for apenas um trecho, sem problemas, pode reproduzir. Só peço que mesmo para o trecho, não deixe de citar a autoria e colocar o link para o PC, tudo bem?

A propósito, qual é o portal? Compartilha aqui para a gente fazer uma visita e apreciar o trabalho de vocês também!

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ycekyll 7 de junho de 2019 - 00:02

Oi Luiz.
Chama soulart.org
Naomtem nada sobre Hq, e pensei em colocarmsua analise sobre cada um dos 3 volumes. Claro, assinalando que vc é o autor e de que sairá vc pertence.
Achei que é uma definição legal, e bem pessoal, humana e não genérica. Farei uma introducaomcom o fatomdeu ter finalmente acabado de ler depois de 27 anos de atraso do lançamento.

Depois segui o que vc escreveu que se trata mais dom que consiste a obra em si.

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Luiz Santi🐂GADO 7 de junho de 2019 - 00:18

Obrigado pelo link, falei uma visita à sua casa também!

Sobre esta obra: fico feliz que tenha gostado da minha análise. Foi maravilhoso escrever esse texto, porque a leitura da obra também foi maravilhosa. Cara página que eu virava era uma verdadeira revelação. Foi o meu terceiro contato com HQ europeia, então você imagina a minha felicidade e espanto quando essa Trilogia caiu nas minhas mãos!

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ycekyll 7 de junho de 2019 - 00:24

Desculpe o email mal digitado.
Estou em um celular

O que escrevi a respeito está aqui.
Acho que vai se identificar com o que acabou de dizer:

Na data de hoje vespera do meu aniversario, brindei essa tortuosa época de minha vida com a conclusão de uma leitura esplêndida. Com vinte e 27 anos de atraso, li A Trilogia Nikopol, do consagrado mestres frances Enki Bilal. .
É fato que já tive oportunidades de degusta sua arte, sua genialidade e sua riqueza de estilo. Mas sempre adiei, esperando um momento propício, uma edição de papel em mãos; Uma versão digital melhor traduzida ou em maior resolução.
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Talvez de forma subjetiva eu aguardava um momento como agora, de desilusão quanto a sociedade, a compaixão e sensibilidade das pessoas.

Estamos em 2019 e mesmo depois de tanto tempo, a cultura gerou poucos indivíduos capazes de escrever, desenhar, pintar e roterizar uma obra usando apenas a grandeza existente dentro de si mesmos.
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Hoje sabemos que a arte deixou de residir os museus, igrejas ou as casas dos mecenas. Ela está em livros em HQ e em muros grafitados; Mais marginal do que nunca, mas inovadora e bela do que sempre.

Talvez esteja ali nestas outras vias, a vida é o brilho que desisti de encontrar com meus olhos. Em uma fagulha antiga e solitária, congelada em um disco rígido ou numa adormecida pilha de livros, no estoque de uma livraria que já não existe mais. Em um idioma que poucos poderão compreender em toda sua graça e torpor.

Luiz Santi🐂GADO 7 de junho de 2019 - 00:32

Quero te dar os parabéns e desejar felicidades!

Sim, Nikopol é uma dessas obras que faz a gente pensar e repensar a arte sob uma porção de novos aspectos. E um mais rico que o outro.

Se você quiser conhecer algo a mais do autor, indico Animal’Z. Não tem o mesmo brilhantismo que esse aqui, mas é outra obra de arte muito interessante, pensando, inclusive, na devastação da Terra.

Padu 20 de novembro de 2014 - 17:55

O que mais me chamou a atenção no final de Frio Equador foi finalmente entender as motivações de Hórus. No começo, ele parecia apenas um deus rebelde, que queria tomar o poder por não gostar de seguir ordens. Mas aqui, fica claro sua rebeldia perante o sistêma. O trecho em que ele cita finalmente conhecer o que é ser humano foi uma sensibilidade enorme. Os deuses nos observavam lá de cima, de sua pirâmide, mas Hórus precisava saber o que era humano para entender a criação. Muito interessante.

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Luiz Santiago 20 de novembro de 2014 - 19:02

Excelente observação, Padu. Concordo com você. Esse momento mostra uma outra figuração para o personagem, e isso o torna muito mais rico.

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Padu 20 de novembro de 2014 - 19:16

Além de ser bastante aplicável na nossa vida real, afinal, de que adianta um sistema que nos julga lá de cima, sem conhecer o mundo aqui de “baixo”? E não precisamos nem mesmo falar de sistemas políticos, mas de nós mesmos, que às vezes julgamos outras pessoas sem vivermos na pele suas vivências.

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Luiz Santiago 20 de novembro de 2014 - 23:35

Sim sim. E isso completamente bem aquele seu comentário sobre os deuses e nós e a minha resposta. No final das contas, nossas mazelas de organização surgem justamente de certos pensamentos de certos indivíduos — os que matam patologicamente, os megalomaníacos, etc. etc. Isso é que me encanta nessa história. A relação entre o exterior e o interior humano…

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Padu 20 de novembro de 2014 - 19:18

E sem querer me alongar muito (mas foi difícil achar alguém que tenha lido esse quadrinho pra compartilhar algumas impressões), mas gostei muito daquele trecho final do livro. Principalmente quando os deuses percebem que o grande problema da humanidade é nossa baixa expectativa de vida, que nos faz nos preocupar com coisas insignificantes e não nos dão tempo de perceber o que é essencial na vida. Esse tema também é debatido em Senhor dos Anéis, no embate entre a sociedade élfica e a humana.

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Luiz Santiago 20 de novembro de 2014 - 23:33

Verdade. E isso traz, por exemplo, um olhar mais profundo para a própria questão da distopia que marca toda a trilogia, afinal, em meio a todo o esquema político, o que mais tem é gente angustiada e que busca sentido para a vida, mas sem tempo… Se bem que os deuses tentam remediar isso de alguma forma… heheheh

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