Crítica | A Tumba, de H.P. Lovecraft, Para Leitores Iniciantes (Quadrinhos)

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Se adaptar H.P. Lovecraft já é uma tarefa difícil em qualquer grande formato, utilizando prosa e em estrutura livre, imaginem fazê-lo através de versos. E ainda para iniciantes. Pois bem, esta é justamente a proposta do artista australiano Richard J. Ivankovic (DrFaustusAU), que realizou de maneira incrível a adaptação do primeiro conto da carreira madura de Lovecraft, A Tumba, escrito em junho de 1917 e publicado em março de 1922.

Na obra original, temos a jornada macabra de um recluso garoto de dez anos, um menino cheio de imaginação. Seu nome é Jervas Dudley. Atravessando cerca de uma década e meia na vida do personagem, a história nos mostra o seu contato com a tumba esquecida e mal-falada da família Hyde, sua aproximação (espiritual e corporal) com aquele lugar, as visões e/ou experimentações que ele teve e a semente da destruição — ao menos na interpretação dos pais e dos médicos que cuidam dele no momento “atual” do conto — que estas experiências plantariam em sua alma. O conto é a derrocada de alguém que conhecemos ainda criança e que, guiado por uma força inexplicável, que certamente não pertencente a este mundo ou dimensão, mergulha em um Universo que ninguém aceita existir.

No original, Lovecraft levanta discussões sobre a confiança total no empirismo e o desprezo para algo que, segundo o autor, deveria ser claro para todo mundo: as fronteiras entre realidade e imaginação não são assim tão bem demarcadas como muitos acreditam. Nesta versão em quadrinhos, chamada H.P. Lovecraft Para Leitores Iniciantes, Ivankovic toma esses eventos como uma estrutura visualmente simples, atrativa e de traços harmoniosos ou, em uma palavra, “fofos”. De primeira, este não seria o tipo de traço que esperaríamos para uma obra que adaptasse Lovecraft. Mas ao contrário do que se imagina, não existe estranheza aqui. O leitor entende de imediato a proposta “para iniciantes” e vê que o artista não retirou a essência da obra original. Os cenários por ele desenhados e coloridos são bonitos demais para narrar a queda de uma alma (ou uma noção um pouco triste de reencarnação), é verdade, mas isso não diminui em nada a iniciativa.

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O momento em que uma criança tem a sua vida mudada por completo.

Quando olhamos para um projeto assim, a primeira coisa que nos deve vir à mente é o quanto dessa nova proposta deve ser feito para que mantenha a sua própria identidade, para que exiba o estilo do artista responsável e, ainda assim, faça jus ao material original. E o que temos neta leitura de A Tumba, realizada em 2012, é um cuidado imenso para transmitir, a despeito da primeira impressão do estilo artístico, a real essência do conto. A própria forma de desenho das árvores, as sombras, o isolamento… tudo transmite a ideia de um “terror fofo” mas, não deixa de ser terror. E com o trabalho em versos de Ivankovic, se torna ainda mais interessante.

O único elemento que me incomodou aqui foi a mudança da métrica sem um critério mais apurado, no decorrer da adaptação. Isso, inclusive, barrou a história em alguns pontos, deixando a base de acontecimentos truncada, sem necessidade alguma, e, pior ainda, em um exercício poético e tétrico que funciona muito bem a maior parte da obra, ou seja, o ponto dissonante se torna um choque ainda maior. Os melhores são, sem sombra de dúvida, os versos mais curtos. Neles, destacam-se a capacidade de Ivankovic em resumir muitas páginas de narração e nos dar a sensação de mergulho do personagem em um mundo que tememos, por não o conhecer. Talvez o desfecho sofra pelo mesmo motivo que o original (há um peso didático incompreensível de Lovecraft, o que torna a narrativa menos interessante do que o restante do conto), mas o horror ainda mantém-se triunfante. E poético. Uma excelente adaptação que cumpre exatamente o que promete. Dá até para ler para crianças!

H.P. Lovecraft’s The Tomb (For Beginning Readers) — Austrália, 2012
Roteiro: Richard J. Ivankovic (DrFaustusAU), baseado em conto de H.P. Lovecraft
Arte: Richard J. Ivankovic (DrFaustusAU)
Cores: Richard J. Ivankovic (DrFaustusAU)
Publicação: DrFaustusAU
60 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.