Crítica | A Turba (1928)

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A Turba (1928) foi mais um grande sucesso de público dirigido por King Vidor, que já tinha feito História na arrecadação de bilheteria com o seu O Grande Desfile (1925). O longa é frequentemente classificado como um “conto de um homem comum”. De fato, a obra expõe com sucesso a sua proposta de mostrar o quanto a vida de uma pessoa passa por altos e baixos e também, como o desespero, os acidentes, as brigas cotidianas e as frustrações com a vida material ou com os laços pessoais podem gerar um grande número de más escolhas. Viver, como diz um dos nossos grandes mestres literários, é muito perigoso.

O ator James Murray (que teve um triste final de vida, causado pelo alcoolismo) dá vida ao protagonista John, que nasceu no dia 4 de julho de 1900, um dia importante para os Estados Unidos, e em um ano zero, que obviamente tem todo o seu simbolismo atrelado. O roteiro faz uma rápida, mas sólida apresentação da infância do personagem, “nascido para ser um grande homem; destinado a coisas grandiosas”, como frequentemente lhe dizia seu pai. Já nesse início o texto gera no espectador o sentimento de simpatia para com o menino, que parece encantado demais com as coisas belas sobre a vida que lhe disseram e parece não ter qualquer preocupação maior além de esperar que chegue a grandeza. Ele cresce e, como adulto, se vê diante de uma realidade completamente diferente da que esperava.

Desde muito cedo Vidor nos impressiona pela forma como mostra a cidade, dando-nos a sensação de grandeza desse espaço e de pequenez das pessoas que nele vivem. O diretor recusou figurantes para as enormes tomadas urbanas. Com câmeras escondidas, capturou o movimento e a pressa da enorme quantidade de pessoas, da turba que vive, chora, ri e morre na cidade. Tudo aí é tornado grandioso pela câmera, num contexto de espaço e relações dramáticas que dá gosto de ver. O prédio onde John trabalha é apresentado de maneira quase amedrontadora, com um inventivo movimento de câmera que nos leva diretamente para o escritório onde o vemos misturado a centenas de outros indivíduos. Sem face, ele é o funcionário #137. Seu contentamento pueril com a vida e os sonhos de grandeza ainda estão em alta nesse fase do filme, mas o espectador é induzido pelo diretor a pensar de maneira diferente. A cidade está prestes a destruir tudo o que esse homem pensou ser e a forçá-lo a criar outros sonhos, encontrar felicidade em outras coisas.

King Vidor se despe totalmente da apresentação dócil de uma vida de vitórias e contentamentos, onde diz-se bastar o trabalho duro e o pensamento positivo, o “verdadeiro querer”, para que tudo dê certo. Para a turba mostrada no filme, o trabalho duro, os sonhos, os bons pensamentos não bastam. E à medida que o indivíduo se dá conta disso, a vida não espera para que ele organize e construa um novo caminho para seguir. Isso é feito diante das novas responsabilidades, o que obviamente torna tudo ainda mais difícil. Sem grandes estrelas no elenco, por exigência do próprio diretor, que queria passar a sensação de “gente comum”, A Turba constrói essa realista, tocante e até chocante realidade para o cinema da época (a cena com o banheiro, onde se mostra o vaso sanitário, causou furor em alguns, inclusive no produtor Louis B. Mayer, que odiou o filme e fez larga campanha contra ele no 1º Oscar, especialmente na categoria Produção Única e Artística, que acabou ficando com Aurora).

Elementos de alienação e depressão são mesclados aqui às conquistas e felicidades normais da vida. A obra não é realmente chorosa ou diminuidora dos sonhos e virtudes do homem, como o exagero e ódio de Louis B. Mayer fez parecer em seus discursos contra o filme. Ocorre que a fita não abraça a felicidade à toda prova. Essa realidade, aliás, é o trunfo do filme, não por ser dura, majoritariamente triste e cheia de percalços, mas porque representa a vida da maioria dos seres humanos que vivem no planeta. Entende-se, porém, que houve um choque com o tipo de enredo aqui apresentado. O cinema deixa de ser plena fuga e passa também a mostrar tudo aquilo que as pessoas viam nas ruas, em sua vida. Nota-se claramente o por quê do incômodo. E entende-se tanto o valor histórico quanto a posição inovadora — técnica e narrativa — que este filme possui para o cinema.

A Turba (The Crowd) — EUA, 1928
Direção: King Vidor
Roteiro: King Vidor, John V.A. Weaver, Harry Behn, King Vidor
Elenco: Eleanor Boardman, James Murray, Bert Roach, Estelle Clark, Daniel G. Tomlinson, Dell Henderson, Lucy Beaumont, Freddie Burke Frederick, Alice Mildred Puter, John D. Bloss, Roy Bloss, Sidney Bracey, Johnny Downs, Sally Eilers, Joseph W. Girard
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.