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Crítica | A Última Floresta

por Davi Lima
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Floresta

Entre o sobrenatural e o realismo, o diretor Luiz Bolognesi encontra o povo Yanomami resistente no seu pequeno local de vivência em meio ao grande espaço florestal de proteção. A dificuldade de compreender o que é real e o que é interpretação no documentário A Última Floresta, na ambiguidade que a imagem e a contação de história provocam, é o grande chamariz estilístico com que o diretor comanda as cenas e escreve seu roteiro junto ao xamã Yanomami Davi Kopenawa. Porque entre o problema real do garimpo comercial, que desregula a natureza, e a crença de origem da terra florestal, interpretada pelos próprios indígenas no filme, o maléfico espiritual que os garimpeiros liberam e o teatro elucidativo da ancestralidade indígena presentes no documentário não se anulam. 

A maneira como o diretor inicia seu filme é bem inclusiva na mistura do que é real, no quesito geográfico entre a Venezuela e o Brasil na floresta amazônica, e o que é místico, valorizando o silêncio e as nuvens que a primeira cena capta na fotografia, que sobrevoa o território onde a história do filme vai se passar. Esse mesmo método cinge-se na maneira como o diretor escolhe uma família da aldeia para centralizar no cotidiano dela, seja na floresta, ou na oca dormindo, porque é a introdução no local e no social que vai fundamentando uma naturalidade “desvendativa” dos Yanomami em A Última Floresta. É acompanhando essa família que se começa a ouvir as palavras de Davi Kopenawa, criando o conflito principal do filme de maneira verbalizada sobre os homens brancos que atacam a região, destroem a natureza e cooptam outros índios para fora do universo indígena. Esse conflito, mais uma vez, é tanto real, físico e natural quanto vai se mostrando fundamentalmente como o cerne espiritual para o xamã em suas palavras à aldeia.

Dessa forma, o filme vai emergindo no desenvolvimento de resistência dos Yanomami, em como eles se preparam num ritual de pintura e armamento de arco e flecha para combater os garimpeiros, e como eles terminam num banho de rio após a batalha. Mas permeando na linguagem ambígua do real e do espiritual proposta pelo documentário, no contato direto com essa luta, o espectador também começa a conhecer mais da cultura religiosa que baseia essa luta, além da divisão de espaço.

O ápice do documentário é na representação do imaginário na imagem documental, na incerteza célebre da cinematografia que cria efeitos sobre a realidade do espectador, quando o que se conta sobre a origem do mundo na cultura Yanomami, em que Davi explana para os homens ao seu redor na oca, e na montagem de cenas, fomenta-se a ilustração do que se conta. Os irmãos Omama e Yoasi, que deram origem aos Yanomami, tomam forma: dois atores indígenas interpretam a história, dispondo uma dimensão temporal abstrata no realismo teatral colocado em tela. Desse jeito, a crença na briga dos irmãos, em que Omama expulsou Yoasi e enterrou o minério da terra para não ser encontrado, acaba por relacionar o conflito ao garimpo, tornando-se ainda mais crível. Não é apenas na crença dita pelo xamã, mas interpretada em cena como incisão dramática no documentário do espírito maléfico, que pode ser liberado pelos garimpeiros e prejudicar os indígenas da região.

Assim, funde-se de vez a amálgama sobrenatural e realista. O diretor de A Última Floresta ainda desbrava mais tempo de tela em valorizar o ritual de revelação sobre os planos dos garimpeiros e em identificar o espírito maligno que começa a tentar um indígena, e possivelmente fez outro desaparecer da aldeia, o mesmo que era pai da família que introduz o filme. O drama se vale dessa incerteza, mais uma vez, do que é real ou roteirizado, mas nunca mentiroso, já que é extremamente factual o conflito contemporâneo de terras que o povo indígena trava para permanecer. Por isso, o diretor finaliza seu filme até de maneira deslocada em meandros temporais dentro do universo da obra documental forjada, sugerindo dinâmicas feministas propostas pela esposa que perdeu o esposo na floresta, o mesmo pai do começo do filme, e retratando o xamã Davi Kopenawa sendo ouvido em uma universidade nos EUA. 

Por fim, o documentário brasileiro agrupa os mistérios e realismos que tanto projeta e pouco se conhece sobre os grupos indígenas “isolados” do ponto de vista da sociedade urbanizada. Muito do efeito do filme parte dessa quebra de estrutura social de imaginação lúdica, como se as histórias dos Yanomami não tivessem, para algumas pessoas, sua força interpretativa na arte cinematográfica de representação teatral, apenas na oratória da história oral. Diante disso, enquanto apercebe-se o local pequeno onde o povo se situa na floresta, por uma fotografia isométrica que encerra a obra, é simultânea a proporção grandiosa em que o diretor insere o espectador na documentação da luta real e da crença religiosa desses indígenas na Amazônia.

A Última Floresta – Brasil, 2021
Direção: Luiz Bolognesi
Roteiro: Luiz Bolognesi, Davi Kopenawa
Elenco: Davi Kopenawa, Daucirene Yanomami, Ehuana Yaira Yanomami, Genésio Yanomami, Joselino Yanomami, Justino Yanomami, Júnior Wakari Yanomami, Nilson Wakari Yanomami, Pedrinho Yanomami, Roseane Yanomami
Duração: 74 minutos

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