Crítica | A Última Gargalhada (2019)

“Já viram um velho num restaurante não devolver o prato?”

Chevy Chase, conhecido principalmente por Férias Frustradas, as inúmeras sequências dessa comédia, e sua participação, mais recentemente, no celebrado seriado Community, e Richard Dreyfuss, prestigiado ator do início de carreira de Steven Spielberg, como parte do elenco de Tubarão e Contatos Imediatos de Terceiro Grau, também vencedor do Oscar de Melhor Ator, possuíram uma carreira de consideráveis sucessos. Mas por que não podem continuar tendo? A Última Gargalhada, apesar do seu tom fúnebre aparente, indicado previamente pelo seu próprio título antecipando o que seria o fim para os seus personagens, é uma celebração aos artistas que nunca se aposentaram e se aposentarão. Um produtor e um comediante partem a mais uma turnê.

O quanto tudo demora a engatar, contudo, adormece o espectador perante uma jornada de muitas piadas relacionados a velhice, novamente uma redescoberta da juventude quando na terceira idade – vertente comum a produções com a mesma temática -, e uma mais pungente mensagem sobre o que a vida foi e pode ser. A história pelo menos é muito boa, a premissa convence, porque nasce de um pensamento mais circular sobre o passado e o futuro, sobre os nossos sacrifícios e sobre o que é ser um artista no final das contas. Uma ideia que seria realmente suficiente para sustentar um longa, caso o responsável pela sua execução tomasse nota do conteúdo que detém nas mãos e não o desperdiçasse com uma comédia, enfim, muito entediada, mas sendo curta até.

Os grandes segmentos mais imaginativos da obra, como os números musicais e o psicodelismo a base do uso de cogumelos, causado sobre o personagem de Chevy Chase – intencionalmente perdido na cena -, compensam apenas parcialmente a ausência de criatividade para compor outras situações cruciais, uma questão problemática de responsabilidade única do cineasta Greg Pritikin, assinando tanto o roteiro quanto a direção. O texto, por exemplo, recusa movimentar uns dos stand-ups com piadas reais, o que convenceria o espectador da qualidade da comédia de Buddy Greer, personagem interpretado com coração por Richard Dreyfuss. Uma cena em específico abraça o clichê de mostrar pessoas rindo, mas não provocar o público a sentir o mesmo.

O imensamente confuso Greg Pritikin também aponta a câmera para lugares que nada querem comunicar, enquadrando um pouco gratuitamente, acompanhando por segundos um figurante qualquer, o primeiro passeio do protagonista com uma “garota” que conhece na sua jornada, na pele de Andie MacDowell – uma presença importante, apesar de não justificada completamente. Já o pouco que é mostrado do seu potencial cômico, Dreyfuss sustenta uma entendida conquista gradual nossa, assim como do público de seu espetáculo humorístico, retomado após cinquenta anos cuidando do pés de outras pessoas, depois de recusar continuar a sua carreira, encaminhada ao auge. Uma obra moribunda, mas o elenco a compra, captando os arcos respectivos a cada um.

Um pouco de emoção sustenta o último ato do longa-metragem, principalmente por causa da performance de Richard Dreyfuss, mais sentimental em diversos momentos do projeto, como nos prestes a se apresentar no palco, em oposição àqueles em que o personagem encarna os estereótipos do senhor de idade que ainda curte a vida – ao menos, mesmo que pautando-se em um clichê, o arquétipo e suas características, como o uso constante de maconha, é ressignificado consideravelmente. Greg Pritikin, como roteirista e diretor, em contrapartida, realmente impede A Última Gargalhada ser uma excelente homenagem a artistas que já tiveram uma grande carreira no passado, mas não estão necessariamente mortos, permanecendo vivos, para sempre gargalhando.

A Última Gargalhada (The Last Laugh) – EUA, 2019
Direção: Greg Pritikin
Roteiro: Greg Pritikin
Elenco: Chevy Chase, Richard Dreyfuss, Andie MacDowell, Kate Micucci, Isla Cervelli, Lewis Black
Duração: 98 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.