Crítica | A Última Noite

Em dezembro de 2002, dois cineastas estadunidenses de grande visibilidade lançaram as suas visões sobre Nova Iorque, território demarcado em suas trajetórias cinematográficas. Martin Scorsese resgatou a história da cidade no épico Gangues de Nova York, enquanto Spike Lee dramatizava o cotidiano de um homem que se perdeu diante de escolhas questionáveis em A Última Noite. Primeiro filme do realizador pós 11/9, A Última Noite é uma espécie de Ulisses contemporâneo, com adição de uma hora extra na jornada do protagonista em profunda derrocada, a trafegar pelas ruas de “uma” Nova Iorque fantasmática.

O roteiro, assinado por David Benioff, busca inspiração no romance homônimo para nos contar a saga de Monty Brogan (Edward Norton), homem que precisará cumprir amargos sete anos de prisão depois de ter sido supostamente entregue por alguém de sua confiança. Quando jovem, Brogan ganhou uma bolsa de estudos e teve acesso aos feudos institucionais universitários estadunidenses, mas se envolveu com a venda de drogas e se deixou levar pela vida de “facilidades”. Mais tarde, encontra-se na situação complexa.

Decide, então, passar as últimas 25 horas com a sua namorada Naturelle (Rosario Dawson) e seus amigos, tipos construídos pelo roteiro de maneira tão esférica quanto o perfil do protagonista: Jacob (Philip Seymour Hoffman) e Francis (Barry Pepper). O primeiro, professor, encontra-se perdidamente apaixonado por uma de suas estudantes, enquanto o outro batalha para viver o sonho americano, envolvido com as suas metas no emprego em Wall Street. Ambos estão tensos e temerosos do que pode acontecer com o amigo que viverá uma fase de dor e angústia por longos sete anos. O seu pai, James Brogan (Brian Cox), é outro personagem bem concebido, sempre a lamentar os caminhos seguidos pelo filho e o que poderia ter sido se ele fosse um homem que exercesse a paternidade dentro da “normalidade”, haja vista a dispersão e a falta de cuidados na criação por conta do alcoolismo.

Para acompanha-los nos 135 minutos da jornada, Spike Lee contou com a condução musical eficiente de Terence Blanchard e com os figurinos pontuais de Sandra Hernandez, elementos audiovisuais que aumentam a carga dramática e simbólica de um filme que funciona como uma “lamento” de proporções trágicas descomunais. A equipe do cineasta apresenta um trabalho narrativo cuidadoso. Interessante observar o cartaz do filme Rebeldia Indomável, clássico com Paul Newman, pendurado num local central da sala do personagem de Edward Norton.

É um daqueles momentos corriqueiros do trabalho do responsável pela direção de arte, mas que precisa ser ressaltado, tamanha a sua significância. James Chinlund, ao assinar o design de produção, contou com apoio de ótimos profissionais da cenografia e da direção de arte para compor o visual do que foi enquadrado pelas lentes de Rodrigo Pietro, diretor de fotografia com trabalho igualmente competente, atento aos detalhes e ciente nas escolhas e significados de cada movimento, ângulo, plano e quadro proveniente de sua função.

A Última Noite não é o momento mais impactante do cinema de Spike Lee, mas talvez nem fosse o interesse do realizador que para o colega Scorsese, “é uma voz única e necessária para o cinema americano”. Sem o tom de sátira social e não centralizado nas questões raciais, o diretor entrega um trabalho coeso e consistente, sem excessos e dispersões, com notável destaque para o desempenho dramático de Edward Norton, um dos melhores atores de sua geração. O conhecido, elogiado e constantemente citado monólogo no banheiro do bar, com Norton a desferir golpes vocabulares para todos os lados, sem perdoar grupos étnicos e religiosos é profundo e ilustra o que poderíamos chamar de performance formidável, algo que torna a jornada desse errante ainda mais esférica, longe de se prender aos padrões da evolução clichê de personagens enlatados que a indústria do consumo hollywoodiana produz cotidianamente.

Em suma, um filme que merece bom posicionamento na filmografia de um cineastas cheio de picos altíssimos e pontos, às vezes, abaixo do esperado. A Última Noite é denso, reflexivo e demonstra a versatilidade que nas palavras de Denzel Washington, “deu um golpe de direita na visão peculiar dos americanos” desde os anos 1980, realizador que compreende o sistema e o subverte, “alguém que continua fiel ás suas crenças”, conforme afirmação de Halle Berry, atriz que teve as portas abertas depois da primeira oportunidade em Febre na Selva. A crença em seus ideais, por sinal, é algo que podemos ver no recente Infiltrado na Klan, momento inspirado do cineasta enquanto leitor, adaptador e cineasta.

A Última Noite (25th Hour, Estados Unidos – 2002)
Direção: Spike Lee
Roteiro: David Benioff
Elenco: Edward Norton, Levani Outchaneichvili, Philip Seymour Hoffman, Rosario Dawson, Tony Devon, Tony Siragus, Anna Paquin, Barry Pepper, Brian Cox
Duração: 135 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.