Crítica | A Última Resposta, de Isaac Asimov

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Convicções e curiosidade são duas das coisas mais perigosas que movem a humanidade. Querer saber os mistérios da vida na Terra e no Universo, pré e pós a nossa pessoal existência — ou da existência humana; de um Motor Primário… de um Criador — é algo que de algum modo já fez parte de nossa pauta de pensamentos, seja no campo científico-teórico, religioso ou puramente místico. E quando não estamos exatamente curiosos, falamos a respeito. Defendemos dogmas, teorias ou suposições em relação à essa questão essencial, metafísica, primária, que quanto mais investigada, mais se desmembra. Se inicialmente temos “apenas” a seguinte dupla matadora de questões:

  • De onde viemos?
  • Para onde vamos?

… a coisa fica mais complicada à medida que se discutem ideias paralelas ou até mais densas do que essas. O “de onde viemos?” passa a contar com a possibilidade de um Criador ou do Motor que impulsionou a matéria capaz de gerar o que se conhece do Universo… E mais ainda: se existe um Criador ou um Motor, quem, então, o criou? Existe um propósito real para tudo isso e, consequentemente, para nós? O nó, como sempre, está dado. E quase à beira da loucura, não é incomum desistir de perguntar, mas não necessariamente aceitar o mistério. E é por isso que obras como A Última Resposta, de Isaac Asimov, mexem tanto conosco. De maneira muitíssimo inteligente, este conto toca uma vez mais nas questões ligadas ao pacote cosmológico que envolve as criaturas, um Criador (ou alguns Criadores), um espaço num tempo e convicções e curiosidade.

Esta é a história de Murray Templeton, físico ateu que morre aos 45 anos e surpreendentemente descobre que a “baboseira de vida após a morte” é real. Ou quase isso. Asimov não era apenas um exímio criador de possibilidades e destinos para que os leitores pensassem a respeito, encontrassem atalhos e interpretações para o que ele escrevia, mas também um bom manipulador de emoções, especialmente quando explorava algum tipo de confronto. O estudioso morto, nesse conto de 1980 (um tipo de outro lado da moeda para o genial A Última Pergunta, de 1956), encontra-se com um Criador ou A Voz, uma Entidade quase onipotente que explica o seguinte para ele:

[…] você, na verdade, é uma conexão de forças eletromagnéticas, arrumadas de modo a que todas as interconexões e inter-relações sejam exatamente iguais às do seu cérebro em sua existência Universal… até os menores detalhes.

Em outras palavras, Murray Templeton era uma rede de energia cósmica que pensava; criada por esta Voz justamente para isso, para que ele continuasse pensando… por toda a eternidade. Em pequenos trechos do conto tive a impressão de que o autor iria adotar caminhos mais rasos, talvez porque eu tenha sentido que a construção até o diálogo ‘pegar fogo’ não tenha mexido tanto assim comigo. Mas o fato é que são apenas alguns trechos. Essa impressão de que o encontro é apenas para “aplicar ao físico ateu uma dura lição” é a superfície e nunca foi o verdadeiro objetivo da história. Quando a tarefa de pensar é estabelecida, o Murray de conexões eletromagnéticas e o leitor ficam um tantinho desapontados. Até que algumas trocas de farpas entre Criador e criatura tiram o véu e mostram a genialidade de Asimov e também a dimensão daquilo que ele está propondo que a gente pense.

Convicções e curiosidade. Quando a gente pensa em um Ser de grande poder, fica um pouco difícil imaginar, de modo rápido, alguma limitação para ele, especialmente se é um Ser capaz de criar vida. E o que a gente realmente menos espera é que este Ser sofra da mesma angústia que marca a existência humana, ou seja, a vontade de (nesse caso) lembrar-se de como tudo começou e conhecer como será o seu fim. O mais especial de tudo isso é que o autor faz com que o Ser permaneça tão grandioso e controlador quanto o conhecemos, mas dá a ele um elemento de fragilidade, algo que sabemos que ele deseja, que ele não tem, que ele não controla — algo que descobrimos através de sugestões dadas a Murray , num tipo cósmico de maiêutica que me divertiu e encantou ao mesmo tempo.

Diante dessa disposição final para ‘conexão de forças eletromagnéticas’ que um dia foi um corpo e agora é basicamente escravizada, colocada para pensar eternamente sobre como O Criador pode ser destruído (a última resposta!), o leitor repensa todas as camadas de possibilidades. Pode essa resposta ser encontrada? O Criador realmente depende da criatura (nós) e é por isso que ela existe? E por fim, o angustiante exercício de reflexão baseado nos destinos do conto, fazendo-nos colocar esse tipo de pós-vida em perspectiva. O que é melhor? O esquecimento após a morte ou ser reconstruído para pensar (para sempre) aquilo que é desconhecido para o Criador?

A Última Resposta (The Last Answer) — EUA, 1980
Originalmente publicado em: Analog Science Fiction and Fact
No Brasil: Os Melhores Contos de Isaac Asimov (Coleção Melhores Contos) — Lebooks Editora (2018)
Autor: Isaac Asimov
Tradução: Não informado
15 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.