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Crítica | A Última Sessão de Cinema

por Fernando JG
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Existe um inevitável clima de desilusão na passagem da adolescência para a vida adulta, sobretudo quando muitas das coisas que se tinha anteriormente são perdidas durante o processo de amadurecimento. Hoje, no cinema contemporâneo, o grande nome desse “coming of age” é Xavier Dolan, que percebe bem essa tristeza do subgênero e investe em temáticas que exemplificam o que é essa primeira crise de idade, que começa já numa juventude primária (Matthias & Maxime, Eu Matei Minha Mãe). Mas é difícil falar em filme de formação sem tocar no nome prototípico de Peter Bogdanovich, que dirige o inesquecível A Última Sessão de Cinema, encerrando em seu argumento as características mais profundas do gênero. É aqui que se encontra o desejo mais feroz de uma juventude que não pode esperar e que se movimenta brutalmente em meio às suas vontades mais primitivas e imediatas. O medo, o desejo, o amor, a paixão, o ódio, a tristeza, a melancolia… Tudo está lá, numa das obras mais essenciais dos anos 70 e também da carreira do próprio cineasta. 

Depois de ter sido impulsionado por um amigo a dirigir um filme sobre o enredo do livro The Last Picture Show, Peter Bogdanovich inicia a produção do longa-metragem, um marco naquele início de década que seria lembrada futuramente como um dos períodos mais profícuos do cinema. Por meio de um ritmo narrativo singelo, o cineasta escolhe falar sobre a implacabilidade do curso da vida, momento em que essa passagem dos anos, como quer o filme, deixa algumas marcas e saudades. Com isso, diante de um tempo cronológico que mais tira do que dá, o amadurecimento nem sempre será a coisa mais prazerosa do mundo. Amadurecer também é doído sob determinados pontos de vista, já que implica uma série de mudanças, e mudanças sempre nos tiram do lugar, nos move, nos incomoda. Nada melhor do que um típico coming of age para ilustrar essa trama. 

Como falar de transitoriedade é falar em melancolia – uma vez que a melancolia é o resultado emotivo da perda de um objeto de desejo, que se perdeu e deixamos para trás – , o filme carrega também um tom nostálgico, ligado à transição, em que essa ideia de um passado bom e legal, capaz de gerar uma melancolia no presente, é muito forte. Essa tristeza do filme, também partilhada pelo protagonista Sonny (Timothy Bottoms), é fruto da constante atmosfera de mudança, de ruptura, de perda, desencontro, que muitas das vezes não são bem vindas. É como se a chegada inevitável do futuro destruísse os momentos mais sublimes do presente e os enclasurassem num passado inalcançável.

Aperfeiçoar o protagonista de Timothy Bottoms, o Sonny, requer colocá-lo numa trama em que, para o seu amadurecimento, ele passe por aventuras notáveis, aprendizados marcantes, seja pela alegria, seja pela dor. Esse é o típico herói que atravessa, pelo amor e pela morte, sua trilha formativa. É com pesar que o cineasta vai desmanchando e transformando todo o núcleo familiar do personagem,  retirando da vida de Sonny as pessoas, os lugares, as narrativas. A imagem da passagem do tempo está lá a todo momento e ela não é amigável. 

As características desse contraste etário são muito marcadas: os jovens são alegres e os adultos, tristes. Nada aqui se confunde. A razão da alegria da juventude é o fato de estar vivendo o “melhor da vida”, ainda que em uma cidade pacata e de interior. Os adultos, por sua vez, estão sempre remoendo esse passado de suas idades áureas, colocando um peso afetivo na chegada inexorável do tempo como a responsável por aniquilar a mocidade. É este último o grupo de personagens mais deprimidos e nostálgicos. É dessa perspectiva, da ótica de uma maturidade de alguém que já viveu tudo aquilo que o tempo é capaz de provocar de bom e de ruim, que o filme acontece. Até por isso, a felicidade dos jovens não é outra coisa senão uma alegria melancólica: sabe-se que a alegria da mocidade é momentânea e ela irá ficar também num passado quando o futuro chegar. Tudo está envenenado por essa percepção. 

Esse contraste entre jovens e velhos é muito interessante porque os personagens são bem construídos e mantém suas personas, evidenciando esse embate primordial entre gerações, com destaque positivo para Ben Johnson e Timothy Bottoms, que fazem o papel de Sonny e Sam, respectivamente. Esse embate é levado ao limite e isso provoca uma espécie de êxtase dramático em determinados episódios marcantes. Com exceção da figura feminina principal, interpretada por Cybill Shepherd, que falha em transmitir verdade, o filme é amparado por ótimas atuações de elenco. A cidadezinha interiorana também tem uma aderência ao filme, uma vez que é imbuída de características sentimentais. É também por clima de nostalgia que a trilha sonora toca com um country song que tem ritmo de despedida e saudade. 

Não é sobre a história de Sonny especificamente, mas de uma cidade cujas histórias estão sendo interrompidas e transformadas, como é natural, pelo avanço da modernização, e com isso muita coisa se perde. Aos poucos, a cidade muda, o cinema fecha e as narrativas, sobretudo do círculo de vida de Sonny, são deixadas nesse passado, que uma hora se tornará mítico para essa juventude, assim como agora o é para os personagens adultos. A dinâmica de sua vida é, ao fundo, o resultado do processo de mudança também. No curso dramático, as pessoas vão desaparecendo de cena bem repentinamente e de maneira imperceptível, até sobrar a cidade vazia e Sonny no meio do nada. Esse é o processo de formação do protagonista, que machuca mais do que afaga. 

De fato, The Last Picture Show é cirúrgico ao traduzir sentimentos em imagens, sem se poupar em explorar grandes questões que existem no subgênero coming of age. A essa altura, a definição de “A Última Sessão de Cinema” parece evidente: o fechamento do cinema é o toque final de um círculo que parece estar se concluindo. O filme inicia-se com o cinema aberto e termina com as suas atividades se encerrando, completando, de forma circular, um emblemático arco dramático. “Fim” parece ser um termo usual e definitivo aqui. 

The Last Picture Show (A Última Sessão de Cinema, EUA, 1971)
Direção: Peter Bogdanovich
Roteiro: Larry McMurtry, Peter Bogdanovich (baseado no romance de nome homônimo de Larry McMurtry)
Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn, Eileen Brennan, Clu Gulager, Sam Bottoms, Sharon Ullrick, Randy Quaid
Duração: 118 min.

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