Crítica | A um Passo da Eternidade

A um Passo da Eternidade é um filme espremido sob a pressão de duas forças poderosas: o Código de Produção e as Forças Armadas. Entre um e outro, cada um com suas exigências mais estapafúrdias para “garantir” uma moralidade falsa e hipócrita até não poder mais, até que Fred Zinnemann, na direção, e Daniel Taradash, no roteiro, conseguiram entregar uma obra memorável, mesmo que os problemas causados por uma série de regras e demandas sejam extremamente visíveis.

Digo isso, pois já tive a oportunidade de assistir a centenas de filmes produzidos debaixo do malfadado Código Hays (que ganhou o apelido de Código de Produção), em vigor entre 1930 e 1968 nos EUA e vários outros que foram balizados por ordens das Forças Armadas, mas A um Passo da Eternidade é um dos que mais evidentemente sofreram para conseguir manter coerência narrativa. De certa maneira, o que realmente funciona ao longo de toda a projeção é a qualidade do elenco e o cuidado de Zinnemann ao dirigir suas estrelas, resultando em uma obra humana, que vai além de sua superfície em tese simplória sobre homens duros, dedicados ao exército, que descobrem o amor.

Montgomery Clift tem, possivelmente, a atuação de sua carreira como Robert E. Lee “Prew” Prewitt, um soldado recém-transferido para a base militar de Schofield, na ilha de Oahu, no Havaí, alguns meses antes do fatídico ataque japonês a Pearl Harbour. Trazido para lá pelo Capitão Dana “Dynamite” Holmes (Philip Ober) porque ele ouvira dizer que Prewitt era, além de corneteiro, um bom boxeador e ele estava precisando de um para seu campeonato inter-companhias, o recruta sofre todo o tipo de humilhação e bullying por se recusar a subir em um ringue em razão de um trauma muito particular. Observando tudo isso e tentando equilibrar as pressões, temos o primeiro sargento e braço direito de Holmes Milton Warden, vivido por Burt Lancaster no auge de sua forma física e usando muito bem seu carisma para substituir sua latitude dramática razoavelmente limitada. Finalmente, encerrando o lado masculino do filme e alimentando a lenda urbana de que teria sido escalado para o filme unicamente em razão de suas conexões com a máfia (diz a lenda que é isso que teria inspirado a cena da cabeça do cavalo em O Poderoso Chefão), Frank Sinatra também tem um grande papel como o recruta Angelo Maggio, o único que estabelece amizade imediata com Prewitt.

Como disse, porém, A um Passo da Eternidade é um filme de amor acima de tudo, amor ao exército, claro, mas amor também entre pessoas e isso fica muito bem caracterizado entre a amizade instantânea de Maggio com Prewitt, com Sinatra e Clift compondo uma dupla enternecedora, que mistura aquela amizade violenta entre homens, com uma enorme sensibilidade, especialmente no caso de Clift. Há, também, uma conexão mais distante, mas igualmente fascinante, entre Prewitt e Warden, como dois homens que se respeitam profundamente, mas sabem que não podem demonstrar isso toda hora.

Para além da amizade e pura e simples, há o caso de Warden com Karen Holmes (Deborah Kerr), esposa traída, mas de “má reputação” do capitão Dana, que é cuidadosamente construído desde os primeiros minutos de projeção e que leva a uma das mais lembradas cenas da Sétima Arte: o ousado beijo dos dois na areia, de roupa de praia, com a água chegando para cobri-los. Além disso, Prewitt envolve-se com Lorene/Alma (Donna Reed), uma das anfitriãs de um clube para onde praticamente todos os soldados vão quando estão em folga. Essas duas narrativas, as principais do filme já que o drama de Angelo, ainda que muito importante, é sem dúvida secundário, andam razoavelmente em paralelo, com os acontecimentos em um romance sendo refletidos, de uma maneira ou de outra no outro romance, sempre estabelecendo a tensão entre a obrigação e o amor às Forças Armadas de um lado e o amor entre homens e mulheres de outro.

A produção, que dependia muito da colaboração do exército para permitir as filmagens em locação, precisou passar pelo crivo dos “censores” militares e o roteiro de Taradash sofreu muito com isso ao transpor o romance de James Jones para a tela. Some-se a isso a onipresença do Código de Produção e pronto, temos um filme que precisou quase que literalmente “rebolar” para fazer algum sentido. Peguem como exemplo a caracterização de Lorene, como anfitriã do clube. A conexão hesitante entre ela e Prewitt só se justifica de verdade se notarmos o que ela realmente é, mesmo que no filme não seja tecnicamente: uma prostituta. Do jeito que a versão sanitizada acabou ficando, não existe uma lógica muito grande para muito do que vemos no início da relação dos dois. O mesmo vale para os abusos sofridos mais para a frente por Angelo Maggio, que nunca acontecem em tela e são sempre caracterizados como violência física padrão (socos e chutes, por assim dizer) e nunca o que realmente fica nas entrelinhas, ou seja, a violência sexual. Até mesmo a resolução para o arco do capitão Dana é terrivelmente limpo com água sanitária para não ofender as Forças Armadas.

É quase como se A um Passo da Eternidade simplesmente não pudesse ter sido produzido quando foi, considerando seu material fonte. Taradash tenta, mas não consegue trabalhar muitas sutilezas em seu texto de forma a dar o tipo de coesão necessária a muitas das caracterizações mais importantes, assim como a direção de Zinnemann acaba limitada pelo que ele não pode nem sequer chegar perto de mostrar, resultando em uma narrativa picotada e até aguada demais, que, mesmo conseguindo entregar resoluções efetivas, nunca vai a fundo nas questões que promete discutir. Por outro lado, a fotografia em preto e branco de Burnett Guffey é estupenda, com sequências belíssimas em plano geral da base militar com filtros suaves que mesclam os tons e outras, mais intimistas, em que ele explora ao máximo o contraste do chiaroscuro – mas sem mimetizar a paleta básica de filmes noir – como a importante sequência em que Prewitt e Warden conversam bêbados sentado no meio da estrada à noite.

Entre mortos e feridos – literal e metaforicamente – ainda que nem tudo se salve, A um Passo da Eternidade mostra-se milagrosamente como um bom filme com a marca indelével e inclemente dos grilhões da época. Fico imaginando como seria incrível se as circunstâncias e momento dessa produção tivessem sido outros.

A um Passo da Eternidade (From Here to Eternity, EUA – 1953)
Direção: Fred Zinnemann
Roteiro: Daniel Taradash (baseado em romance de James Jones)
Elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Philip Ober, Mickey Shaughnessy, Harry Bellaver, Ernest Borgnine, Jack Warden, John Dennis
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.