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Crítica | A Vastidão da Noite

por Ritter Fan
686 views (a partir de agosto de 2020)

Exibido originalmente no Slamdance de 2019, A Vastidão da Noite foi logo arrematado pelo Amazon Studios para distribuição mundial, entrando discretamente na grade do serviço de streaming ao final de maio de 2020. Obra produzida no estilo “guerrilha” com 700 mil dólares por Andrew Patterson, que também a dirigiu e a co-escreveu (sob o pseudônimo James Montague) com Craig W. Sanger, esse pequeno filme beneficia-se mais da completa ignorância do espectador sobre seus detalhes, pelo que é recomendável conferi-lo até antes de ler a presente crítica, mesmo considerando que o texto abaixo não contém spoilers e que a fita em si não existe em razão de alguma reviravolta usada como artifício para fazer o queixo do espectador cair.

Muito ao contrário, A Vastidão da Noite é um filme que sabe usar sua duração modesta para vagarosamente envolver o espectador em sua bela ambientação dos anos 50 na cidadezinha de Cayuga, no Novo México, quando praticamente todos os seus habitantes estão assistindo um jogo de basquete colegial no estádio à noite. O foco da história fica na jovem Fay Crocker (Sierra McCormick), telefonista local que, durante seu trabalho, ouve um sinal estranho vindo do telefone, unindo-se ao seu amigo Everett (Jake Horowitz) para descobrir o que aquilo pode ser.

Patterson não tem a menor intenção de manter o mistério sobre a sua premissa e nem de esconder que sua obra poderia ser, no final das contas, um episódio estendido da clássica Além da Imaginação (ele inclusive usa um recurso de enquadramento que passa exatamente essa ideia. Sua preocupação maior está em oferecer uma bela jornada que depende quase que unicamente da dupla protagonista correndo de um lado para o outro e de uma bela fotografia noturna de M.I. Littin-Menz que trabalha com a impressão de filme granulado e cores mudas, de paleta limitada, realmente deixando onipresente a escuridão da noite que, lógico, funciona maravilhosamente bem para construir a necessária tensão. McCormick e Horowitz, por seu turno, trabalham muito bem tanto juntos quanto separadamente, com atuações convincentes que mistura deslumbramento com curiosidade, além de uma paixão adolescente por desvendar mistérios que deixa qualquer um empolgado.

Como é de se esperar, em razão do orçamento baixo, o filme se vale daquilo que não vemos, além de muitos diálogos, sejam ele entre Fay e Everett ou entre os garotos e Billy, um homem que eles entrevistam ao telefone (voz de Bruce Davis) e, depois, Mabel Blanche (Gail Cronauer), uma senhora que voluntaria uma longa história trágica pessoal. Em outras palavras, o texto expositivo reina nos momentos-chave, mas, aqui, eles são tão bem costurados e tão bem cadenciados que eles trabalham a favor da narrativa e não contra, mostrando um cuidado extremo de Patterson e Sanger com o roteiro, além de um meticuloso trabalho de montagem de Patterson (usando o pseudônimo Junius Tully) que levou nada menos do que dois anos para ficar pronto.

Entre os diálogos alongados, o diretor oferece belos travellings rasteiros ao chão à la Evil Dead, além de planos-sequência que exibem sua técnica para o público. Vale especial destaque o primeiro, que abre o filme usando Everett como veículo para um passeio pelo estádio onde acontecerá o jogo de basquete, com uma profusão de diálogos que localizam muito bem o filme mesmo que eles não tenham conexão direta com os acontecimentos posteriores. Mais tarde, há outro plano-sequência ainda mais longo que leva o espectador por toda a cidade, dá piruetas no estádio e continua a jornada que, ainda que seja tecnicamente muito bem executado – especialmente com o orçamento disponível – não acrescenta lá muita coisa ao filme além de um momento para realmente destacar a destreza de Patterson com a câmera e comandando a ilha de edição.

Seja como for, A Vastidão da Noite é uma simpática e muito competente abordagem da temática sci-fi que atiça a curiosidade imediatamente, prende a atenção com sua ótima dupla protagonista e com um mistério old school e termina deixando o espectador tremendamente satisfeito com essa pequena pérola que ainda bem conseguiu ver a luz do dia rapidamente, não ficando perdida em meio a outras tantas obras independentes de baixo orçamento que não têm a mesma sorte. E, de quebra, é possível que tenhamos uma promessa de um novo cineasta cujas obras esperaremos com ansiedade.

A Vastidão da Noite (The Vast of Night, EUA – 29 de maio de 2020)
Direção: Andrew Patterson
Roteiro: Andrew Patterson (como James Montague), Craig W. Sanger
Elenco: Sierra McCormick, Jake Horowitz, Gail Cronauer, Bruce Davis, Cheyenne Barton, Mark Banik, Gregory Peyton, Adam Dietrich, Mallorie Rodak, Mollie Milligan, Ingrid Fease, Brandon Stewart, Kirk Griffith
Disponibilidade: Amazon Prime Video
Duração: 89 min.

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