Número de temporadas: 1
Número de episódios: 167
Período de exibição: 11 de abril de 1994 a 21 de outubro de 1994
Há continuação ou reboot?: Esta já é a refilmagem da novela de mesmo título, exibida na Tupi em 1975.
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É impressionante como uma novela pode mudar radicalmente de qualidade e abordagem, mesmo que parta da exata mesma premissa, quando realizada em tempos diferentes, com roteiro escrito por pessoas diferentes e tendo em vista um novo propósito dramatúrgico. Digo isso porque assisti aos dois primeiros capítulos da versão original de A Viagem, exibidos em outubro de 1975 na Tupi, e é abissal a distinção entre aquele melodrama cheio de choradeira, ciumeiras extrapoladas e confusões matrimoniais e familiares estendidas. Sim, eu sei, há um quê de injustiça nesse julgamento, dado o padrão de produções das novelas brasileiras naquele momento. Isso é verdade. Mas vejam que estamos falando de 1975, e já naquele momento, os folhetins nacionais passavam por várias tentativas de abordagem que fugissem dessa papinha adocicada, mesmo quando o tema trabalhado era sério e inovador, como no caso de A Viagem, com sua visão sobre o pós-vida e diversos outros conceitos e situações de contato entre as esferas de existência à luz do espiritismo, contando até mesmo com a colaboração de Herculano Pires nos enredos. Além disso, experimentos como os realizados em O Rebu (1974) e Pecado Capital (1975) indicam que o melodrama puro e as “crises femininas” não eram exatamente a única coisa que se tinha em nossa telinha na época.
Wolf Maya e Ivani Ribeiro já haviam demonstrado, em Mulheres de Areia (1993), que conseguiam dar fôlego novo a tramas antigas, e essa experiência prévia da autora com o diretor parece ter preparado o terreno para que ambos chegassem ainda mais afinados na refilmagem de A Viagem, novamente com Solange Castro Neves redigindo os capítulos sob orientação de Ivani, já bastante debilitada pela diabetes. A sequência inicial já traz uma exploração esteticamente fina para a trama, com câmera subjetiva acompanhando a chegada de Alexandre ao local onde tentaria o roubo, num jogo de ponto de vista que cria cumplicidade imediata entre espectador e personagem. A fotografia das janelas do prédio irradiando uma luz quente no corredor (me lembrou interiores de algum filme dos Irmãos Coen nos anos 90!), e a escolha dos focos da câmera, com cortes precisos e econômicos para o personagem, constroem a tensão com rigor um visual que deixa a gente curioso para o que vem a seguir. A atuação de Guilherme Fontes é sensacional, passando do desespero para a alucinação de quem fez algo sem volta, numa construção riquíssima de personagem, tanto nas variantes de olhar (maldoso, perdido, ansioso) quanto na respiração, e tudo isso casa perfeitamente com a baita trilha sonora que reforça a tensão com ares macabros, permeando toda a fuga após o assassinato de Valdomiro, o tesoureiro vivido por Nildo Parente, e avançando até os momentos após a prisão de Alexandre.
Atenção especial também para a transição entre os núcleos, que ordena coerentemente as informações e não enche o episódio de personagens brotando do nada. Cada apresentação acontece de maneira objetiva, com tempo para respirar e sempre voltando ao eixo central que é a tentativa de roubo e suas consequências. A passagem pelo núcleo familiar de Raul tem alguns diálogos que soam um pouco truncados, é verdade, e a atuação de Maurício Mattar é fraca, especialmente quando colocada lado a lado com o trabalho de outros atores centrais, mas nada disso compromete a qualidade geral do episódio, que não se perde em subtramas menores, adotando a estratégia da “única coisa que importa” e, a partir dela (e também sempre voltando para ela), puxando os fios dos personagens. A cena de perseguição policial no último bloco, com Alexandre tentando escapar para o aeroporto, é muito bacana, filmada com agilidade e majoritariamente bem editada (há alguns acavalamentos de planos, mas nada grave), terminando com a captura do protagonista e fechando o arco narrativo de introdução num único episódio.
A ideia de que a punição por um crime pode ser driblada por quem tem dinheiro suficiente para contratar os melhores advogados ou simplesmente fugir do país é apresentada sem floreios, tendo até um tipo bem aceito de moralismo na maneira como as pessoas em volta de Alexandre reagem e lidam com o seu crime. A reação do tesoureiro no início é um dos poucos momentos em que a encenação tropeça levemente, porque a surpresa dele diante da invasão é artificial demais para o tom realista da sequência (praticamente um giallo!), mas isso é rapidamente superado pelo restante da cena, que recupera a tensão em alto nível. Há uma abertura de dúvidas interessantes ao longo de todo o capítulo, com personagens cujas motivações ainda não estão completamente claras, relações familiares densas que prometem ser exploradas com profundidade e, embora ainda não haja uma apresentação do mundo espiritual, a abertura — com a maravilhosa A Viagem, do Roupa Nova — e os desenhos leitosos servem como piscadela para o tema. Dá gosto de ver um capítulo inicial assim, centrado num ponto narrativo maduro e apresentando o tema sem pressa, mas com a versatilidade e riqueza que o enredo exige.
A Viagem (1994) – Capítulo 1 – Brasil, 11 de abril de 1994
Criação: Ivani Ribeiro
Direção: Wolf Maya
Roteiro: Ivani Ribeiro, Solange Castro Neves
Elenco: Christiane Torloni, Antônio Fagundes, Guilherme Fontes, Maurício Mattar, Andréa Beltrão, Cláudio Cavalcanti, Lucinha Lins, Miguel Falabella, Thaís de Campos, Laura Cardoso, Yara Cortes, Suzy Rêgo, Jonas Bloch, Fernanda Rodrigues, Felipe Martins, Ary Fontoura, Nair Bello, Lolita Rodrigues, John Herbert, Breno Moroni, Mara Carvalho, Eduardo Galvão, Denise Del Vecchio, Tânia Scher, Cláudio Mamberti, Danton Mello, Solange Couto, Lúcio Mauro Filho
Duração: 48 min.
