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Crítica | A Viagem de Chihiro

por Ritter Fan
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Se Luís Buñuel se reunisse com Salvador Dalí, Lewis Carrol, Alejandro Jodorowski, David Lynch e Terry Gilliam para conversar sobre ideias para filmes sob efeito dos mais diversos alucinógenos, tenho certeza de que eles não teriam a capacidade de chegar a um décimo da inventividade e imaginação que Hayao Miyazaki demonstra em A Viagem de Chihiro, longa de pura fantasia que o mestre das animações constrói ao redor de sua premissa favorita, o amadurecimento de uma jovem. Na verdade, o primeiro filme do século XXI do Estúdio Ghibli é quase que completamente um longo e deslumbrante desfile da fertilíssima inventividade sonora e visual de Miyazaki que parece feliz em soltar os freios completamente nos departamentos de criaturas bizarras e cenários magníficos e laboriosos que mantêm o espectador boquiaberto o tempo todo.

A história não é, muito sinceramente, mais do que um fiapo narrativo, quase que apenas uma desculpa para colocar em movimento o tal hipnotizante desfile visual que mencionei. Nela, a jovem, magérrima e medrosa Chihiro, muito a contragosto, muda-se de cidade com seus pais, deixando sua vida normal para trás tanto metafórica quanto literalmente. Já próximos de seu destino, porém, eles pegam um caminho errado e acabam no que parecem ser as ruínas de um parque de diversões que, à noite, ganha esplendorosa, mas também perigosa vida e que a menina precisa explorar não só para sair de lá, como também para resgatar seus pais que foram transformados em porcos (lembranças de Porco Rosso e de Pinóquio aqui) e podem virar bacon a qualquer momento.

Mas é importante não confundir história simples, um mero gatilho narrativo, por assim dizer, com história vazia e rasa. Não é o que acontece aqui, como, aliás, não acontece com nenhuma obra de Miyazaki se pararmos para pensar. Os contornos de história de crescimento e amadurecimento com claros toques de Alice no País das Maravilhas estão todos lá e Chihiro realmente lida com seu próprio rito de passagem, começando como uma menininha assustada e agarrada à barra da saia da mãe e chegando a uma jovem capaz de atos de coragem para fazer o que acha que é certo, sem jamais deixar que sua personalidade meiga, inteligente e curiosa funcione como ímã para as mais improváveis amizades. Esse caminho bastante objetivo, mas nem por isso desinteressante, é acompanhado não só por um exemplar trabalho de voz de Rumi Hiiragi, como por uma variada e complexa trilha sonora composta por Joe Hisaishi (prolífico parceiro das produções de Miyazaki, como Porco Rosso e Princesa Mononoke) que usa belas sequências em piano com a mesma facilidade com que lida com metais para pontuar os momentos mais tensos da jornada da jovem.

É inafastável concluir, porém, que A Viagem de Chihiro tem em sua história um pano de fundo apenas, com os holofotes ficando quase que o tempo todo no desbunde sonoro e visual que faz materializar um mundo mágico e onírico com impressionante fluidez, mais uma vez demonstrando o quanto o cineasta consegue fazer o inusitado parecer parte do cotidiano. Não há demora na “compra” da transformação fantástica por que passa o parque de diversões em pedaços que serve de atrativo aos pais de Chihiro no começo da fita e não há exatamente estranheza a cada nova criatura que apareça, seja a bruxa cabeçuda que comanda o local, o espírito sem rosto que se conecta com Chihiro ou a gigantesca e enlameada criatura que chega para limpar-se na casa de banhos, logo revelando-se outra coisa bem diferente.

Miyazaki orquestra sua narrativa de maneira exemplar, sem cansar o espectador com repetições cansadas e sem por sequer um segundo deixar de hipnotizá-lo com um cada vez mais expansivo universo de regras próprias. Há um ritmo gostoso que marca bem as descobertas de Chihiro e sua evolução ao longo da história, mas há, também, uma aceleração sensível nos 20 minutos finais, com uma resolução a partir da viagem de trem da menina que, diante de tudo o que veio antes de maneira muito compassada, é apressada, derramando “novas regras” que parecem contar outra história que, apesar de ainda muito boa, distancia-se do que o cineasta construíra. Talvez a maior marca dessa perda momentânea de ritmo seja determinada revelação final – que não abordarei aqui, mas, se abordasse, diante de sua aleatoriedade, dificilmente poderia ser considerada spoiler – que muito artificialmente conecta o passado de Chihiro com outro personagem sem que haja qualquer efetiva preparação para ela. É, na falta de palavras mais eufemísticas, o literal coelho retirado da cartola que quebra a imersão nos minutos finais.

Mesmo com sua derrapagem quase na linha de chegada, A Viagem de Chihiro continua sendo uma jornada cinematográfica como poucas que desafia os limites da imaginação, mais uma vez coroando Miyazaki como um dos reis da arte da animação cinematográfica. Os anos 2000 começaram de forma estupenda para o cineasta e seu estúdio, imediatamente marcando o universo de Chihiro como um dos mais ricos a ganhar forma na Sétima Arte.

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi – Japão/EUA – 2001)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Mari Natsuki, Takashi Naitō, Yasuko Sawaguchi, Bunta Sugawara, Yoomi Tamai, Ryūnosuke Kamiki, Akio Nakamura
Duração: 125 min.

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