O naturalista, geólogo e biólogo britânico Charles Robert Darwin é amplamente mais conhecido por seu magnífico trabalho científico que resultou em A Origem das Espécies, publicado em 24 de novembro de 1859, mas foram suas anotações em forma de diário convertidas em livro e originalmente publicadas 20 anos antes com o singelo título Diários de Pesquisas, inserido em uma coleção em quatro volumes relatando as viagens exploratórias dos navios HMS Adventure e HMS Beagle, que tornaram possíveis suas conclusões à época polêmicas sobre a evolução e seleção natural. A Viagem do Beagle, título adotado somente em 1905, 23 anos após o falecimento de seu autor, é, por assim dizer, a “origem de A Origem das Espécies” e uma obra que tem mérito próprio, podendo ser lida fluidamente e que conserva os apontamentos e observações das mais variadas ordens de um então jovem de 22 anos muito à frente de seu tempo em uma viagem de volta ao mundo – a segunda do navio Beagle, mas a primeira e única de Darwin – que durou de 27 de dezembro de 1831 a 02 de outubro de 1936.
Começando e terminando na Inglaterra sua “missão de cinco anos para explorar novos mundos estranhos”, como Gene Roddenberry escreveria muito tempo depois, Darwin visitou Cabo Verde, Brasil (Fernando de Noronha, Recife, Salvador e Rio de Janeiro), Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Ilhas Galápagos (praticamente no período de sua anexação ao Equador), Taiti, Austrália e Ilhas Maurício em uma viagem que, muito – mas muito – diferente da de seu compatriota Ernest Shackleton entre 1914 e 1917, foi relativamente tranquila em termos de problemas encontrados em seu trajeto, o que permitiu ao cientista realmente mergulhar em seu trabalho e em suas observações, gerando o colhimento de um sem-número de espécimes vivas e mortas, fósseis, amostras de solo e a escrita de muitas e muitas páginas de análises preliminares, mas cuidadosas, que abordaram não só questões de suas especialidades, como também sociológicas e antropológicas. Ler A Viagem do Beagle, especialmente se você é do Rio de Janeiro e consegue mentalmente imaginar Darwin morando em Botafogo, visitando o Jardim Botânico e viajando por terra para a Região dos Lagos, especificamente para Maricá, Iguaba Grande, Saquarema, Araruama, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Macaé, é uma experiência muito prazerosa.
Apesar de A Viagem do Beagle ter tido como origem os diários e anotações de Darwin, ele não parece um diário, pelo menos não um diário científico/marítimo tradicional que encontramos comumente nos séculos XVIII e XIX. Quer parecer que Darwin esforçou-se em emprestar aspectos mais classicamente literários ao que escreveu, o que é impressionante para um jovem com a idade que ele tinha, com um provável ótimo trabalho de editoração que só foi melhorando ao longo das novas edições que alteraram capítulos, aglutinaram outros e deram um caráter mais objetivo e organizado a uma obra que tinha todo o potencial – considerando que são cinco anos de anotações – de ser bagunçada, repetitiva e cansativa. Mas não há um traço sequer dessas características negativas que mencionei no resultado final. É, para todos os efeitos, um livro completo sobre observações de um cientista particularmente sensível e inteligente de sua época, em que as ciências não eram segmentadas como em tempos modernos. Talvez por essa razão, quando publicado, seu Diários de Pesquisas tenha se destacado dentre os volumes da coleção em que foi inserido, ganhando uma republicação separada no mesmo ano para atingir um público não necessariamente de cientistas ainda mais vasto, provando-se como uma das primeiras obras científicas verdadeiramente populares, ainda que seu A Origem das Espécies seja talvez o ponto alto desse tipo de livro no século XIX.
Primordialmente escolhido para fazer parte da expedição para fazer levantamentos e pesquisas geológicas, Darwin muito claramente não se esquiva em momento algum em lidar em detalhes com as formações rochosas e os acidentes geográficos de todas as regiões por que passou, trabalhando com teorias e suposições dele ou desenvolvidas a partir de conhecimentos de terceiros. Por outro lado, é também evidente como ele cada vez mais assertivamente, na medida em que se depara com a riqueza natural dos países que visita, demonstra sua predileção por questões biológicas, sendo particularmente fascinante – e, transportando-se no tempo, até dá para sentir uma espécie de excitação pelo que ele viria a desenvolver sobre a seleção natural – como é facilmente perceptível a gênese de indagações sobre o poder adaptativo da vida e como isso teria afetado a evolução das espécies. A leitura das entrelinhas do que Darwin escreve é rica e gratificante, especialmente porque ele não escreve com a intenção de dificultar a leitura por ninguém com um mínimo de conhecimento básico, jamais sendo hermético ou lidando com jargão das áreas sem contexto bem claro. Curiosamente, porém, as Ilhas Galápagos, tão central à A Origem das Espécies, é comparativamente pouco abordada em A Viagem do Beagle.
Além disso, seus apontamentos sociológicos e antropológicos que recheiam a narrativa emprestam uma característica de observador curioso e de uma mente jovem já muito capaz de detectar as injustiças e a maldade humanas, algo pontuado pelos diversos comentários sobre a escravidão que ele observa no Brasil, algo que o afeta de maneira genuína e profunda, mesmo que ele, naturalmente, não entre em divagações de causas e efeitos que alguém de tempos modernos talvez pudesse esperar. É também interessante notar como seu cotidiano faz parte de seus textos, com comentários sobre a burocracia no Brasil, as revoltas na Argentina e a comparativamente vazia – em termos visuais diretos, obviamente – região que ele atravessa por terra entre a Argentina e o Chile com a voluptuosidade e riqueza da vegetação brasileira. Vemos o turista consciente Charles Darwin da mesma maneira que vemos o futuro brilhante cientista Charles Darwin e isso só torna a experiência da leitura mais variada, rica e recompensadora.
A Viagem do Beagle é um marco literário como obra científica, como impressões de um jovem viajante e até mesmo como um guia turístico de algumas partes do mundo na primeira metade do século XIX sob os olhos de um britânico recém saído da faculdade e ainda perdido no que gostaria de ser. E o livro é, também, um maravilhoso prelúdio de uma das mais importantes obra científicas da História do Homem que revolucionou a forma de vermos e entendermos de onde viemos. Mas isso é uma conversa que Charles Darwin só viria a ter duas décadas no futuro, depois de destilar o conhecimento que acumulou nessa sua viagem e em inúmeras outras pesquisas, além de, claro, construída em cima de ombros de gigantes anteriores e contemporâneos a ele, como é natural.
arte: Conrad Martens
A Viagem do Beagle (The Voyage of the Beagle – Reino Unido, 1839)
Autoria: Charles Darwin
Editora original: Henry Colburn (como parte de Narrative of the Surveying Voyages of His Majesty’s Ships Adventure and Beagle)
Data original de publicação: maio de 1839 (como parte dos volumes de Narrative of the Surveying Voyages of His Majesty’s Ships Adventure and Beagle e, separadamente, no final do mesmo ano, como Darwin’s Journal of Researches)
Editora no Brasil: Editora Edipro
Data de publicação no Brasil: 10 de abril de 2024
Tradução: Daniel Moreira Miranda
Páginas: 640
