Crítica | A Vida da Capitã Marvel

Retcons fazem parte da infraestrutura dos quadrinhos mainstream. Sempre foi assim, pois a continuidade retroativa – ou a inserção de eventos no passado dos personagens que podem ou não alterar completamente seus status quo – funciona como vitaminas narrativas para causar transformações e limpar o palato para uma nova abordagem que pode ou não trazer o frescor necessário e, também, permitir a entrada de novos leitores sem o peso da continuidade de décadas ou até mesmo para corrigir ou para “organizar” histórias antes contraditórias. Claro que há os retcons bons e os ruins, como tudo na vida, e mesmo essa divisão binária é injusta, já que dependerá muito do gosto pessoal de cada um. Pessoalmente, prefiro retcons como os que criaram o Soldado Invernal ou Jessica Jones, que são profundamente costurados à mitologia de um universo, mas sem alterar sua essência.

A Vida da Capitã Marvel é uma minissérie em cinco edições escrita por Margaret Stohl, que estava a frente da personagem desde 2016, como seu presente de despedida para os leitores e para anunciar a troca do time criativo, que passou a ter Kelly Thompson como regente, com mais uma renumeração da publicação solo de Carol Danvers como Capitã Marvel. Stohl entrega uma história de cunho muito pessoal para a heroína, fazendo-a voltar às sua raízes familiares depois que a proximidade do Dia dos Pais a faz perder o controle em uma luta ao lado dos Vingadores.

Com isso, Carol literalmente volta para a casa de verão de sua família, em Harpswell, Maine, onde encontra sua mãe e seu irmão Joe Jr. O que parecem reminiscências benignas sobre o passado, com Carol lidando com a história de bebedeira do pai, algo que Stohl lida muito levemente, sem realmente trazer situações que mostrem eventual trauma de infância de Carol em relação a ele, logo é transformado em tragédia, com seu irmão acidentando-se, com sequelas graves no cérebro que transformam sua visita de dias em quase um ano de abandono do manto de Capitã Marvel para desespero de Tony Stark, que aparece constantemente em ligações holográficas.

Essa redescoberta de seu passado e a pegada humana de toda essa linha narrativa é um triunfo dos quadrinhos para Stohl, algo que eu, muito pessoalmente, gostaria de ver um dia com sendo objeto de um dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel, com qualquer personagem, já que é uma abordagem não super-heroística para super-heróis que só é mais facilmente encontrável em publicações de editoras como Image Comics. Obviamente, porém, que a minissérie não poderia somente ficar por aí e Stohl começa então seu retcon primeiro revelando a existência de cartas de seu pai para uma mulher misteriosa que provariam que ele teve um caso antes de falecer. Até aí, nada de mais. Funciona bem e cria um mistério que aguça a curiosidade, mas mantendo-se razoavelmente mundano, mesmo que um artefato estranho, achado junto com as cartas, deflagre a chegada de uma assassina Kree.

Em um crescendo que o leitor consegue desconfiar, mas que não abordarei aqui – só na Zona de Spoilers abaixo – para manter a crítica livre de spoilers, Stohl, então, muda a natureza da origem da Capitã Marvel, literalmente desfazendo tudo o que décadas e décadas de continuidade produziram de maneira razoavelmente uniforme. Minha infância foi destruída? Certamente que não, pois sou grandinho demais para deixar bobagens assim me afetarem mais do que um comentário dessa natureza em uma crítica, mas confesso que não gostei nada do que a roteirista acabou inventando em seu retcon. Peguem, para efeito comparativo, o trabalho de Kelly Sue DeConnick ao transformar Carol Danvers em Capitã Marvel na revista solo publicada entre 2012 e 2014. Lá, o passado foi completamente respeitado e, mais do que isso, serviu de base para tudo o que a autora criou, levando Carol Danvers para outro caminho, em uma direção própria, mas que carregava um legado.

Margaret Stohl não faz isso. Ao contrário, ela descarta o passado ao refazê-lo e ainda estabelece algo latente nos Kree que nunca vi abordado antes e que pode mudar mais do que apenas o passado de Carol Danvers. Com isso, uma história belíssima de cunho pessoal é convertida em uma plataforma transformativa que, pessoalmente, não me desce por ferir de morte os princípios formativos da heroína. Claro que terei que viver com isso e a minissérie continua boa mesmo assim, mas, essa mudança não se justificava e um meio-termo poderia ter sido alcançado facilmente.

A arte da minissérie acompanha muito bem a narrativa de Stohl. Carlos Pacheco, responsável pelos lápis de todas as sequências no presente (há artistas que se revezaram nos flashbacks). Há uma suavidade muito grande no que ele desenha, o que torna tudo muito agradável e ritmado, sem que ele precise recorrer a fogos de artifício. A volta de Carol às suas raízes precisava de algo nessa linha e ele entrega exatamente o que o texto de Stohl exigia.

A crítica sem spoilers acaba por aqui. A partir do próximo parágrafo, abordarei de frente o retcon. Fica o aviso!

Zona de Spoilers

É inescapável concluir que o grande objetivo de Margaret Stohl (e da Marvel Comics) com a minissérie sob análise foi afastar a Capitã Marvel de uma origem conectada e dependente da história do Capitão Marvel, editorialmente falecido desde 1982, em belíssima graphic novel. É o famoso “vamos simplificar, mesmo que isso signifique destruir o legado”.

E como Stohl faz isso? Revelando, de forma muito parecida com a origem “moderna” do Aquaman (com direito até a um farol na baía de Boston), que a mãe de Carol é, na verdade, Mari-Ell, capitão Kree que veio para a Terra há décadas em uma missão e acabou encontrando a amor na figura do viúvo Joseph, que viria a ser o pai de Carol e que já tinha dois filhos pequenos. Confesso que até esse ponto, não veria muito problema com essa alteração, mesmo ela sendo significativa.

O problema mesmo está na explicação para os poderes de Carol Danvers, que Mari-Ell afirma virem exclusivamente do destravamento de habilidades anciãs do sangue Kree, algo que ela própria também havia destravado. A explosão do psyche-magnitron não teve relação fisiológica com a criação de Miss Marvel na década de 70, apenas psicológica, destravando a natureza Kree de Carol, algo enterrado profundamente pela forma como ela foi criada (e que desdiz a bebedeira e trauma de Carol e relação ao pai, aliás). E, com isso, vai pelo ralo o Capitão Marvel e o legado a partir daí, com a mãe transformando-se em sua contrapartida Kree, com direito a um belo uniforme e poderes iguais aos de Carol. Chega a ser surreal que, passados anos da transformação de Carol em um híbrido Kree-humano, algo tornado público, sua mãe não tenha escolhido revelar o grande segredo antes…

Como disse acima, gostar ou não de retcons dessa natureza é algo pessoal. Tenho para mim que a separação da Capitã Marvel de Mar-Vell chega a ser desrespeitosa, mas, claro, não tenho escolha a não ser viver com isso na boa e esperar, um dia, que outro retcon retcone esse retcon

A Vida da Capitã Marvel (The Life of Captain Marvel, EUA – 2018/9)
Contendo: A Vida da Capitã Marvel #1 a 5
Roteiro: Margaret Stohl
Arte: Carlos Pacheco (presente), Marguerite Sauvage (flashbacks)
Arte-final: Rafael Fonteriz (presente)
Cores: Marcio Menyz (presente)
Letras: Clayton Cowles
Capas principais: Julian Totino Tedesco
Editoria: Sarah Brunstad, Sana Amanat
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2018 a fevereiro de 2019
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 2019 (encadernado)
Páginas: 124 (encadernado Panini)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.