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Crítica | A Vida dos Outros

por Marcelo Sobrinho
1924 views (a partir de agosto de 2020)

“Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,
deixem que corram lágrimas qual neve fundida,

deixem que as pombas da prisão arrulhem na distância
e que os barcos deslizem em silêncio sobre o Nevá”

Réquiem, de Anna Akhmátova

Os versos acima, de autoria da poetisa russa Anna Akhmátova, refletem o horror stalinista a que a artista foi submetida, praticamente lançada ao ostracismo por quase três décadas durante o regime comunista soviético. O sufocamento da figura do artista dentro da cortina de ferro é bastante conhecido e abordado pelas artes. No caso do cinema, um dos melhores retratos já realizados sobre o assunto é o longa-metragem alemão A Vida dos Outros. O filme, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, se passa na Berlim Oriental, em 1984 (o que remete imediatamente à obra máxima de George Orwell), quando a polícia secreta da Alemanha Oriental – a Stasi – empreendia a mais paranóica vigilância de seus cidadãos dentre todas as organizações policiais de todos os países do bloco socialista. Se Adeus, Lênin!, de Wolfgang Becker, utiliza da sátira para explicar o degelo político iminente na Alemanha comunista, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck se defronta pesadamente com o tema da supressão das liberdades individuais e do vilipêndio ao artista dentro do mesmo contexto.

O roteiro, também escrito por Donnersmarck, é primoroso. O diretor e roteirista estreante consegue evitar a composição de personagens achatados e maniqueístas, ainda que esteja lidando com indivíduos que tem diante de si escolhas difíceis e que, indubitavelmente, passam por noções de certo e errado, bem e mal. Mas é convincente a construção de personagens que fraquejam, tem dúvidas e recuam diante de suas primeiras decisões. Georg Dreyman (Sebastian Koch) inicia o filme como um dramaturgo obediente ao governo, ainda que não escape ao patrulhamento de seus membros. Sua namorada Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck) segue seus passos e vai até mais longe que Georg em sua tentativa de auto-preservação. Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é o oficial da Stasi encarregado de comandar a operação de vigilância do apartamento do casal por meio de um sistema de escutas. Contudo, se o casal de artistas não tarda a entender que a alienação política tem seus limites óbvios, transformação maior será a de Wiesler ao descobrir que há algo ainda maior que a obrigação política.

É desenvolvendo lindamente essas duas camadas que A Vida dos Outros segue seu caminho. Qual deve ser o nosso engajamento com o nosso tempo e com quaisquer tempos, em que pese a figura do outro como imperativo maior? O trabalho de Donnersmarck mantém a cadência exata para responder a essa questão. O diretor alemão não é de colocar seus quadros em grande movimento, mas acerta bem quando o faz. Quando Wiesler ouve Georg tocar a Sonata para Um Homem Bom ao piano, Donnersmarck realiza um lindíssimo travelling circular ao redor do oficial da Stasi, arrancando dele toda a gravidade que o momento (quase epifânico) exigia. A lágrima que escorre no rosto de Wiesler é um dos grandes momentos da atuação de Ulrich Mühe, um dos maiores atores do teatro alemão e com uma breve mas inesquecível passagem pela sétima arte. O diretor abre e fecha seus planos para exprimir as transformações de seus personagens e corta de um para outro, economizando diálogos e permitindo que o público faça suas deduções ao mesmo tempo em que eles.

O filme toca em um ponto nevrálgico das ditaduras e que merece ser olhado com atenção. Todas elas, sem exceção, quer se orientem à esquerda ou à direita, perseguiram artistas de modo implacável. A soviética provocou longos períodos de sofrimento a uma lista incrivelmente extensa, que inclui, além de Akhmátova, figuras como os compositores Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich, o poeta e dramaturgo Vladimir Maiakovski e o pintor Wladislaw Strzeminski. A ruptura de Jean-Paul Sartre com o regime cubano se deu exatamente na ocasião da prisão do poeta Heberto Padilla, após longa e injustificável perseguição. Hitler tentou enterrar a música de Felix Mendelssohn, de ascendência judia. Augusto Pinochet arruinou vidas e carreiras, como a do músico Victor Jara. O maior temor de todos os regimes ditatoriais nunca foi a atividade de guerrilhas que a eles resistiam. A atividade artística, ao ampliar ideias e dilatar percepções, sempre foi muito mais subversiva do que o disparo de qualquer arma. As peças de Georg e do amigo Albert Jerska (Volkmar Kleinert) foram um sopro de vida dentro da cinzenta RDA e fizeram surgir “o novo sob o disfarce de um milagre”, como gostava de dizer Hannah Arendt.

Não à toa, a transformação de Wiesler parece tão miraculosa e acontece exatamente sob o efeito dos acordes da Sonata Para um Homem Bom. A arte o ajudou a reencontrar uma humanidade anterior ao posto político que ocupa e à farda que veste. Contra todas as probabilidades, em um cenário tão adverso, renasceu nele o sentido primeiro de compromisso com o outro. Wiesler compreende que não era possível continuar vivendo sem que fizesse a única coisa que lhe parecia correta. Nota-se a consciência do policial alemão de que seu ato arruinaria a sua própria vida, mas, ainda assim, ele toma a sua posição sem titubear, como se não houvesse outra coisa a se fazer. Essa consciência é a mesma que leva pessoas a arriscarem a própria vida para salvarem outras em situações extremas, como guerras e catástrofes naturais. Há algo mais profundo que nos conecta. Algo impresso em nossa humanidade mais medular. Acima do engajamento político, essa é a grande camada que A Vida dos Outros trabalha.

Mesmo que o roteiro do filme de estreia de Florian Henckel von Donnersmarck trabalhe com um contexto político bastante específico, a sua abordagem extrapola muito seus limites históricos. Tudo é tão bem construído que nem o acidente automobilístico final ganha um tom de solução fácil. A direção talentosa e o roteiro tão bem escrito do jovem Donnersmarck deixam a dúvida – não seria aquele um último suicídio de um artista sob o céu plúmbeo da RDA? O certo é que A Vida dos Outros manda uma mensagem clara para todos os que, movidos por atroz analfabetismo político ou pura má fé, reclamam soluções ditatoriais para um país. Uma ditadura sempre começará a definhar quando um homem for capaz de se reconhecer no outro. Algo que totalitários de direita e de esquerda nunca foram capazes de compreender.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen) – Alemanha, 2006
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck
Elenco: Martina Gedeck, Sebastian Koch, Thomas Thieme, Ulrich Mühe, Ulrich Tukur
Duração: 137 minutos

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8 comentários

Jorge Duete 10 de novembro de 2020 - 14:46

Ótima crítica para um filme excelente. Roteiro, direção e atuações para se aplaudir de pé. Uma drama político sóbrio o tempo todo. Difícil não se envolver com as decisões dos personagens. O final é perfeito.

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Daniel Barros 27 de julho de 2020 - 05:15

Marcelo, sua crítica me agradou tão quanto ao filme, que é belíssimo!

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Luiz Santiago 15 de março de 2018 - 06:26

Crítica lindíssima, Marcelo. E que baita filme, hein? Quando eu o vi pela primeira vez fiquei tão tocado e embasbacado como o diretor conseguiu trabalhar elementos políticos, emocionais, ideológicos e morais de forma poética, que na mesma semana foi ao cinema outra vez para rever a obra. É um filme que toca nessa ferida que você tão bem alerta: o pedido de uma ditadura (sob qualquer orientação) como solução para qualquer coisa. E o mais medonho é que não são poucas as pessoas que estão nessa ultimamente. Inclusive aqui no Brasil…

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Marcelo Sobrinho 15 de março de 2018 - 20:58

Sem dúvidas, Luiz! Há muitas pessoas assim no Brasil – viúvos de um período que às vezes sequer viveram! Uma loucura! Para evitar qualquer engano, frisei que tudo o que disse sobre as ditaduras se refere tanto à esquerda quanto à direita. A Vida dos Outros é um dos filmes que mais gosto da década passada! Maravilhoso!

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Luiz Santiago 15 de março de 2018 - 22:53

Sim, porque ou te chamariam de coxinha ou de mortadela. A coisa hoje está bem nesse nível, meu amigo…

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Marcelo Sobrinho 16 de março de 2018 - 00:17

Exato! Como se ditadura não fosse simplesmente ditadura! Não nos enganemos. Nós humanos sempre fomos bons em matar e causar destruição. Seja em nome da fé, da ausência dela, de uma orientação política ou da sua contrária!

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Mauro 29 de novembro de 2019 - 09:18

Eu hoje vivo uma ditadura… principalmente se for um homem e antiquado… não posso falar nada que eu penso… no governo militar era assim… e hoje também… esse governo de esquerda promoveu uma cultura onde qq pessoa que tiver qq ideia diferente da deles é um racista, facista. Se o Brasil realmente fosse assim a maioria da população não seria parda morena… tortura 40 anos era feita por militares hoje e feita em qq favela, CABEÇAS cortadas… pessoas sem membros… td feito aos olhos de tds… mas nada disso é visto… uma pergunta… Vc hj no Brasil tem mais medo de ser perseguido por um traficante ou pela PF… eu prefiro a PF… pq se for por um traficante, eu vou morrer e ele vai ter advogado… pago por mim… e eu não vou ter direito a Nada… pq ele é vítima da sociedade e eu o CULPADO por ele ter me matado… virou loucura isso… quem rouba a sociedade… de mim e dele… e quem faz as LEIS

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Daniel Barros 27 de julho de 2020 - 05:15

Mauro, apenas por curiosidade: chegou a assistir o filme antes de escrever isso?

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