Home Diversos Crítica | A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams

Crítica | A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams

por Luiz Santiago
139 views (a partir de agosto de 2020)

Volume 3 da Série “O Mochileiro das Galáxias”

Um dos principais atrativos da série O Mochileiro das Galáxias é a forma como Douglas Adams cria “pontos de retorno” para que sua narrativa, após dar uma longa volta, consiga ter um lugar seguro para ancorar, obviamente, no final do livro. É claro que isso tem pontos negativos atrelados (algo marcante na série desde O Restaurante no Fim do Universo), mas por enquanto vamos focar na parte onde essa dinâmica é interessante e como funciona — dentro da loucura que já sabemos que vamos encontrar nos livros do autor. No presente caso, isso começa com Arthur Dent, na Pré-História, sendo salvo por seu amigo Ford Prefect.

O enredo de A Vida, o Universo e Tudo Mais não foi concebido, inicialmente, para um livro, o que explica muita coisa a respeito de sua estrutura narrativa absurdamente picotada, um dos pontos incômodos da obra. Em 1978, Adams se envolveu com a produção da série Doctor Who, ocupando o cargo de editor de roteiros por 6 meses e escrevendo uma porção de textos que acabaram tendo resultados bem diferentes diante da produção. Dessas, três merecem destaque: The Pirate Planet (para mim, segundo melhor arco de toda a era do 4º Doutor, como vocês podem ver neste ranking), Shada (apenas parcialmente filmado, um dos “arcos malditos” da série) e Doctor Who and the Krikkitmen, que depois de ser rejeitada pelo então editor Robert Holmes, foi guardada pelo autor até se tornar o livro A Vida, o Universo e Tudo Mais.

Neste volume, o leitor já conhece o estilo de escrita de Adams, então é fácil entender algumas escolhas, mesmo que, em termos de construção de uma grande narrativa, acabem não sendo as melhores. No início, porém, tudo corre bem. Arthur segue com o azar em alta, às vezes afetado por uma “sorte” que o leva a situações ainda piores. O salvamento de sua jornada na Pré-História é um grande exemplo. Passamos da solidão e dos problemas de comunicação iniciais (é muito interessante ver esses temas trabalhados dentro de uma comédia com ingredientes tecnológicos) para uma partida de críquete em Londres, cronologicamente, alguns dias antes dos Vogons demolirem o planeta, como visto em O Guia do Mochileiro das Galáxias. A exploração dos personagens nesse novo cenário pode dar alguns tropeços, quando a materialização acontece, mas não é nada grave. O texto segue divertido e nos coloca algumas boas preocupações quando os robôs brancos de Krikkit começam a destruir tudo.

A entrada de Slartbartifast, os meandros do POP (Problema de Outra Pessoa) e a discussão de racismo a partir da sangrenta guerra, das chaves do portal e dos habitantes xenófobos e racistas de Krikkit são as últimas coisas que gerarão bons pontos de discussão no livro, porque cada um desses elementos carregam algo que será bem utilizado na narrativa. Mas ao mesmo tempo que essa viagem começa nos fazendo pensar, ela vai paulatinamente nos afastando da linha principal, nos confundindo, nos colocando em um labirinto de ações que parecem atos isolados com funcionamento bastante questionável no todo, o pior sinal da herança da época em que o texto fora um roteiro. É claro que muitos desses momentos paralelos possuem ambientações curiosas e fortemente cinematográficas (Adams era mestre em criar excelentes imagens literárias e dar uma boa atmosfera para um cenário). A relação de Marvim com o Colchão Zem, nos Pântanos de Squornshellous Zeta, é a prova disso. Todavia, a constante interrupção de narrativas para a criação de outro bloco de acontecimentos — e isso sem uma passagem orgânica de um ponto para o outro — vai tornando o livro mais truncado e, infelizmente, cortando muito da diversão que poderia ter.

As amizades incomuns, os mistérios do Universo e uma curiosa saga individual com críticas a pensamentos segregacionistas são os pontos centrais deste terceiro livro da série do Mochileiro. O leitor ri e se encontra com alguns dos maiores absurdos imagináveis de uma literatura de ficção científica + fantasia + comédia britânica (importante destacar isso). Entretanto, diferente da fluidez de nonsenses que encontramos, por exemplo, no primeiro livro da série, temos aqui muitos momentos onde personagens novos, situações de perigo, situações constrangedoras e divagações sobre o que o título do livro promete atrapalham mais do que ajudam, tirando um bocado da diversão. No todo, é uma boa experiência. Mas o percurso para se chegar ao final não é tão suave quanto esperávamos de uma obra de Douglas Adams.

A Vida, o Universo e Tudo Mais (Life, the Universe and Everything) — Reino Unido, agosto de 1982
Editora original: Pan Books (Reino Unido)
Editora no Brasil: Editora Arqueiro
Autor: Douglas Adams
Tradução: Carlos Irineu da Costa
160 páginas

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30 comentários

Massi Marques 22 de abril de 2018 - 13:02

O crítico exige uma fluidez que não condiz com o universo absurdo proposto pro Adams. Se existisse fluidez na narrativa, não seria Douglas Adams.

Responder
Luiz Santiago 22 de abril de 2018 - 14:33

Você não poderia estar mais errado. Fluidez narrativa é a base de qualquer estrutura literária, seja na prosa ou no verso. Se não tem, ou é ruim, ou medíocre ou consideravelmente problemática (nesse aspecto) pelo próprio impasse com a fluidez narrativa.

Responder
Luiz Santiago 22 de abril de 2018 - 14:33

Você não poderia estar mais errado. Fluidez narrativa é a base de qualquer estrutura literária, seja na prosa ou no verso. Se não tem, ou é ruim, ou medíocre ou consideravelmente problemática (nesse aspecto) pelo próprio impasse com a fluidez narrativa.

Responder
Massi Marques 22 de abril de 2018 - 12:45

Já perdi a conta de quantas vezes reli essa saga intergaláctica.

Responder
Massi Marques 22 de abril de 2018 - 12:45

Já perdi a conta de quantas vezes reli essa saga intergaláctica.

Responder
Lucas Cardozo 16 de abril de 2018 - 06:32

Preciso reler os livros, li ainda criança, mas lembro de ter gostado de todos, embora tenha notado que a partir desse as coisas tenham ficado “diferentes”.

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Luiz Santiago 16 de abril de 2018 - 06:58

Eu gostei MUITO do primeiro. O segundo e este achei bons, mas com muitos problemas.

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Pedro Duzzi 15 de abril de 2018 - 05:06

Eu não me lembro bem, pois faz tempo que já, mas nesse livro tem um erro de linhas temporais ou algo assim? Eu me lembro de ter lido e ficado com a impressão de que havia algo de errado, tipo um erro de continuidade.

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Luiz Santiago 15 de abril de 2018 - 07:54

Ele trabalha com uma questão de tempo sim, tem uma reescrita de tempo, por assim dizer, e um paradoxo. Mas não um erro.

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Mr.L 14 de abril de 2018 - 09:42

Apesar de ser fraco, ainda dá um “final” ok pra saga, porque o quarto livro foi uma verdadeira tortura, que exterminou quaisquer chances de eu ler o quinto.

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Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 14:49

Depois desse aqui, que é um tiquinho de livro e demorei horrores pra ler, fiquei totalmente desmotivado pra continuar. Mas vou terminar a saga, só de birra! hahahahahahhaha

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 14:49

Depois desse aqui, que é um tiquinho de livro e demorei horrores pra ler, fiquei totalmente desmotivado pra continuar. Mas vou terminar a saga, só de birra! hahahahahahhaha

Responder
Rafael Lima 13 de abril de 2018 - 23:51

Concordo com muito dos pontos que incomodaram você neste livro. Eu gosto muito dos dois primeiros livros, mas esse aqui parece um pouco desarticulado narrativamente falando. Muitos simplesmente atribuem isso ao estilo “nonsense” do autor, que segue hilário, mas que pra mim tornou-se difícil de acompanhar, tornando o “nonsense” algumas vezes uma muleta ao invés de uma ferramenta precisa.
Não tive essa impressão nos dois primeiros volumes, que acho excelentes, e articulam bem melhor os aspectos filosóficos com humor absurdo da série. Aqui, essa articulação já não teve a mesma eficiência

PS: Tem erro de digitação ai. Todo mundo sabe que “City of Death” é a OP do Adams em Doctor Who (Hehehehe)

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 01:06

City of Death nem é uma história 5 estrelas!!! HHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

Mas é, essa coisa do nonsense dele já me levou a MUITAS discussões sobre o livro. Algumas pessoas realmente acreditam que má estrutura narrativa é perdoada por um estilo X de um autor, o que, pensando bem, é tão absurdo que nem a pessoa teria coragem de validar a própria opinião aplicando a mesma regra a outros gêneros e autores. É possível sim ter uma característica nonsense e escrever uma história excelente. Não é o caso aqui, apesar deste ser um bom livro.

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 01:06

City of Death nem é uma história 5 estrelas!!! HHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

Mas é, essa coisa do nonsense dele já me levou a MUITAS discussões sobre o livro. Algumas pessoas realmente acreditam que má estrutura narrativa é perdoada por um estilo X de um autor, o que, pensando bem, é tão absurdo que nem a pessoa teria coragem de validar a própria opinião aplicando a mesma regra a outros gêneros e autores. É possível sim ter uma característica nonsense e escrever uma história excelente. Não é o caso aqui, apesar deste ser um bom livro.

Responder
Rafael Lima 14 de abril de 2018 - 13:51

Concordo plenamente. O Nonsense não pode ser desculpa pra uma estrutura narrativa frouxa. Prova disso é que os dois primeiros volumes de “O Guia…” (o primeiro em especial) são histórias muito bem estruturadas, e contém todas as loucuras deliciosas do Adams.

Responder
Rafael Lima 14 de abril de 2018 - 13:51

Concordo plenamente. O Nonsense não pode ser desculpa pra uma estrutura narrativa frouxa. Prova disso é que os dois primeiros volumes de “O Guia…” (o primeiro em especial) são histórias muito bem estruturadas, e contém todas as loucuras deliciosas do Adams.

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 14:45

Eis o ponto. O primeiro funciona muito, muito bem.

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 14:45

Eis o ponto. O primeiro funciona muito, muito bem.

Responder
Rafael Lima 13 de abril de 2018 - 23:51

Concordo com muito dos pontos que incomodaram você neste livro. Eu gosto muito dos dois primeiros livros, mas esse aqui parece um pouco desarticulado narrativamente falando. Muitos simplesmente atribuem isso ao estilo “nonsense” do autor, que segue hilário, mas que pra mim tornou-se difícil de acompanhar, tornando o “nonsense” algumas vezes uma muleta ao invés de uma ferramenta precisa.
Não tive essa impressão nos dois primeiros volumes, que acho excelentes, e articulam bem melhor os aspectos filosóficos com humor absurdo da série. Aqui, essa articulação já não teve a mesma eficiência

PS: Tem erro de digitação ai. Todo mundo sabe que “City of Death” é a OP do Adams em Doctor Who (Hehehehe)

Responder
Edson Aguiar 13 de abril de 2018 - 19:08

O Guia do Mochileiro da Galáxias é minha série de livros favorita. Daria cinco estrelas pelo humor inglês e consequentemente pelas gargalhadas que arrancou de mim.

Responder
Luiz Santiago 13 de abril de 2018 - 19:27

Daria 5 estrelas para TODOS os livros?

Responder
Felipe Ferreira Cardoso 14 de abril de 2018 - 16:38

eu gostei bastante também!

Minha experiencia com sci fi não é vasta… mas acho mais interessante o estilo demonstrado na série do Guia do que em outras séries clássicas de sci fi, como A Fundação de Asimov, e a série de Neuromancer (count zero achei melhor que o Neuro, mas Monalisa Overdrive ainda não consegui terminar… empaquei)

Responder
Felipe Ferreira Cardoso 14 de abril de 2018 - 16:38

eu gostei bastante também!

Minha experiencia com sci fi não é vasta… mas acho mais interessante o estilo demonstrado na série do Guia do que em outras séries clássicas de sci fi, como A Fundação de Asimov, e a série de Neuromancer (count zero achei melhor que o Neuro, mas Monalisa Overdrive ainda não consegui terminar… empaquei)

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 23:11

Os gostos como leitor vai mesmo interferir nessa parte, não tem jeito.

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 23:11

Os gostos como leitor vai mesmo interferir nessa parte, não tem jeito.

Responder
Edson Aguiar 13 de abril de 2018 - 19:08

O Guia do Mochileiro da Galáxias é minha série de livros favorita. Daria cinco estrelas pelo humor inglês e consequentemente pelas gargalhadas que arrancou de mim.

Responder
MDN PLAYERS 13 de abril de 2018 - 12:35

Quem traduziu?
O Irineu.
Você não sabe nem eu?
Não cara, é só o Irineu.
Em minha humilde opinião os 6 livros da trilogia de 5 livros são perfeitos.
Fato engraçado é que minha série favorita é Doctor Who, e minha saga de livros favorita é O Guia do Mochileiro das Galáxias, imagina a minha alegria na época que assisti The Pirate Planet ver quem tinha escrito.

Responder
Luiz Santiago 13 de abril de 2018 - 13:45

Eu não consegui ver perfeição literária em nenhum dos 3 livros da série que li até até agora, mas esta é a beleza das opiniões diferentes.

Doctor Who também é a minha série favorita e fiquei igualmente animado quando cheguei na fase do 4º Doutor em que o Douglas Adams esteve envolvido. The Pirate Planet é uma das melhores coisas da clássica.

Responder
MDN PLAYERS 13 de abril de 2018 - 12:35

Quem traduziu?
O Irineu.
Você não sabe nem eu?
Não cara, é só o Irineu.
Em minha humilde opinião os 6 livros da trilogia de 5 livros são perfeitos.
Fato engraçado é que minha série favorita é Doctor Who, e minha saga de livros favorita é O Guia do Mochileiro das Galáxias, imagina a minha alegria na época que assisti The Pirate Planet ver quem tinha escrito.

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