Crítica | A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams

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Volume 3 da Série “O Mochileiro das Galáxias”

Um dos principais atrativos da série O Mochileiro das Galáxias é a forma como Douglas Adams cria “pontos de retorno” para que sua narrativa, após dar uma longa volta, consiga ter um lugar seguro para ancorar, obviamente, no final do livro. É claro que isso tem pontos negativos atrelados (algo marcante na série desde O Restaurante no Fim do Universo), mas por enquanto vamos focar na parte onde essa dinâmica é interessante e como funciona — dentro da loucura que já sabemos que vamos encontrar nos livros do autor. No presente caso, isso começa com Arthur Dent, na Pré-História, sendo salvo por seu amigo Ford Prefect.

O enredo de A Vida, o Universo e Tudo Mais não foi concebido, inicialmente, para um livro, o que explica muita coisa a respeito de sua estrutura narrativa absurdamente picotada, um dos pontos incômodos da obra. Em 1978, Adams se envolveu com a produção da série Doctor Who, ocupando o cargo de editor de roteiros por 6 meses e escrevendo uma porção de textos que acabaram tendo resultados bem diferentes diante da produção. Dessas, três merecem destaque: The Pirate Planet (para mim, segundo melhor arco de toda a era do 4º Doutor, como vocês podem ver neste ranking), Shada (apenas parcialmente filmado, um dos “arcos malditos” da série) e Doctor Who and the Krikkitmen, que depois de ser rejeitada pelo então editor Robert Holmes, foi guardada pelo autor até se tornar o livro A Vida, o Universo e Tudo Mais.

Neste volume, o leitor já conhece o estilo de escrita de Adams, então é fácil entender algumas escolhas, mesmo que, em termos de construção de uma grande narrativa, acabem não sendo as melhores. No início, porém, tudo corre bem. Arthur segue com o azar em alta, às vezes afetado por uma “sorte” que o leva a situações ainda piores. O salvamento de sua jornada na Pré-História é um grande exemplo. Passamos da solidão e dos problemas de comunicação iniciais (é muito interessante ver esses temas trabalhados dentro de uma comédia com ingredientes tecnológicos) para uma partida de críquete em Londres, cronologicamente, alguns dias antes dos Vogons demolirem o planeta, como visto em O Guia do Mochileiro das Galáxias. A exploração dos personagens nesse novo cenário pode dar alguns tropeços, quando a materialização acontece, mas não é nada grave. O texto segue divertido e nos coloca algumas boas preocupações quando os robôs brancos de Krikkit começam a destruir tudo.

A entrada de Slartbartifast, os meandros do POP (Problema de Outra Pessoa) e a discussão de racismo a partir da sangrenta guerra, das chaves do portal e dos habitantes xenófobos e racistas de Krikkit são as últimas coisas que gerarão bons pontos de discussão no livro, porque cada um desses elementos carregam algo que será bem utilizado na narrativa. Mas ao mesmo tempo que essa viagem começa nos fazendo pensar, ela vai paulatinamente nos afastando da linha principal, nos confundindo, nos colocando em um labirinto de ações que parecem atos isolados com funcionamento bastante questionável no todo, o pior sinal da herança da época em que o texto fora um roteiro. É claro que muitos desses momentos paralelos possuem ambientações curiosas e fortemente cinematográficas (Adams era mestre em criar excelentes imagens literárias e dar uma boa atmosfera para um cenário). A relação de Marvim com o Colchão Zem, nos Pântanos de Squornshellous Zeta, é a prova disso. Todavia, a constante interrupção de narrativas para a criação de outro bloco de acontecimentos — e isso sem uma passagem orgânica de um ponto para o outro — vai tornando o livro mais truncado e, infelizmente, cortando muito da diversão que poderia ter.

As amizades incomuns, os mistérios do Universo e uma curiosa saga individual com críticas a pensamentos segregacionistas são os pontos centrais deste terceiro livro da série do Mochileiro. O leitor ri e se encontra com alguns dos maiores absurdos imagináveis de uma literatura de ficção científica + fantasia + comédia britânica (importante destacar isso). Entretanto, diferente da fluidez de nonsenses que encontramos, por exemplo, no primeiro livro da série, temos aqui muitos momentos onde personagens novos, situações de perigo, situações constrangedoras e divagações sobre o que o título do livro promete atrapalham mais do que ajudam, tirando um bocado da diversão. No todo, é uma boa experiência. Mas o percurso para se chegar ao final não é tão suave quanto esperávamos de uma obra de Douglas Adams.

A Vida, o Universo e Tudo Mais (Life, the Universe and Everything) — Reino Unido, agosto de 1982
Editora original: Pan Books (Reino Unido)
Editora no Brasil: Editora Arqueiro
Autor: Douglas Adams
Tradução: Carlos Irineu da Costa
160 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.