Crítica | A Vingança de Godzilla (1969)

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#fuitapeado é a primeira coisa que o espectador consegue pensar logo nos primeiros minutos deste A Vingança de Godzilla, o mais não-Godzilla dos filmes de Godzilla até aquele momento da Era Showa. Dirigido por Ishirô Honda e escrito por Shin’ichi Sekizawa, o longa foge de quase tudo o que a gente espera de uma obra do lagartão, porque foi concebido pela Toho como um filme destinado ao público infantil e que estreasse nos cinemas na temporada de Natal. Com efeito, a fita chegou às salas japonesas em 20 de dezembro de 1969 e surpreendentemente teve uma bilheteria muito maior do que o seu antecessor, o icônico Despertar dos Monstros.

No enredo, encontramos Ichiro (Tomonori Yazaki) um menino que passa boa parte dos dias sozinho ou acompanhado pelo vizinho Shinpei (Hideyo Amamoto) um criador de brinquedos. Com a frequente ausência do pai e da mãe, que precisam trabalhar bastante para garantir o sustento do filho, Ichiro não tem com quem dividir constantemente os problemas de bullying que sofre na escola. É neste ponto que entram as brincadeiras e a imaginação de uma criança no roteiro, servindo perfeitamente à proposta do filme, mas fazendo com que a obra pareça completamente estranha a qualquer um que acompanhe a saga dos grandes monstros, tendo em seu desfavor o fato de ser um longa bastante preguiçoso.

Exceto pelas cenas de luta com Gabara (que comete bullying contra Minilla — e aí vocês já conseguem imaginar a intenção da Toho ao fazer um filme infantil, natalino e kaiju, não?) e também as cenas em que Godzilla ensina Minilla a emitir o sopro atômico, todos os outros embates monstruosos são repetições de cenas de outros filmes, uma prática infelizmente não rara em obras kaiju desta era. Tendo isso em vista, fica difícil acompanhar o filme sem ter a estranha impressão de já ter visto todas aquelas lutas antes e, a bem da verdade, essa é a única parte verdadeiramente boa da película. Por mais que se entenda a proposta do estúdio aqui, o núcleo humano não avança muito bem e a forma como roteiro e direção fazem constantemente a ligação do menino com Minilla, na Monster Island, satura-se rapidamente.

Os problemas continuam com o fato de o pequeno zilla falar e não haver um mínimo de elementos narrativos que mantenham certa identidade para o Universo de Godzilla (e antes que me crucifiquem, não, o desfile de monstros não concede isso aqui, porque são um completo filler), desmentindo absolutamente tudo o que foi levantado no filme anterior. Tudo bem, a gente sabe que não havia uma real preocupação disso nesta época, mas as mudanças pelo menos eram feitas para criar uma nova variação de Universo, o que não ocorre neste A Vingança de Godzilla, onde também não temos sequer uma história de vingança e onde Godzilla tampouco é o protagonista, algo que mina a temática pouco a pouco. Não sendo forte o bastante no núcleo humano e sendo progressivamente irritante na relação do garoto com o filho do lagarto atômico, nos restam aqui alguns poucos momentos cômicos de perseguição dos bandidos ao menino e a pequena diversão vinda pela luta contra Gabara.

Consta que Ishirô Honda até tentou dar um final triste para a história, para tirar tudo um pouco mais da atmosfera fantasia, mas o estúdio insistiu em um encerramento feliz. Eu conheço algumas pessoas que simplesmente detestam o filme e outras que o adoram pelo que ele é, um tipo kaiju de Esqueceram de Mim, por assim dizer. Levando em conta a proposta do filme, seria injusto dizer que o texto e a direção não cumprem pelo menos metade do que deveriam. Gostar ou não da proposta é uma coisa, mas inutilizar o filme porque ele faz parte do que se propõe a fazer é produto de mente sandia. Por outro lado, como já levantei antes, o longa é preguiçoso e acaba tendo uma cadência bem chata no decorrer do tempo, ficando, pelo menos para mim, bem no meio do caminho, com todo um espírito de estranheza e imensa decepção de ter sido tapeado pela Toho.

A Vingança de Godzilla (Gojira-Minira-Gabara: Oru kaijû daishingeki) — Japão, 1969
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Shin’ichi Sekizawa
Elenco: Tomonori Yazaki, Hideyo Amamoto, Sachio Sakai, Kazuo Suzuki, Kenji Sahara, Machiko Naka, Shigeki Ishida, Midori Uchiyama, Yoshifumi Tajima, Chôtarô Tôgin, Yutaka Sada, Yutaka Nakayama, Ikio Sawamura, Haruo Nakajima, ‘Little Man’ Machan, Yoshifumi Tajima, Chôtarô Tôgin, Yutaka Sada, Osman Yusuf, Michiko Hirai, Haruo Nakajima
Duração: 69 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.