Crítica | Batman: A Vingança do Coringa (Batman: Vol. 1 #251 – 1973)

Sem o jogo que Batman e eu jogamos por tantos anos, a vitória não é nada.
– Coringa

Denny O’Neal começou nos quadrinhos na Marvel Comics em 1966, pela primeira vez fazendo parceria com Neal Adams por lá. Migrando para a finada Charlton Comics já no ano seguinte, ele conheceu Dick Giordano que, por sua vez, em 1968, foi para a DC Comics na qualidade de editor, levando diversos criadores da Charlton com ele, incluindo O’Neil. E foi lá que o escritor, depois de algumas decisões que não ressonaram bem (como retirar os poderes da Mulher-Maravilha) revolucionou os quadrinhos da editora, primeiro basicamente recriando o Arqueiro Verde, depois pareando-o ao Lanterna Verde na celebrada publicação dos dois heróis esmeralda fazendo dupla e, finalmente, retrabalhando o Batman no início do que seria a completa transformação do Homem-Morcego em um incansável esforço de distanciá-lo do tom camp da extremamente famosa série sessentista do herói com Adam West e Burt Ward.

Parte importante desse processo de trazer Batman para suas raízes detetivescas e, principalmente, para imprimir um tom sério – obsessivo mesmo – ao personagem, foi a revitalização de seu principal arqui-inimigo, o então apenas histriônico, colorido e extravagante Coringa. O começo dessa jornada em particular deu-se na icônica história The Joker’s Five-Way Revenge, publicada em Batman #251, de setembro de 1973 ganhando, por aqui, o título A Vingança do Coringa. Na história, o vilão é reapresentado como recém-fugido do sanatório e com  desejo de vingar-se de seus cinco ex-capangas por considerar que pelo menos um deles o traiu.

Sem retirar suas características físicas mais importantes, a aparentemente simples narrativa de vingança dá os contornos que tornar-se-iam os mais clássicos do vilão: sua mais absoluta psicopatia, com ele refestelando-se por seus assassinatos como se fossem meras brincadeiras, e, principalmente, sua conexão umbilical com o Batman, praticamente justificando sua própria existência a partir do antagonismo estabelecido. Hoje lugar-comum para o vilão, esses elementos ganharam proeminência de verdade a partir desse one-shot que já começa com um close no rosto do Palhaço do Crime ladeado por sua risada maníaca e assustadora, em uma abordagem realmente horripilante da insanidade que nubla a barreira do certo e do errado, do sério e do cômico, desnorteando e enganando o leitor (no melhor dos sentidos). Em outras palavras, essa edição da revista solo do Cruzado Encapuçado, ao redefinir o Coringa, ajudou a sedimentar de vez a própria abordagem mais séria que Batman passaria a ter e que seria amplificada em meados dos anos 80 com O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

(1) A clássica capa de Dick Giordano e (2) um dos momentos definidores da personalidade reformulada do Coringa por O’Neil e Adams.

Do jeito que escrevo, posso estar dando a impressão que A Vingança do Coringa é só violência, sangue e mortes, com um Batman cabisbaixo e pesaroso, mas isso não é verdade, pelo menos não nesse momento de seu desenvolvimento narrativo. Os exageros típicos do Coringa permanecem intactos, especialmente no clímax à la James Bond, com direito a Batman lutando contra tubarão (e matando o bicho!) e improváveis confrontamentos que “rebaixam”, por assim, dizer, as habilidades físicas do herói. Além disso, os diálogos, especialmente os do Homem Morcego, são ainda bastante pueris, sem intensidade, algo que fica particularmente claro na comparação com os textos dedicados ao Coringa, muito mais perturbadores e densos. E essa forma de escrever esse universo continuaria ainda não só pelo próprio O’Neil, com também por diversos outros autores, mas o fato permanece que o comando do roteirista sobre a “carreira” do personagem foi o embrião – e mais do que isso! – para a mudança de percepção dele pelo público.

Não sei se eu devo falar da arte de Neal Adams, porém… Mas calma, pois é por uma boa razão, já que não me sinto capaz de achar adjetivos elogiosos suficientes para o que ele faz. Tenho para mim que ele é O GRANDE artista do Batman e, mais ainda, um dos desenhistas que mais encarna a própria Nona Arte no gênero de super-heróis. Seus traços são absolutamente marcantes e inesquecíveis, daqueles que dá vontade de observar por horas, detalhadamente, voltando as páginas, expandido se for em versão digital e assim por diante. Seu comando da narrativa visual é único, pois ele jamais exagera em invencionices e quase nunca se perde mesmo quando há muito texto par ser inserido. Ele sabe como ninguém trabalhar o jogo de luz para dar imponência e gravidade ao Batman, mas mantendo sua leveza e qualidades acrobáticas (a musculatura que Adams desenha é fenomenal, ao mesmo tempo realista e super-heróica, mas nunca abrutalhada), com uma “capa viva” que muito provavelmente inspirou a mesma característica no Spawn, de Todd McFarlane. Em contrapartida, ao lidar com o Coringa, Adams emprega a leveza quase caricata que o vilão exige, com um corpo esguio e magrelo epitomado pelo desconcertantemente genial rosto de queixo comprido, sorriso diabólico e olhos penetrantes que são, na falta de expressão melhor, a essência do mal. Em determinado momento, por exemplo, o Coringa diz que ele e o tubarão muito se parecem e o quadro, no final da página, estabelece a comparação lado-a-lado e o leitor consegue entender exatamente a dimensão do que isso significa.

A Vingança do Coringa é uma HQ do mais alto gabarito que mostra a força transformadora da dupla O’Neil/Adams trabalhando o Batman e o Coringa. Uma história enganosamente simples que mudaria o cenário da relação entre os dois personagens para sempre e que abriria espaço para as maiores obras-primas dos quadrinhos mainstream.

A Vingança do Coringa (The Joker’s Five-Way Revenge, EUA – 1973)
Contido em: Batman: Vol. 1 #251
Roteiro: Denny O’Neil
Arte: Neal Adams
Cores: Tom Ziuko
Capa: Dick Giordano
Editoria: Julius Schwartz
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: setembro de 1973 (capa)
Editora no Brasil: Editora Abril (Batman – 1ª Série #1)
Data de publicação no Brasil: 11 de julho de 1984
Páginas: 23

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.