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Crítica | A Vingança dos 47 Ronins

por Luiz Santiago
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Embora hoje seja muito comum assistir A Vingança dos 47 Ronins como um único filme, ele foi originalmente lançado em duas partes, a primeira estreando em 1º de dezembro de 1941 e a segunda estreando em 11 de fevereiro de 1942. Porém, diferente do colossal Guerra e Paz de Bondarchuk, a discussão desse tradicional conto japonês adaptado para o cinema por Kenji Mizoguchi só faz mesmo sentido se analisado por completo. Falemos primeiro do contexto em que o longa foi produzido. Nos anos 1940, o Japão estava em constante atividade bélica pelo Pacífico e em território chinês. Como em qualquer nação envolvida na 2ª Guerra Mundial, muita coisa do cinema nacional orientava-se para criar propaganda (até Kurosawa foi obrigado a isso, em seu único filme ruim: A Mais Bela) e não foi diferente com essa história dos 47 Ronins.

A pedido do estúdio, o diretor Kenji Mizoguchi realizou uma série de escolhas estéticas que não combinavam com o seu planejamento para a obra (os closes nos rostos atores e as questões moralizantes, na segunda parte da fita são bons exemplos), chegando até a estendê-la um pouco mais para expor cenas familiares e de grupos de samurais que bravamente mostravam o seu valor em campo e podiam entregar a vida para defender a honra de seu Senhor, ao mesmo tempo que obedeciam as leis impostas pelo Shogunato. Apropriando-se de elementos que realmente fazem parte da história original, o filme termina por levar o pensamento do espectador para um estágio onde os homens de Asano insistem em uma causa apenas simbólica e nada prática, mas isso não importa. O que importa é eles garantirem a honra, executarem a sua vingança e, ao fim de tudo, entregarem-se honradamente à morte.

Nesta adaptação, temos um olhar que chama a atenção para o cotidiano dos samurais, para os sentimentos das famílias e para o funcionamento da política do Shogunato no período retratado (início do século XVIII). Diferente de versões como A Queda do Castelo Ako (1978) e Os 47 Ronins, de Kon Ichikawa (1994), a obra de Mizoguchi não está interessada em explorar conflitos diretos entre samurais e/ou ronins, embora tenhamos sim alguns poucos embates desse tipo. O que o diretor explora é o impacto pessoal que a condenação de Lorde Asano tem na vida de seus homens e de sua família, e como a intriga em torno de Lorde Kira parece ganhar outros significados e incitar o ódio e o desejo de vingança dos ronins inimigos. De certo modo, o filme dá a impressão de que Lorde Asano foi o grande errado da história, agindo de maneira impensada num lugar em que ele sabia que não poderia sacar a espada. Seu destino, portanto, foi fruto de sua ira descontrolada e de sua própria imprudência, não importasse o quanto Lorde Kira o tivesse provocado e humilhado.

Muito se fala do formalismo exagerado de Mizoguchi nesse filme, além dos maneirismos do elenco, que claramente evocam uma aproximação com o teatro tradicional japonês. Mas o único exagero desse filme é a sua longa duração. Não há real necessidade para o filme se arrastar tanto, e se olharmos com atenção para o que o diretor no traz na segunda parte, é perfeitamente possível escolher blocos inteiros que podem ser retirados da fita sem prejuízo ao acompanhamento da obra. Isso se dá porque muitos diálogos e muitas situações são reações a eventos de dentro da corte, preparação para atitudes futuras e compartilhamento de ideias sobre o caso em discussão, ou seja, nada que realmente desenvolva os personagens ou seja grandiosamente necessário para o entendimento do enredo. Na primeira parte, essas cenas são raras. Já na segunda, elas tomam conta de quase tudo.

A beleza na composição dos planos, marca do cinema de Mizoguchi, se vê aqui no decorrer de toda a fita, mas de certa maneira, a falta de variedade nas locações e a longa duração do filme tornaram esse lado visual menos impactante à medida que a trama avança, porque nos parece acompanhar uma repetição de planos em cenários muito parecidos. Levando em conta que o diretor não mostra o grande e esperado evento (a luta dos ronins contra os homens de Lorde Kira), estamos diante de uma obra lenta que não compensa o espectador com um clímax, mas com um simples comunicado de que a morte de Kira acontecera, seguindo-se o embarque do filme na esteira moral e propagandista, sequestrando os já conhecidos elementos da cultura japonesa a favor de um clamor para a luta na Grande Guerra.

A Vingança dos 47 Ronins é um filme visualmente chamativo, com uma história popular e capaz de enervar a qualquer um, por mostrar a vitória de um vilão num sistema social e político corrompido; mas com um encadeamento que lhe tira muito da identidade e da qualidade. É um grande projeto de Mizoguchi, minado pelas escolhas forçadas em seu momento histórico e por uma duração que não se sustenta bem. Está entre os filmes japoneses que precisam ser vistos, mas conhecendo quem o dirigiu e o que ele poderia ter sido se não fossem as influências externas, é difícil não chegar ao fim da sessão com uma alguma dose de frustração, mesmo estando diante de uma ótima obra.

A Vingança dos 47 Ronins (Genroku Chûshingura) — Japão, 1941
Direção: Kenji Mizoguchi
Roteiro: Kenichiro Hara, Yoshikata Yoda (baseado na peça de Seika Mayama)
Elenco: Chôjûrô Kawarasaki, Kan’emon Nakamura, Kunitarô Kawarazaki, Yoshizaburo Arashi, Chôemon Bandô, Sukezô Sukedakaya, Kikunojo Segawa, Shotaro Ichikawa, Enji Ichikawa, Kikunosuke Ichikawa, Shinzô Yamazaki, Senshô Ichikawa, Shoji Ichikawa, Iwagoro Ichikawa, Shinzaburo Ichikawa, Harunosuke Bandô, Kimisaburô Nakamura, Minoru Bando, Ginjirô Bandô, Isamu Kosugi, Masao Shimizu, Daisuke Katô, Seizaburô Kawazu, Mieko Takamine
Duração: 240 minutos

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