Crítica | A Vingança Perfeita (2018)

“Perdoe-me, Pai, porque pequei.”

A carga estética de uma obra, ainda mais uma imensamente carregada de maneirismos, não necessariamente a sustentará completamente, justificando uma existência que, na realidade, é consideravelmente rasa e despropositada. A Vingança Perfeita compreende o longa-metragem que quer ser com as composições visuais que cria – o vermelho como presença recorrente e marcante -, porém, sofre de uma profunda ausência de conteúdo, sublinhando-se por uma dualidade relativamente óbvia e pouco chamativa, além de uma condução que, enfim, acumula diversas pontuações narrativas – se alguma se sobressai, é posteriormente sabotada pela coesão inexistente na obra. Um professor em estado terminal é atendido por uma garçonete, enquanto, cronologicamente separado, dois criminosos rastreiam o seu próximo alvo, deparando-se com a mesma mulher, a protagonista interpretada por Margot Robbie, em seu caminho. A espera por uma união entre essas duas tramas é frustrante, sem o menor controle rítmico por parte do autor.

Uma identidade própria – diante dos maneirismos – é percebida, contudo, narrativamente, o longa-metragem é um genérico suspense neo-noir. O cineasta Vaughn Stein, assinando tanto a direção quanto o roteiro, investe uma criação interessante de mundo no seu projeto, quase particular pelo gigantesco controle que possui nas mãos, mostrando um domínio em certas escolhas criativas que principiam algum sentido de imersão diante de determinadas características da obra que comanda. A marginalidade sob as luzes de neon. Os ambientes repetidos. Os figurinos cinquentistas. Uma ideia de universo próprio, confinado em seu exótico enredo, sem ultrapassá-lo, é percebida, ao passo que os cenários, quando reiterados diversas vezes, incitam um mapeamento claustrofóbico das soluções cinematográficas – a última cena, no entanto, adentra território inédito. Quando quer construir personagens, desconstruir objetivos e reconstruir sua narrativa, buscando as famigeradas revelações – os arcos são apenas aparentes no fim  -, Stein não possui a mesma competência.

Os criminosos interagem com a garçonete. O professor interage com a garçonete. A narrativa do filme intercala as questões presentes para resolver, em derradeira instância, não ser mais sobre nenhum desses contextos, meros pretextos para uma terceira vertente, quase auto-paródica, aberta com o último ato do filme – uma vingança perfeita. A questão é que a segunda pontuação, do professor, também recorre a essa temática da vingança, ou seja, quando mais uma questão sobre esse mesmo sentimento de repulsa pelo passado emerge, o espectador entende uma repetição temática, não um prosseguimento, muito menos o clímax de um mirabolante planejamento de ajustes de contas, que desconstruía gradualmente a garçonete e sua missão. A suposta curiosidade mórbida do espectador, frente a uma mulher misteriosa, nunca é verdadeiramente instigada, sendo que a revelação conclusiva não chama nenhuma atenção. Vaughn Stein parece desistir de seu filme e entrega todas as “brincadeiras” pela mera exposição.

A recriação estética neo-noir, com a iluminação saltando os olhos de um espectador frente a um cenário escuro, permite A Vingança Perfeita possuir um charme inerente, ainda mais com a apresentação do personagem de Simon Pegg, envolvido em um jogo suicida muito interessante. As conversações com e entre os criminosos, em contrapartida, não são textualmente inventivas, sem um apelo nos diálogos – um intérprete mostra-se insosso, enquanto o outro apenas desinteressante. Um ar cômico é relevante para esse sentimento de pertencimento, do espectador inserido nesse universo, entretanto, quando as pontas devem ser amarradas, a espirituosidade, agora transformada em uma natureza macabra, muito mais sádica do que confortável, não convence. A protagonista é o estopim de personagens rondando círculos, redundando-se – no mínimo, a obra é curta. Uma vingança ordinária, mas que acredita ser mais inteligente e complexa, senão um exemplar estiloso do gênero em que se encontra, do que verdadeiramente é.

A Vingança Perfeita (Terminal) – EUA, 2018
Direção: Vaughn Stein
Roteiro: Vaughn Stein
Elenco: Margot Robbie, Simon Pegg, Mike Myers, Dexter Fletcher, Max Irons, Katarina Čas, Nick Moran, Jourdan Dunn, Matthew Lewis
Duração: 90 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.