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Crítica | A Virgem Desnudada por Seus Celibatários

por Gabriel Zupiroli
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Duas narrativas que partem do mesmo ponto e se diversificam. Ou, talvez seja melhor dizer, uma narrativa que se fragmenta em duas possibilidades distintas. É com este artifício, aprimorado posteriormente em Certo agora, errado antes, que Hong Sang-soo monta seu terceiro longa-metragem, A Virgem Desnudada por seus Celibatários. A história da relação entre uma escritora, Soo-jung, e dois homens que se envolvem com ela em um movimento de aproximação e distanciamento. Por que a dupla narratividade? Há um sentido? Talvez o ideal seja, na verdade, não buscar um sentido, e sim se deixar levar por um filme que, em si, contém dois: duas visões para evidenciar, quase de maneira teleológica, o fracasso e a decadência nas relações humanas.

Sang-soo não é um cineasta que procura transmitir mensagens muito positivas. Muito menos um artista sádico e pessimista. Pelo contrário, seu maior feito reside em lapidar ao longo dos anos uma mise-en-scène particular em função de explorar, de maneira agridoce, as dinâmicas das relações contemporâneas entre os sujeitos. Há sempre culpa, expiação e desejo, além de álcool e cigarros. Em A Virgem Desnudada por seus Celibatários, um Sang-soo ainda em processo de maturação como diretor desnuda a falência da interação entre três personagens permeada por uma câmera mais comportada e pelo sexo.

Utilizando da já citada dualidade narrativa – que consiste em contar praticamente “a mesma história” duas vezes e com consequências e detalhes diferentes -, o que interessa a Sang-soo aqui é muito menos um olhar interessado sobre as dinâmicas das relações através da progressão narrativa. Pelo contrário: em seu terceiro filme já são visíveis os mecanismos pelos quais o diretor procura deixar para o espectador a responsabilidade do julgamento. Seu interesse reside sobretudo na lapidação daquelas interações e como esta se dá através da própria construção interior do quadro. 

No futuro, o coreano viria a desenvolver uma prática muito mais intimista e amadurecida, aderindo ao zoom para criar a potência que transborda o próprio plano. Aqui, entretanto, o olhar contido e limitado pelo quadro é o que conduz, com rigor, o desenrolar da trama, resgatando uma teatralidade que referencia facilmente outros grandes cineastas anteriores. Porém é justamente este âmbito interno do plano que traz algumas limitações à produção. Estando contido à representação dada, aderindo ao aspecto teatral e o utilizando como elemento único de formulação, Sang-soo enfraquece a ligação entre o filmado e o que busca se representar. Estuda, talvez como solução, movimentar mais o dispositivo e, por isso mesmo, faz a encenação soar como se estivesse indecisa sobre o que capturar. Perde-se a potência através precisamente da limitação e temos um ótimo exemplo de um realizador ainda em desenvolvimento. Este movimento é, na verdade, muito compreensível, tendo em vista que, à época, trabalhava ainda com roteiros prontos – diferente da escrita diária logo anterior à filmagem que viria a adotar nos próximos filmes.

Mas esta forma não tem apenas consequências negativas. Há uma dimensão muito curiosa do incômodo que habita a obra em um movimento duplo: presente na narrativa e na elaboração formal. O sexo surge de maneira completamente desarticulada de qualquer envolvimento emocional, fazendo com que a relação potencialmente amorosa se esvazie em função de ramificações segundas, o que gera um incômodo gigantesco no espectador, apoiado sobretudo na maneira como enquadra. A interação que temos com os sujeitos em tela adquire cada vez mais tons absurdos e repulsivos, que contribuem para a decadência filmada. O desejo surge unicamente condicionado como elemento de destruição ao invés de criação. Eis um efeito genuinamente construído.

A Virgem Desnudada por seus Celibatários é uma ótima representação de um cinema em construção. Funcionando quase como um protótipo de filmes futuros, surge na obra de Hong Sang-soo como um palco de tentativas em busca de uma forma própria de trabalhar a linguagem. Ainda que possua limitações justamente por seu caráter juvenil, não deixa de já conter, em seu interior, as marcas de um cinema que apenas aguardou o tempo para se consolidar.

A Virgem Desnudada por seus Celibatários (Oh! Soo-jung) – Coreia do Sul, 2000
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Jeong Bo-seok, Lee Eun-ju, Moon Sung-keun
Duração: 126 min.

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