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Crítica | A Visita

por Rafael W. Oliveira
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Antes de ser um cineasta inteligente, Shyamalan é um cineasta de não-desistências. Desde que deixou de atender as expectativas dos que lhe taxavam de “novo Hitchcock” (uma desilusão que teve início com Corpo Fechado e só se agravou desde então), era notável a insistência do diretor em enveredar por caminhos cada vez mais amplos para si e suas ideias, mas constantemente renegadas pelo público que torcia o olho para cada nova abordagem onde Shyamalan servia seus toques autorais. Com A Dama na Água, fantasia onde ele resolveu bater de frente com quem lhe atacava, Shy comprou a briga e foi vítima das piores investidas do público e crítica, colecionando fracassos e sendo levados para projetos comerciais, mas apenas para fracassar novamente.

Diante dessa decaída constante (algo que nunca foi por completa culpa do próprio), só restou a Shyamalan recorrer ao que lhe marcou no início de carreira: projetos de baixo orçamento que lhe permitiriam maior controle sobre o material em mãos. E visando abraçar modernismos que também lhe trouxessem atenção ao seu nome, Shyamalan recorreu ao artifício cansado do found footage (ou o falso documentário) para dar vida a este A Visita e narrar a história dos irmãos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) que irão passar um tempo na casa dos avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie), o qual nunca conheceram devido a atritos do passado com a mãe dos meninos (Kathryn Hahn). Munida de sua câmera para fazer um documentário sobre a convivência com os avós, Becca começa a registrar atitudes estranhas dos idosos e percebe que eles podem não ser exatamente o que parecem.

O primeiro grande trunfo de Shyamalan aqui, ao transformar sua protagonista em uma cinéfila voraz e desejosa de dizer o melhor possível com suas imagens (um alter-ego do diretor, talvez), é a potência dramática que o artifício da câmera na mão concede a experiência. Justificada por este fato (e notem como o diretor por vezes captura os diálogos entre os irmãos sem necessariamente um deles estar empunhando a câmera, quase um filme dentro do filme), o artifício banalizado pelo gênero do horror como uma mera forma de potencializar seus jump scares vira na mão de Shyamalan um instrumento de ironia e experimentação com o alcance dramático da filmagem. Nisso, Shyamalan transforma a câmera em sua principal personagem, muito interessado no que se esconde no extra-campo ou na estabilidade da imagem, que ao desafiar seus atores (especialmente as crianças, reparem no momento da confissão de Becca), consegue significar muito mais do a correria desenfreada ao qual o found footage era submetido ao gênero (e exemplos não faltam, desde O Último Exorcismo até “estranhices” como [REC], Quarentena ou o recente Bruxa de Blair). Desde Atividade Paranormal que o recurso não era tão bem servido ao público.

Inusitada, mas também muito bem-vinda, é a forma com que Shyamalan faz uso do humor escrachado que, numa espécie de potencialização do que vimos lá em Fim dos Tempos, se torna uma opção que faz da experiência algo ainda mais bizarro e delicioso de se acompanhar. Pois sim, antes de estar lá apenas para gerar risadas (nem todas as tentativas são felizes, precisamos admitir), o humor ressalta a estranheza da convivência dos irmãos com seus avós, e até onde despreocupação com a caricatura farsesca de suas personas pode estar escondendo algo sobre suas personalidades. E aqui é o momento de ressaltar o grande trabalho da dupla que dá vida aos idosos, em especial Deanna Dunagan, que faz da avó uma figura realmente a ser temida, ao ponto de ebulição de sua loucura. Lembra em muito a sinistra Sra. Jones de Betty Buckley no já mencionado Fim dos Tempos.

E tão notável quanto qualquer uma dessas formas com a qual Shyamalan constrói seu filme, é o seu poder de sugestão sobre o que há por detrás de cada porta, janela, escadas, e mais ainda, sobre a crença/descrença do que pode ser sobrenatural ou não. E é com isso que Shyamalan dá seu principal toque autoral, novamente levantando o poder da crença x dúvida dentro de um contexto familiar conturbado. E assim A Visita foge exponencialmente do formato feito para agradar as grandes massas, oferecendo muito mais uma profundidade psicológica sobre suas sensações e personagens (há composições de cenas belíssimas e extremamente significativas ao filme, como o confronto final de Becca diante de um espelho) do que meros sustos gratuitos (e reparem novamente como o diretor brinca com essa expectativa na cena da vó andando pela casa).

A Visita foi um retorno extremamente feliz de Shyamalan aos holofotes e à sua liberdade em conduzir uma história com seus próprios toques fabulosos. Tendo custado misérias e se pagado nas bilheterias em grandes números, é a prova de que o indiano ainda pode fazer a felicidade do público sem recorrer aos clichês já tão saturados gênero afora.

E que venha Fragmentado!

A Visita (The Visit) — EUA, 2015
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn, Samuel Stricklen, Jorge Cordova.
Duração: 93 minutos.

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19 comentários

Diego/SM 18 de dezembro de 2017 - 12:29

Pô, hehe, filmezinho legal mesmo, véi!!… confesso que me surpreendi (me lembrou um pouco também o “Corra”…)… bem “redondinho” – e, se não tem uma graaande reviravolta a la O Sexto Sentido (com o qual todos os filmes do cara serão eterna e inevitavelmente comparados), achei que se saiu muito dignamente naquela preparada neste!…
E, em termos de atuação, não sei quem dá mais show: se o casal de crianças (o guri é carismático; muito engraçado mesmo, rs – e, dando uma “viajada” aqui, estava pensando, se decidirem fazer mais uns Star Wars “intermediários”, tipo entre A Vingança dos Sith e Rogue One – e aposto que um dia os caras vão tentar algo assim, hehe -, fisicamente ele se encaixaria perfeitamente num Luke guri, né não?… fica a dica, Disney : ) ou o de idosos (entre outras cenas que dei muita risada, a vovó saindo de quatro debaixo da casa aquela hora e em seguida dizendo, como se não fosse nada, “vou fazer um bolo de cenoura!” – ou algo assim – e saindo caminhando de bunda de fora, enquanto as crianças ficam “whatta fuck?…” é impagável!…)
Ah, e tem uma das cenas mais nojentas da história do cinema tb, ôôôrraaaa (que eu preferia levar um jato de abacate da menina do Exorcista do que aquilo)! rssssss…
Enfim, é um daqueles filmes que você tem que assistir despretensiosamente, é verdade, sem muita expectativa, mas, pra mim, que não esperava lá muito, apesar de já ter lido alguma crítica boa, valeu mesmo (Fragmentado também é um bom filme, mas curti – e me surpreendi – mais neste – acho que virou mesmo – embora isso também não seja lá muito difícil, rs – o meu Shyamalan número 2… hehe).

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Rafael Oliveira 20 de dezembro de 2017 - 02:38

Acho que o filme vai um pouco além da despretensiosidade, Diego, mas se visto dessa forma sim, é um entretenimento que mescla horror e comédia bizarra dos mais fodas.

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Rafael Oliveira 20 de dezembro de 2017 - 02:38

Acho que o filme vai um pouco além da despretensiosidade, Diego, mas se visto dessa forma sim, é um entretenimento que mescla horror e comédia bizarra dos mais fodas.

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Bruno [FM] 19 de novembro de 2017 - 01:27

Steven Spielberg me fez ter medo de tubarões. Hitchcock de chuveiros. Já Shyamalan me fez ter medo de velhinhas.

Filmão! Pra mim, um dos melhores filme dele. Roteiro tri-emoticon (assusta, faz rir e até chorar). Fotografia relevante. Atuações cativantes (e assustadoras no caso da vovó). E uma reviravolta (já característica do Shyamalan) que me surpreendeu muuuuito!

Só achei desnecessário o uso do found-footage (mesmo tendo sido usado de forma coerente). Talvez a qualidade do filme pudesse ter sido mais desfrutada no formato convencional, ou com apenas algumas cenas específicas em documentário.

Mas fora isso, ótimo suspense!

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Diogo Maia 13 de novembro de 2017 - 00:02

Finalmente consegui assistir a esse Shyamalan por streaming, pois infelizmente perdi a oportunidade de conferi-lo no cinema na época do seu lançamento. Apesar do final mais previsível dos filmes dele, achei bem bacana, não apenas pelo bom clima de suspense criado, mas também pelas atuações. A ‘vó’ ficou realmente assustadora e o tom de comédia caiu muito bem. Provavelmente é o melhor do diretor desde A Vila.

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curiosa gospel 26 de março de 2017 - 01:24

achei super chato

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cristian 24 de março de 2017 - 12:30

Achei o filme bom, mais nada mais que isso, revisitar um gênero morto não ajuda por que sempre temos uma desculpa ridícula pra câmera estar sempre em primeira pessoa. Concordo que o garoto da vida ao filme o clima é bem interessante e a direção muito boa, mais achar mais que isso é querer ver demais. Se ele tivesse dirigido A Bruxa, que saiu na mesma temporada, ai sim eu diria que é um trabalho superior.

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Fernando 23 de março de 2017 - 10:30

Achei o filme forçado, pouco verossímil e de mau gosto. Os avós postiços são extremamente caricatos. Os jovens são artificiais e forçados. Vi até o fim para saber o final. Achei um filme pior do que a Vila, esse para mim um filme subestimado do Diretor.

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Pop.Renan 3 de dezembro de 2015 - 15:13

Dentro de sua filmografia, o Shyamalan se reinventou. Mas não foi dessa vez que aquela atmosfera densa de O Sexto Sentido e Sinais esteve presente. Mas, uau, que elenco! O menino é genial!
Porém, esse filme é menor dentre os grandes do M. Night. O que me preocupa é que parece que todo mundo (eu não me excluo) espera um novo Sexto Sentido quando ele não têm obrigação de fazer sempre a mesma linha de filme.

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Matheus Fragata 7 de dezembro de 2015 - 12:31

Renan, acho que Shyamalan não consegue voltar aos tempos de O Sexto Sentido, mas se ele continuar com bons filmes como A Visita, já fico muito contente. Abs

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JJL_ aranha superior 7 de julho de 2016 - 22:20

Eu gostaria de algo no estilo de corpo fechado, não exatamente igual, mas que seja ligado aos temas de hq’s e super-heróis.

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JJL_ aranha superior 7 de julho de 2016 - 22:20

Eu gostaria de algo no estilo de corpo fechado, não exatamente igual, mas que seja ligado aos temas de hq’s e super-heróis.

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Kevin Kempner 29 de novembro de 2015 - 22:52

Olha, fazia tempo que não via um filme de terror tão bom e um filme de comédia tão engraçado ao mesmo tempo.. Concordo que não chega a ser um suspense excepcional, mas é muito bom perto das porcarias recentes que tenho assistido. M. Night Shyamalan respira!

Ps.: adivinhei o final na metade do filme, mas não se é óbvio ou eu tava inspirado no dia.

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Matheus Fragata 30 de novembro de 2015 - 12:57

Colher de chá para nós e para o Shyamalan. Esse filme veio em boa hora.

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JJL_ aranha superior 7 de julho de 2016 - 22:23

Eu também não gosto de diminuir o filme caso eu adivinhe o final, de vez em quando eu nem tento adivinhar, sempre prefiro me surpreender.

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JJL_ aranha superior 7 de julho de 2016 - 22:23

Eu também não gosto de diminuir o filme caso eu adivinhe o final, de vez em quando eu nem tento adivinhar, sempre prefiro me surpreender.

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Roger Portela 28 de novembro de 2015 - 10:42

Por mais que Shyamalan só entregue bomba, eu ainda tenho esperanças de que ele dê a volta por cima (acho que é porque sou apaixonado por O Sexto Sentido, Corpo Fechado, A Vila), eu quero assistir esse, e quem sabe ele não tenha se tocado?

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Helder Zemo 27 de novembro de 2015 - 10:38

Bom dia, parabens pelo conteudo do site, a tempos que nao vejo algo com tantas criticas boas e coerentes igual aqui, criticas que analisam todos elementos da mise en scene, vcs sao muito bons !!! andei procurando criticas de Indiana Jones e reparei que não tem de nenhum filme, vcs pretendem fazer criticas sobre a quadrilogia Indiana Jones?

at.

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Matheus Fragata 30 de novembro de 2015 - 12:57

Muito provavelmente sim. Abs.

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