A Vizinha Perfeita, indicado na categoria de Melhor Documentário no Oscar, inicia-se com a utilização de uma excelente ambientação que, logo na cena inicial, estabelece um ponto de vista em primeira pessoa. Essa escolha, longe de ser um recurso puramente técnico, serve como alicerce para que a imersão se manifeste de forma absoluta. A montagem dinâmica, operada com precisão pela equipe de edição, é muito bem utilizada para oscilar entre a ambientação íntima dos personagens e a ambientação geográfica do bairro em Ocala, Flórida. O que se observa na tela é uma fidelidade extrema não apenas aos eventos cronológicos, mas à atmosfera de tensão que precede o fatídico 2 de junho de 2023.
A trilha sonora surge como um elemento fundamental nessa engrenagem do documentário, funcionando como uma inteligente intensificadora do suspense. Sob a perspectiva dos policiais – e, claro, da lente da câmera acoplada ao fardamento –, somos convidados a viver e participar da investigação em tempo real. É um filme que, em sua essência, subverte a lógica da vigilância. Como bem argumentado pela própria obra, se as imagens de câmeras corporais são historicamente utilizadas para vigiar comunidades de cor, A Vizinha Perfeita as utiliza para expor o ponto de vista dessa mesma comunidade, revelando o viés sistêmico que permeia a aplicação das leis de autodefesa, fato intensificado em um país como os Estados Unidos.
A estrutura narrativa organiza-se em torno de um emaranhado de registros pré-existentes que, isoladamente, poderiam parecer fragmentos burocráticos de um processo judicial ou um inquérito policial, os quais ganham sentido e poder pelo modo como o documentário nos conta essa história. No entanto, o produtor Nikon Kwantu, ao decidir documentar o caso motivado pela preocupação com o uso indevido da lei de Stand Your Ground, permitiu que o filme respirasse por meio de conceitos e metáforas sobre justiça e luto. O desempenho da narrativa, encabeçado pela presença constante da ausente Ajike Owens e pela figura perturbadora de Susan Louise Lorincz, tende a uma crueza visceral. Lorincz, em seus interrogatórios e chamadas para o 911, personifica uma hostilidade cotidiana que culmina no homicídio culposo retratado, e a direção de Gandbhir captura essas nuances com uma competência rara.
Em um determinado momento, é verdade, o documentário parece perder levemente o fio da meada ao utilizar imagens espaçadas enquanto os diálogos ocorrem, em uma tentativa de suprir a ausência de registros visuais específicos. Contudo, essa imperfeição pontual não desnatura a obra; pelo contrário, reforça o caráter humano e urgente de uma produção que nasceu para amenizar o luto de uma família. A relação da diretora com a vítima – melhor amiga de sua cunhada – confere ao filme uma camada de sinceridade emocional absoluta que o distancia dos documentários típicos de true crime. Aqui, a emoção que transborda não advém de um sentimentalismo barato, mas da constatação de que aquelas imagens policiais, muitas vezes frias, compõem um todo profundo de dor e resistência.
Ao abdicar de narradores oniscientes e focar na crueza das imagens do Gabinete do Xerife do Condado de Marion, a obra altera a perspectiva da experiência documental. O filme nos mostra as visitas de Lorincz para registrar queixas, o incidente com o mecânico em março de 2023 e as repetidas chamadas que desenham o perfil de uma tragédia anunciada. A narrativa organiza-se em torno de um conceito de ética visual onde o que comove não é a surpresa do crime – cujos fatos são de conhecimento público –, mas a inevitabilidade de um sistema que falha em proteger corpos negros.
A direção de Geeta Gandbhir merece um destaque particular por sua capacidade de organizar esses fragmentos em uma progressão cronológica que desafia a complacência. A dor da mãe de Owens, Pamela Dias, e o impacto sobre seus quatro filhos são o motor emocional que justifica a existência da obra. O filme revela-se muito mais poético e conceitual em sua execução visual do que a própria estrutura de um relatório policial sugeriria.
Em última análise, A Vizinha Perfeita é um exercício de pedagogia necessário. Ao inverter o propósito das câmeras policiais, a direção entrega um filme que caminha com as próprias pernas, independente da curiosidade mórbida que muitas vezes sustenta o gênero documental. É um filme sobre a necessidade de consertar o que está quebrado na sociedade através do olhar atento e da denúncia firme. Geeta Gandbhir assina uma obra que, embora se utilize de seguranças estéticas do gênero documental, arrisca-se no terreno mais perigoso de todos: o da verdade nua, crua e, infelizmente, repetitiva de um sistema que ainda precisa de nomes como o de Ajike Owens para questionar suas próprias leis.
A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor – EUA, 2025)
Direção: Geeta Gandbhir
Elenco: Susan Lorincz, Ajike Owens, Franklin Baez-Colon, Michael Balken, Troy Campbell, Pamela Dias, Bill Gladson, Afrika Owens, Isaac Owens e Israel Owens
Duração: 96 min.
