Crítica | A Volta dos Mortos-Vivos 2

Em 1988, os produtores do primeiro filme resolveram que era o momento certo para lançar A Volta dos Mortos-Vivos 2, desta vez, com doses maiores de humor na trama sobre cadáveres que retornavam de suas tumbas para assustar a humanidade consumista, egoísta, constantemente em conflito, numa série de alegorias relevantes para discussões sociais, porém, sem o mesmo nível da produção anterior.

Sob a direção de Ken Wiederhorn, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro escrito pela dupla formada por John Daly e Derek Gibson, a continuação do sucesso de 1985 toma o conceito de cinema trash para si, isto é, tudo aquilo que de alguma maneira, passa por um julgamento estético que o considera “horrível”, “abominável”, “grotesco”, categorias igualmente problemáticas teoricamente, mas todas em “harmonia” para definir o conteúdo deste filme.

O enredo é simples. Os tambores que traziam os carregamentos do filme anterior caem numa região próxima a um cemitério. Transportado pelos membros do exército estadunidense, o material, como sabemos, trouxe os mortos de volta à vida, transformando a existência de todos que estavam envolvidos na situação. Desta vez, com a abertura por parte de três adolescentes curiosos, a substancia tóxica se alastra e os zumbis retornam para trazer horror ao que parecia tranquilo, numa busca incessante por carne humana.

Por meio da montagem alternada como recurso narrativo, somos apresentados aos garotos que resolvem brincar no local e acabam mexendo no recipiente indevido, trazendo os mortos de seu suposto “sono eterno”. Os primeiros a morrer estão numa situação bastante comprometedora. Ed (James Karen) e Joe (Tom Mathews), saqueadores de túmulos, perdem logo as suas vidas e se transformam em dois dos monstros que aterrorizarão o grupo de protagonistas.

Dentre as opções de eliminação dos mortos-vivos, temos o choque elétrico, uma novidade na temática que geralmente aborda o tiro na cabeça como única opção para dizimar tais criaturas. Numa tentativa curiosa de reversão da fórmula, descobre-se que o choque elétrico é a única maneira de dizimar os zumbis. Se lembrarmos do clássico literário Frankenstein, de Mary Shelly, a eletricidade era a responsável por dar vida ao monstro. Em Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive, o antagonista retorna da cova após um choque por conta de um raio numa tempestade. Como no primeiro filme, a aposta é reformular as ideias clássicas e reinventar o subgênero. Com o sucesso da incursão anterior, quem duvidava que uma continuação surgiria, bem como o estabelecimento de uma franquia?

Apostando numa linha mais cômica, A Volta dos Mortos-Vivos 2 fez sucesso na televisão aberta, sendo reprisado constantemente em sessões vespertinas graças a leveza da narrativa. Com argumento quase similar ao do primeiro filme, a produção não se preocupa com a seriedade e torna-se alvo de um jogo irônico voltado para si, em suma, um irreverente jogo de espelhos, onde os diálogos refletem a natureza cômica do que está sendo exposto em cena.

Há uma cena curiosa que menciona Thriller, famoso videoclipe de Michael Jackson, produção conhecida por sua temática conectada ao horror. Diferente do tom mais violento e denso de outras produções do subgênero, desta vez, os envolvidos focalizam às suas atenções no alto teor de humor, em detrimento de uma história talvez mais crítica, tal como o antecessor (1985) e o sucessor (1993). Com vilões estereotipados e situações ofertadas pelo roteiro de acontecimentos inverossímeis e questionáveis, A Volta dos Mortos-Vivos 2, uma continuação que abandona a “crítica social” e entra em alta velocidade na “trilha da alegria”.

A Volta dos Mortos-Vivos 2 (The Return of The Living Dead: Part II, Estados Unidos – 1988)
Direção: Ken Wiederhorn
Roteiro: Ken Wiederhorn
Elenco: Basil Wallace, J. Trevor Edmond, James T. Callahan, Kent McCord, Mindy Clarke, Sarah Douglas
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.