Crítica | A Volta dos Mortos-Vivos 3

Freud acreditava que o humor e a ironia tornavam o cotidiano mais leve e a realidade mais tolerável. Apesar de saber que não é preciso recorrer aos meandros da psicanálise para compreender essa afirmação, haja vista que faz parte do que chamamos de “sabedoria popular”, Freud foi quem trouxe o conceito de chiste e a sua relação com o inconsciente. O leitor, todavia, deve estar se perguntando os motivos desse preâmbulo psicanalista. Aqui vai a resposta: os produtores de A Volta dos Mortos-Vivos 3 investiram na violência gráfica e abandonaram o “chiste” dos filmes anteriores, ao apostar numa narrativa mais dramática.

Mais tensa e trágica que os seus antecessores, essa continuação caprichou nos efeitos especiais, pois investiu na mesma equipe do “vanguardista” O Segredo do Abismo, tendo na direção o cineasta Brian Yuzna, guiado pelo roteiro de John Penney. No filme, Curt (J. Trevor Edmond) e a sua namorada Julie (Melinda Clarke) descobrem que a base militar da região em que moram está realizando experiências secretas com gás trioxina, o mesmo que trouxe os mortos de volta das suas covas nas produções anteriores.

Um dos conflitos estabelecidos pelo roteiro é o pai de Curt, Reynolds (Kent McCord), coordenador da pesquisa. A sua intenção é usar o gás como arma de guerra para que os zumbis devorem os inimigos. Ambos problemáticos, pai e filho não tem um bom relacionamento, o que vai piorar com os acontecimentos subsequentes: durante uma fuga, o casal de namorados sofre um acidente, o que ceifa a vida de Julie.

Diante da situação, Curt leva a moça para a base militar para ressuscitá-la. Consegue resolver a situação parcialmente. Ela volta à vida, mas se torna uma morta-viva faminta por carne humana, trazendo complicações para todos que estão envolvidos neste arco narrativo do filme. Para afastar a fome, Julie vai passar por um ritual de autoflagelação digno de uma produção aterrorizante, tal como o filme que protagoniza.

Ao longo dos seus 97 minutos, A Volta dos Mortos-Vivos 3 consegue se estabelecer no campo do terror como uma produção relevante. Ao aliar diversão e crítica social bastante contemporânea, o roteiro de Penny mostra que uma ideia batida, quando bem guiada, pode render um bom produto. Salvas as devidas proporções, o filme dialoga com o arquétipo de Romeu e Julieta, uma das obras-primas de Shakespeare. Há gangues rivais duelando no centro nervoso da cidade, além do desfecho ao estilo “juntos até o último momento”, similar ao clássico do teatro renascentista.

Crítica ao posicionamento armamentista e arrogante da política estadunidense, o filme também não deixa de tocar nas cordas sensíveis das relações familiares, uma celeuma universal que na produção ganha projeção dramática suficiente para explicar determinadas escolhas dos personagens. De volta ao conceito de chiste, os estudiosos dos compêndios freudianos alegam que “fazer chiste” não é o mesmo que “fazer piada”, mas convenhamos, no caso do título “mortos-vivos”, a piada e o chiste estão de mãos dadas para fazer o público rir e refletir sobre temas pouco esperados do dito cinema trash, generalização que abarca produções como este interessante A Volta dos Mortos-Vivos 3.

A Volta dos Mortos Vivos 3 (Return of the Living Dead III, Estados Unidos – 1993)
Direção: Brian Yuzna
Roteiro: John Penney
Elenco: Basil Wallace, J. Trevor Edmond, James T. Callahan, Kent McCord, Mindy Clarke, Sarah Douglas
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.