Crítica | A Voz do Silêncio

“É hoje que a gente vai no vovô?”

O filho afastado. A mãe afastada. O avô afastado. Os desencontros, dando margem a uma solidão geral, moldam A Voz do Silêncio, longa-metragem que reúne diversas histórias para discursar sobre algumas vidas cheias de sons, mas inerte a eles. A noite paulista, como André Ristum abre o seu longa-metragem, é barulhenta, porém, os personagens que permeiam esse cenário caótico estão imersos nele, apresentados gradualmente, cada um em seu mundinho. Quando a bailarina desmaia no chão, sente-se o choque diante da primeira afetação a essa atmosfera de destruição progressa. Um marido trai sua esposa. Uma garota trabalha com strip-tease. Um homem possui vários empregos, sendo que um dos seus chefes o implica exaustivamente. Um senhor de idade começa a se esquecer, começa a morrer. Um jovem atende telefones. Uma mulher busca conseguir conciliar sua profissão com a criação de seu filho.

Já o menino só quer um tempo com seu avô. As problemáticas são tantas, os personagens são tantos, que acabamos nos esquecendo de alguns, como o caso do menino, uma possível intencionalidade do cineasta, ansiando por provocar um efeito mais brusco em certa reviravolta. As histórias se intercalam e se dissolvem uma na outra, às vezes em conexões pequenas, efêmeras, com o intuito de criar um universo sobre solidão. Voz do Silêncio investe em uma estrutura narrativa-discursiva parecida com a de Magnólia, obra dirigida por Paul Thomas Anderson. Ambos os filmes trabalham com personagens se encontrando, unindo narrativas até então separadas, e também se reencontrando, reunindo narrativas de indivíduos antes unidos, mas separados pela vida, religando-se por meio de um caminho propicio para recomeços. A lua vermelha significa o fim dos tempos, assim como significa o começo de novos, para pessoas renascidas.

A ideia seria promissora para uma execução sólida, desenvolvida através de uma temática consolidada, mas o conteúdo das histórias é, dada as devidas proporções, extremamente raso, auxiliado, negativamente, pelas situações consideravelmente bobas abrangidas pela narrativa, não-imaginativas, os diálogos fracos, sem muita autenticidade – com exceções, é claro, principalmente no núcleo estrelado pela Marieta Severo -, além das atuações problemáticas, não necessariamente ruins, no entanto, assim como os personagens que respectivamente interpretam, desencontradas. Os casos do avô e do homem de múltiplos empregos se enaltecem em graciosidade. Já Marieta Severo, em uma instância própria, rouba a cena como sendo a melhor personagem do longa-metragem, entendendo a ineficácia das decisões que tomou no passado, assim como o arrependimento, surgindo ao passo que nos absorvemos em um terror.

O roteiro até mesmo possui um equívoco considerável no seu formato, teoricamente ileso, porque, na situação de uma das tramas em meio às demais, a vivida por Marat Descartes, na pele de um machista enormemente pervertido, mas que está prestes a perder sua esposa, o próprio segmento de narrativa está completamente à parte da atmosfera concisa pensada, de acordo com os outros segmentos abordados. Os envolvimentos, nesse caso em específico, também são mínimos inicialmente – paquerando a dançarina, querendo que mãe e filha se mudem -, entretanto, nunca se encaminham para um ápice esperado de reunião, algo que acontece em todas as outras aberturas do enredo. A tragédia do homem caminha com a personalidade desse ser, porém, soa demasiadamente vaga. A cinematografia, por uma jornada independente, captura melhor esse objetivo discursivo do cineasta, cheio de pesar.

A Voz do Silêncio é uma obra que quer desesperadamente, pretendendo entender que o está fazendo com uma maestria inigualável – uma atmosfera singular, readaptada pela trilha sonora energética -, discursar sobre os barulhos que cerceiam uma população solitária, paulista, contudo, que conta com um elenco parcialmente argentino. As amálgamas são fracassadas nesse quesito. Uma cidade distante, no mau sentido, porque não parece ser São Paulo, todavia, qualquer lugar, qualquer contexto. A solidão é universal e esse silêncio independe do conteúdo. As premissas são compreendidas, embora não se embasem em um argumento realmente competente. Quando a distância de alguns quarteirões é mais pungente que a distância de um país para o outro. O que sobra são cenas interessantes para fomentar um horror específico, de quanto nos perdemos, nos esquecemos, nada temos. O silêncio, portanto.

A Voz do Silêncio – Brasil, 2018
Diretor: André Ristum
Roteiro: André Ristum, Marco Dutra
Elenco: Marieta Severo, Stephanie de Jongh, Arlindo Lopes, Marat Descartes, Marina Glezer, Claudio Jaborandy,
Duração: 98 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.