Crítica | Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca

Ainda na primeira metade do documentário Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca, um dos entrevistados alega que “fotógrafo não faz demagogia, fotógrafo faz fotografia”. Podemos concordar com esta afirmação? Há limites entre o que mostrar ou não num trabalho dentro da seara do trabalho em fotojornalismo? Seria o fotojornalista carioca uma espécie de psicopata, viciado em adrenalina e sem noção dos perigos ao documentar determinadas situações? Como lidar com a questão da ética e da dor no fotojornalismo? Essas perguntas surgem em forma de afirmação ao neste documentário sem nenhum atrativo estético, mas grandioso diante das questões temáticas que se propõe a debater.

De maneira próxima ao modelo acadêmico, o que se tem é uma série de depoimentos complementares que delineiam a situação do fotojornalismo no Brasil, sem deixar de se ramificar por experiencia mundiais e resgate minucioso do histórico desta profissão no jornalismo brasileiro. Conforme exposição de Evandro Teixeira, por exemplo, temos um olhar aguçado para a prática, talvez sendo menor em comparação ao trabalho em outros lugares do planeta no que diz respeito ao processo de infraestrutura. Ademais, não ficamos devendo nada. E isso é comprovado quando uma enxurrada de depoimentos é posta em tela, entrecortada por fotografias de situações bem específicas da sociedade brasileira ao longo de sua história nas últimas décadas.

Os famosos registros de Evandro Teixeira na época da Ditadura Militar Brasileira são apresentados brevemente, juntamente com imagens da dor e da miséria de outras situações desconfortáveis, mas que para alguns precisam ser apresentadas para a reflexão. Outros, reticentes, alegam que acham desnecessária a violência estampada de maneira tão explícita no fotojornalismo brasileiro, em especial, o carioca, foco do documentário. Um comparativo com São Paulo é delineado, região que perde impacto, segundo opiniões, por conta de sua extensão e problemas de mobilidade urbana, sendo o trânsito um dos vilões para os fotojornalistas em ação no território paulistano.

Adiante, outros pontos são abordados: o 11/9, a comercialização da miséria alheia, a relação entre tato e distância entre quem fotografa e quem é fotografado, o duelo com a consciência no momento do clique, a hora certa ou não do fotógrafo abaixar a sua máquina, a erotização da morte, as fotografias que escorrem lágrimas, ao invés de sangue, etc. Outro ponto bem crucial para entendimento dos debates empreendidos pelo documentário é a sorte e talento dos fotógrafos que atuam em jornalismo. Para alguns, há pessoas com muita sorte na captação de certas imagens. Para outros, não adianta sorte se a pessoa não tiver expertise no ato, e saber, desta maneira, o momento exato de registrar a sua imagem.

Com roteiro escrito por Guillermo Planel, o documentário lançado em novembro de 2007 possui colaboração de Renato de Paula na produção, bem como na edição e direção de fotografia, setor de captação de imagens que também contou com o apoio de Daniel Planel como cinegrafista. A produtora Núcleo da Imagem assinou a execução, tendo o fotógrafo Berg Silva como um dos idealizadores das entrevistas, juntamente com a equipe de realização já citada, todos com funções múltiplas. Na condução sonora, Leandro Fiskal ajusta as camadas de áudio da produção, num documentário que em momento algum se atém aos aspectos estéticos.

O que interessa de fato é a informação, não a forma como os dados são narrados, pois a fotografia presente em cena investe nas cabeças falantes e não ousa em momento algum, com depoimentos às vezes estourados sonoramente, noutros trechos mais amenos, num sobe e desce de tom que prejudica o documentário em sua camada estética cheia de cenas montadas com base em registros de fotógrafos em plena ação, cambaleantes com suas câmeras frenéticas em meio aos tiros, bombas e demais utensílios em situações de conflito. Como reflexão é bem pontual e necessário, como cinema, Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca falha miseravelmente.

Dentre os depoimentos, encontramos entrevistas como fotógrafos renomados na cena brasileira, em especial, carioca. Sergio Puglisese, também responsável por coordenar as entrevistas, oferta ao espectador as opiniões de quem vive a cena fotográfica e sabe das tensões de ser fotojornalista em situações extremas como as apresentadas ao longo dos 65 minutos do documentário. Destaque para os depoimentos de Alex Ferro, Alexandre Brum, Ana Branco, Berg Silva, Custódio Coimbra, Daniel Ramalho, Domingos Peixoto, Flávio Damn, Marcelo Carnaval, Márcia Foletto, Orlando Abrunhosa, Severino Silva, Evandro Teixeira, João Baet, Luis Alvarenga, Ivo Gonzalez, Luiz Morier, Guillermo Pinto, Ignácio Ferreira, Vânia Corredo, etc.

São tantas as questões que o tema fornece subsídio para uma excelente série sobre o assunto. A postura insensível do fotojornalista, diante da violência ao passo que a sua experiencia avança na profissão é uma das revelações mais perturbadoras do documentário. Um dos depoentes alega que “não tem como desligar do que presencia, pois o impacto do que se vê permanece”, outra revelação que reforça a confluência de opiniões divergentes, mas elucidativas para compreensão do trabalho realizado por estes profissionais da informação, cada vez mais híbridos dentro de uma sociedade que propiciou o avanço tecnológico e, por sua vez, a criação do cidadão repórter, aquele que anda cotidianamente com a sua máquina fotográfica (celular) e registra situações que os próprios profissionais do ramo não tiveram a oportunidade de clicar.

Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca — (Brasil, 2007)
Direção: Guillermo Planel, Renato De Paula
Roteiro: Guillermo Planel
Elenco: Alex Ferro, Alexandre Brum, Ana Branco, Berg Silva, Custódio Coimbra, Daniel Ramalho, Domingos Peixoto, Flávio Damn, Marcelo Carnaval, Márcia Foletto, Orlando Abrunhosa, Severino Silva, Evandro Teixeira, João Baet, Luis Alvarenga, Ivo Gonzalez, Luiz Morier, Guillermo Pinto, Ignácio Ferreira, Vânia Corredo
Duração: 65 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.