Crítica | Absorvendo o Tabu

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem no Oscar 2019.

Um documentário como Absorvendo o Tabu (a criação de outro jogo de palavras para refletir o título original foi excelente, devo confessar) abre os olhos de qualquer um. A proposta é extremamente simples, mas com reverberações muito maiores do que o que está na superfície: uma máquina para a fabricação de absorventes higiênicos femininos é instalada em um vilarejo paupérrimo nos arredores de Nova Delhi, Índia. O que segue daí é uma minúscula semente para não só uma revolução na vida das mulheres locais, como o potencial começo de um incrível efeito dominó.

Quando digo que o documentário abre os olhos de qualquer um, quero dizer, claro, da grande maioria de nós, especialmente de homens como eu confortavelmente sentados em sua posição normalmente dominante. Se essa é regra – cada vez mais desafiada, ainda bem! – em países como o nosso, imagine na Índia, país fortemente dominado pelo homem chefe de família, em uma estrutura patriarcal antiquada e rígida, que vê a menstruação feminina como algo a não ser mencionado. O tabu do título em português não é uma brincadeira e os minutos iniciais do documentário estabelecem uma situação quase inacreditável, com os entrevistados simplesmente ou desconhecendo completamente o que é a menstruação ou dando explicações que chegam a ser engraçadas de tão tristes (ou talvez o contrário, não sei).

E o problema localizado em cima desse tabu específico abre as portas para os demais, que poderia ser resumido como o lugar destinado à mulher nessa sociedade, em que elas nem ao menos aventam trabalhar e tornam-se quase que obrigatoriamente donas de casa, sem nenhuma chance de movimentação social. Evidente que a miséria amplifica tudo e representa parte do ciclo vicioso que dificilmente será sanável sem uma atuação severa e concertada de órgãos governamentais, empresas e ONGs como a The Pad Project, que é responsável pela máquina de absorventes e, também, pela produção do curta. São 25 minutos em que aqueles que têm acesso ao filme, pessoas quase que necessariamente de um nível sócio-econômico incomparavelmente mais alto ao das mulheres que vemos serem entrevistadas, entram em um outro mundo, um mundo claustrofóbico, limitador e que, arriscaria dizer, nem mesmo as pessoas que vivem nele percebem essas características em um ciclo perverso de complacência.

Mas há as vozes da mudança que dão esperança de um futuro melhor, um absorvente de cada vez. Vemos a senhora que parece ser responsável pela venda do Fly, como elas batizam o produto de baixíssimo custo, vemos a mulher que deseja acima de tudo ser policial em Nova Delhi, ou seja, ter uma profissão fora do seio do lar e antes de sequer ter filhos ou mesmo casar (heresia!) e vemos a atitude em geral das pessoas, inclusive homens, que entram em contato com o projeto e passam a entender, ainda que de maneira tímida, o que está acontecendo e o que a máquina de absorventes simboliza.

Absorvendo o Tabu é uma breve aula do quanto, em pleno século XXI, as desigualdades no mundo continuam gritantes, mas, também, é um documento que prova que pequenos esforços aqui e ali têm o potencial, no acumulado, de gerar mudanças. E se a Índia é o ponto focal do curta, com aquela aura de país distante e exótico, é importante lembrar que situações semelhantes à que é abordada aqui existem muito provavelmente ao nosso redor. Um pouco de esforço pode sim mudar o mundo. Ou, pelo menos, temos que acreditar nisso para agirmos além de nossas confortáveis redes sociais.

Absorvendo o Tabu (Period. End of Sentence. – EUA – 2018)
Direção: Rayka Zehtabchi
Com: Ajeya, Anita, Gouri Choudari, Shabana Khan, Arunachalam Muruganatham, Preeti, Rekha, Roksana, Shashi, Shushma, Sulekha Singh, Sneha, Suman, Sushila
Duração: 25 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.