Crítica | Abstract – 1ª Temporada

Segundo Fayga Ostrower, artista conhecida por sua incursão no expressionismo abstrato, autora do livro Criatividade e Processos de Criação, o ato de criação artística é “algo necessário”, “tão fácil ou difícil como viver”. Em seu ponto de vista, geralmente introdutório em cursos de História da Arte e Elementos e Conceitos das Artes Visuais, a arte é algo que surge diante de um processo de elaboração teórica e também de percepção da sensibilidade aguçada, num texto que flerta sobre questões ligadas ao campo da memória, da cultura e da afirmação de que “criar é algo inerente ao homem, uma necessidade básica de expressão”, informações que coadunam com as abordagens da série em questão, lançada em 2017.

Produção original da NETFLIX, Abstract segue o formato documental, com episódios que gravitam em torno dos 40 minutos. Com produção executiva de Morgan Neville, também responsável por assinar a direção de dois episódios, juntamente com a equipe de cineastas formada por Brian Oakes, Richard Press, Sarina Roma e Elizabeth Chai Vasarhelyi, a série é conduzida pela eficiente direção de fotografia de Jason Zeldes e pela trilha sonora de Mark Mothersbough, todos organizados de acordo com os roteiros assinados por Chris Chuang.

Dividida em oito episódios, Abstract retrata o processo criativo de cada um dos artistas selecionados, sempre a dialogar com elementos e pessoas que gravitam em torno da existência do representado em cena. Ao descortinar os seus planejamentos, relacionamentos com membros de suas respectivas equipes e estratégias de produção, a série estabelece a metalinguagem em prol do didatismo, com episódios organizados, padronizados e alinhados numa linguagem que os conecta, focados em nos demonstrar a amplitude da área, isto é, como o design é um campo amplo de trabalho, espalho como um rizoma por diversas “frentes”.

O primeiro segue o estilo introdutório. Traz depoimentos sobre a importância da abstração e da entrega no processo de criação. O profissional diz que sua vida profissional e pessoal não se mistura. Inspiração, segundo sua abordagem, é coisa para amadores. Trabalho de verdade mesmo requer planejamento e a criação de um ambiente propício para as coisas acontecerem. Alegoria com atletismo. O atleta não treina diariamente? Nós também precisamos. Taxativo em suas considerações, Christoph Neimann afirma que abstrair é “se livrar de tudo que não é essencial” e demonstra aos espectadores seus surpreendentes trabalhos para as capas da Times, The New Yorker, American Illustration, etc.

Depois do excelente capítulo introdutório, a série traz o segundo episódio focado no trabalho de Tinker Hatfield, designer de tênis, profissional que alega a necessidade de modernizar e fazer tênis que funcionem como narrativas. Idealizador de produtos famosos, tais como o modelo desenhado para o filme De Volta para o Futuro, o sapato felino de Michael Jordan, dentre outros, Hatfield aponta que o design básico é funcional e o ótimo passa uma mensagem. Em seu ponto de vista, entretanto, o ideal em sua produção é solucionar o problema de um cliente. Essa é a função elementar do profissional de design, opinião que coaduna com a maioria dos depoimentos presentes nos demais episódios da série.

O “terceiro momento” retrata o modus operandi da cenógrafa Es Devlin. Ao brincar com as proporções, a artista fala sobre psicologia do espaço e comenta sobre a sua cenografia para shows comuns na sociedade do espetáculo contemporânea, tipo de evento que deve permitir aos espectadores o direito de assistir de maneira que possa contemplar a ideia geral, nem que seja numa distância grande entre artistas e público. Bem sucedida em sua área, Devlin já assinou trabalhos em turnês de Beyoncé, U2, Adele, dentre outros artistas renomados. Em sua dinâmica, Devlin diz que o espaço, a luz, a escuridão, a escala e o tempo são elementos fundamentais para pensar o seu “ato de criação”.

Bjarke Ingels é o artista radiografado no quarto episódio, profissional que trata da arquitetura urbana e cita o filme A Origem como alegoria para a realização de um arquiteto, alguém que em sua opinião vive entre “o sonho e a realidade”. Ingels pretendia ser cartunista, mas seguiu a carreira na arquitetura e é conhecido por desenvolver projetos que fogem dos clichês. Considerado excêntrico demais por alguns, o artista alega que não se importa com as críticas, pois se for a pessoa que cria for ler tudo e absorver, provavelmente surtará. O trecho em questão é muito importante pois reflete a relação do artista com a crítica, em especial, na era da internet, período em que nas redes sociais, todos querem posar de crítico e especialista. Noutro trecho, o artista reforça que “a arquitetura é a arte e a ciência de criar as estruturas de nossas vidas”, o que fica elucidado ao longo do episódio, um dos maiores destaques ao longo das oito jornadas apresentadas.

Ralph Gilles é o tema do quinto episódio. O designer de carros conta que desenha por meio de três linhas e foca no planejamento para o sucesso do produto, sendo comum começar sempre pela frente do veículo e logo mais complementar com as outras partes. Para Gilles, um carro precisa “transmitir uma alma”. A designer estadunidense Paula Scher é o foco do sexto episódio, profissional que afirma ser muito vantajoso o desenvolvimento do trabalho em equipe. Scher reforça que é preciso estar sempre atualizada e gerar mais perguntas que respostas prontas em seus projetos. Idealizadora do estúdio Pentagram, uma cooperativa de design, inspirou-se constantemente em gibis, capas de discos, revistas e outros materiais midiáticos para formar a sua estrutura de produção, sendo a estratégia um dos elementos mais importantes para o desenvolvimento do seu trabalho. Amante da boa tipografia, Scher alega que os designers “trabalham com coisas que criam personalidade”.

O sétimo dialoga com a fotografia. Profissional que já captou Spike Lee, Obama, George Clooney, Bill Clinton, Putin, dentre outros, o fotógrafo Platon afirma que a “luz capta a alma” e um dos pontos importantes na realização de seu trabalho é captar a “natureza dos olhos”. Em seu brilhante ponto de vista, parte de um dos melhores episódios da série, os bons designers simplificam o mundo já caótico e complexo.

“O design é um processo mental, uma ferramenta para acentuar a nossa humanidade”, diz Ilse Crawford, artista retratada no oitavo e último episódio, momento da série flertar com o design de interiores, seara que segundo a profissional representada, impacta em nosso comportamento e é uma “moldura para a vida”. Corolário para a contemporaneidade, num dos momentos finais, a designer diz que “temos dois olhos e ouvidos e uma boca, o que deve ser usado nessa mesma proporção”, numa lição para a nossa era de cacofonia e falta de meditação no “ofício de criar”.

No desfecho da jornada, podemos concluir que os oito artistas estão de acordo com as reflexões de Edgar Allan Poe no célebre A Filosofia da Composição, isto é, criar é fruto de muita dedicação e trabalho, diferente do que o senso comum reforça sobre o artista e suas inspirações míticas, “tese” já derrubada há bastante tempo. Direcionada para qualquer público, mas com ressonâncias maiores para profissionais e estudantes, Abstract é uma série que revela os bastidores de produção de artistas renomados no mundo do design, profissionais que desnudam os seus processos e revelam as suas estratégias de realização dentro de um campo de atuação repleto de complexidades e possibilidades de trabalho rizomáticas.

De volta à Fayga Ostrower, podemos perceber as ideias da autora são inconscientemente retratadas na série. Em seu texto citado anteriormente, ela afirma que produzir arte é parte do processo de formação dos humanos, algo que dá significado à sua existência. Em seus respectivos processos criativos, os artistas incutem os seus sentimentos, ideais, dúvidas, enfim, tudo aquilo que lhe é cultural e circunda a sua existência, tal como podemos observar nos oito episódios da série Abstract, produção que nos leva a refletir sobre as experiências e realidades dos artistas representados, seres humanos que abordam a criatividade, condição “inseparável da condição humana”.

Abstract – 1ª Temporada (EUA, 2017)
Showrunner: Morgan Neville
Direção: Brian Oakes, Richard Press, Sarina Roma, Elizabeth Chai Vasarhelyi
Roteiro: Chris Chuang
Elenco: Ilse Crawford, Ralph Gilles, Paula Scher, Es Devlin, Christoph Neimann, Tinker , Hatfield, Bjarke Ingels, Platon
Duração: 45 minutos (cada episódio)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.