Crítica | Acto da Primavera

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Baseado em um texto do século XVI escrito por Francisco Vaz De Guimarães, Acto da Primavera (1963) foi filmado entre os anos de 1961 e 1962, junto ao povo da Vila de Curalha, Portugal, que tinha por tradição realizar, ano a no, o seu próprio Auto da Paixão. Os letreiros iniciais do filme não deixam dúvidas de que se trata de um trabalho de forte cunho teatral e, acima de tudo, popular, com papéis interpretados por não-atores (embora isso não seja realmente um diferencial, já que a teatralidade é uma marca proposital exigida por Manoel de Oliveira mesmo aos atores profissionais de seus filmes). Motivos medievais e secularismos vivem lado a lado aqui, como proposta do próprio diretor. E ele faz questão de realizar essa paixão dando a ideia de um ciclo da vida histórica e política da própria humanidade. Não é de se estranhar que tenha tido muitos problemas com a censura da ditadura salazarista por causa desse filme.

Existem basicamente três grandes momentos na divisão geral da obra. O primeiro e o último, com ações contemporâneas que se ligam ao drama histórico da vida e paixão de Jesus Cristo. Já o segundo é o próprio auto, que toma a maior parte do filme e que carrega alguns pequenos problemas em seu desenvolvimento. Tendo como consultores José Régio, para as questões culturais a serem representadas no filme, e José Carvalhas, para as questões religiosas, Oliveira conseguiu um resultado visual e de conteúdo simplesmente aplaudível. O poético texto do século 16 e a timidez às vezes atrapalhada do povo da vila dão um peso diferente às passagens bíblicas, que vão desde o encontro de Jesus com a mulher samaritana até o momento em que Ele é colocado no túmulo.

O apelo etnográfico que esse filme tem (jamais negando-se como uma ‘docuficção‘) é o que muitas vezes afasta alguns espectadores, normalmente reclamando de que a obra exige uma “grande suspensão da descrença“, o que não é uma reclamação sem base, mas é certamente alheia ao que o próprio diretor propõe. A meu ver, os problemas de um grande grupo de soldados romanos correndo para lá e para cá em cenas do pré e pós crucificação são os verdadeiros impasses aqui, e não a presença de uma caneta na cena em que a esposa de Pilatos lhe escreve uma carta ou alguns outros indicativos cênicos que parecem não pertencer àquele tempo. É importante levar em conta o que os letreiros iniciais do filme nos diz e, a partir daí, julgar com coerência essa fusão de tempos que falam sobre um mesmo tema.

Como é o próprio Oliveira quem dirige, produz, faz a fotografia, o som e a montagem, temos em Acto da Primavera um verdadeiro exercício autoral do diretor, com um trabalho excelente na escolha da iluminação (as cenas noturas são absurdamente belas) e uma direção que relaciona muito bem o homem e a paisagem, um companheirismo constante, ressaltado pelo fato de que todas as locações do longa são feitas em externas.

O final do filme é um espetáculo à parte. Inesperado e cheio de significados até mesmo dentro das muitas simbologias cristãs (inclusive com pitadas escatológicas), o encerramento do filme é um grito contra os inúmeros atentados do homem contra o homem, desprezando o sacrifício do Filho de Deus e ignorando os mandamentos centrais desse acordo marcado pelo envio de Jesus para a Salvação da humanidade: “amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo“; disfarçando esse desvio de caminho com seus avanços tecnológicos. Um filme sobre a História de um povo, a representação secular de uma importante passagem bíblica… uma expressão cultural e uma crítica social e política que tem como base o desvio de uma sociedade que se diz cristã, mas não pratica os ensinamentos de Jesus. Acto da Primavera é um filme culturalmente rico, atemporal e necessário para se discutir as bases de uma religião versus a vontade de muitos de seus convertidos de separar, condenar e matar, às vezes sob o nome do próprio Deus.

Acto da Primavera (Portugal, 1963)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado na obra de Francisco Vaz De Guimarães)
Elenco: Povo da Vila de Curalha, Portugal
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.