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Crítica | Açúcar (2017)

por Fernando JG
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“Contudo há no canavial

oculta fisionomia:

como em pulso de relógio

há possivel melodia” 

João Cabral de Melo Neto, em Cemitério Pernambucano. 

Filmado em 2014, finalizado em meados de 2015, mas só lançado oficialmente em 2020, o longa performa um retrato de uma cultura. Trabalhando com uma ideia semelhante à noção de romance de formação do Brasil, Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro (Amor, Plástico e Barulho) fazem um retorno à história e exploram diacronicamente o resultado de um processo histórico da fundação de um país que durante séculos foi sustentado por uma sociedade fundada numa economia dependente da monocultura canavieira, intensamente gasta e arrebentada pelo tempo. Dentro deste recorte temático, a direção explora as fraturas internas de um povo e seus impasses. Uma leitura social, dramática e fantástica da história enquanto disciplina, o longa carrega consigo os pesos da cultura do engenho dentro do interior do país.

Ao decidir trabalhar com uma obra insanamente simbólica, a dupla direção faz sua leitura contemporânea de uma Zona da Mata à luz de seu próprio destino. Produto do cinema pernambucano, que vem entregando obras de uma sensibilidade social absurda, com nomes centrais para o audiovisual brasileiro hoje, como Cláudio Assis (Amarelo Manga; Febre do Rato), Marcelo Gomes (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo; Cinema, Aspirinas e Urubus), Kleber Mendonça Filho (Aquarius; Bacurau) e Gabriel Mascaro (Boi Neon; Divino Amor), o longa da dupla impressiona pela forma e pelo conteúdo. O que me parece ser uma releitura cinematográfica de Fogo Morto, romance regional de José Lins do Rego, o filme explora a decadência dos engenhos de cana-de-açúcar nos mínimos detalhes: nos enfoques da câmera, nos gestos, nas ruínas e na própria figura da personagem. 

O arco dramático gira em torno da volta de Bethânia, interpretada pela brilhantíssima Maeve Jinkings (O Som ao Redor; Aquarius), para o antigo engenho da sua família. Neste retorno, Bethânia tem de lidar com as mudanças de um local que um dia foi próspero, mas hoje se encontra em plena degradação. No engenho, e ao redor dele, em uma separação que relembra as estruturas da Casa Grande e da Senzala, é onde vai ocorrer toda a problemática do filme. O longa começa com um plano extenso, em que podemos assistir Bethânia num barco atravessando as águas tranquilas para chegar em casa, onde é recebida por Zé, interpretado por José Maria Alves – o Zé Maria -, um jovem trabalhador rural ligado na tradição deste engenho decadente. 

Ao chegar em casa, Bethânia é confrontada por uma realidade muito diferente do que foi um dia, na sua infância. Ao tentar fazer a manutenção das terras da família, ela descobre que há um universo novo na região, e que o engenho perdeu sua força. Trabalhadores que um dia foram do engenho, e compõem a Associação de Trabalhadores, agora têm a posse de um punhado de terra logo abaixo, amplificando a tensão de classe. Interligada numa tradição conservadora, Bethânia tenta reparar algo que já foi mudado, e sente a dor plena da cadência de uma elite histórica, na mesma medida em que se degrada enquanto personagem. Racista e mandona, a personagem de Maeve escancara os resquícios de uma sociedade colonial ainda atuante no interior do país. 

O longa mistura simbolicamente dois tempos: o passado e o presente. Ao fazer esta retrospecção, em um passado violento e marcado, a direção traz para o presente as cicatrizes de uma região que em outro tempo foi o centro comercial do país ao longo dos séculos XVII e XVIII. Como se não bastasse, o filme explora o sintoma desse tempo e as fraturas sociais que marcaram um apogeu econômico baseado no sistema escravista, que atendia ao comércio açucareiro internacional, no eixo Brasil-Holanda. Bethânia é uma dessas personagens chamadas de dona, como dona Bárbara (Que Horas Ela Volta?). Retrato de uma elite, Bethânia se horroriza com o outro e tenta a todo custo demonstrar superioridade, mesmo que em franco declínio. No filme, a mistura entre o alto e o baixo se confundem. Não se pode dizer que Bethânia figura totalmente os aspectos do alto, e nem que Zé pertence ao baixo, quando temos uma degradação constante de um modus operandi colonial, em que a jovem sinhá caminha a passos largos para o declínio. Enquanto isso, assistimos à ascensão do povo de baixo.  Zé é profético quando diz: “O engenho tá aí, de pé. Mas, sem verba, ele vai cair”. 

Branca, interpretada por Magali Biff, é o desenho primoroso da cordialidade brasileira, um dos aspectos fundantes da nação. Ao construir uma personagem mansa, Magali Biff esconde uma violência ímpar, apenas percebida nas entrelinhas de suas falas, contra toda essa renovação progressista. 

A sexualização do corpo negro, como Bethânia faz com Zé,  ou, mais ainda, quando ela infere que Alessandra (Dandara de Morais) já namorou demais, é um ponto fulcral na concepção de mundo de uma elite atrasada e tradicional sobre os corpos outros, que não os seus.  Esse aspecto reverbera no filme em enfoques incríveis quando Bethânia passeia com a lanterna pelo corpo de Zé, enquanto ele troca a lâmpada da sua casa. Explorando mais a fundo a noção do desejo e da sexualização dos corpos, o filme introduz uma cena de sexo entre Zé, Bethânia e Branca, em um tom onírico muito bem montado. 

Os fantasmas da terra assombram Bethânia e Branca, que representam uma elite saudosista quanto ao escravismo no Brasil. A personagem de Maeve constrói uma espécie de prosopopeia do engenho. Extremamente ligada à terra, ao ponto de dizer “Essas terras sou eu”, Bethânia, que chega esbelta na casa da família, demonstra visíveis sinais de degradação física e psicológica ao longo da narrativa.  Enquanto o pesadelo da decadência a persegue, a personagem caminha cada vez mais para uma insanidade, uma não adequação de si no mundo. No terceiro ato, quando Bethânia se masturba com as terras do plantio, existe a tentativa de conectar essa personagem às suas tradições, representando, simbolicamente, uma fusão entre natureza e cultura. A história do engenho é também a história de Bethânia. Ao fim do filme, quando descabelada e aos cacos, muito diferente de como chegou, percebemos esse processo de maneira evidente. As ruínas do que um dia foi glória são transportadas para as ruínas da personagem Bethânia, que termina o filme como começou: em um retorno de barco pelas águas tranquilas do canavial. Bethânia completa seu ciclo e volta – mas jamais saberemos se transformada. 

É impressionante o quanto o longa trabalha com as referências sociológicas e literárias, de modo até a ficar um pouco abstrato em alguns pontos. O cinema pernambucano é um dos mais cultos do país, e não é de se espantar que uma obra desse nicho trabalhe com tantas variantes. Apesar do gênero do fantástico, a direção poderia aprofundar um pouco mais todo esse misticismo em relação às crenças locais, que não convenceu de todo. A fotografia escura, na noite, é espetacular. A tensão implícita no filme mostra um trabalho delicado dos diretores, e uma  preocupação social com a temática. Uma película importante para pensar o Brasil, Açúcar reflete um passado atualizado pelas lentes de um presente irreversível. 

Açúcar (Brasil,  2017)
Direção: Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira
Roteiro: Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira
Elenco: Maeve Jinkings, Magali Biff, José Maria Alves, Roger de Renor, Dandara de Morais
Duração: 90 min.

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