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Crítica | Açúcar de Melancia, de Richard Brautigan

por Luiz Santiago
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Ler Açúcar de Melancia e ignorar que seu autor também era um poeta provavelmente gerará rejeições bobas e meio ignorantes ao livro, não raro “denunciando” uma suposta posição “superestimada” da obra pelo público, justamente pelas coisas que ela se propõe a entregar ao leitor. Lançado em 1968, num fervor criativo imediatamente pós (?) Geração Beat e em meio a toda a loucura do movimento hippie — que abraçaria o título com todas as forças –, este foi o terceiro romance de Richard Brautigan, vindo depois de Um General Confederado do Big Sur (1964) e Pescar truta na América (1967).

Consideravelmente diferente dos livros anteriores do autor (bem mais de Um General do que de Pescar Truta), Açúcar de Melancia foi construído sob uma narrativa minimalista, com capítulos curtos, marcados por repetições — especialmente os iniciais — e fortemente amparado por uma prosa de inúmeras construções líricas que cobram do leitor um franco mergulho na fantasia, no mar de simbolismos que nos traz a cidade de euMORTE, local onde se passa os eventos dessa história pós-apocalíptica ocorrida após uma grande alteração no planeta Terra, evento passado que o autor não tem interesse de falar a respeito.

A nossa primeira estranheza com o volume (passado o inicial entendimento de que a escrita utilizará uma linguagem próxima à da poesia) está no vocabulário e nas construções que o escritor nos apresenta. O nome do espaço geográfico (euMORTE, muitas vezes interpretado como uma espécie de Éden pós hecatombe, onde o “Eu” do homem morreu e o “Nós” sobreviveu); o nome de uma pessoa, de um líder de gangue que conheceremos mais adiante (naFERVURA); o nome de um combustível popular (óleo de melantruta) e, claro, a própria matéria-prima para a maioria das coisas que aí se faz (açúcar de melancia) são coisas que o leitor precisará se acostumar rapidamente, já não encontrará respostas imediatas sobre elas.

Um dos mistérios iniciais está em torno do narrador. Ele é muitíssimo bem construído e não faz muita questão de esconder seus desafetos e defeitos. Quando resolve não dizer o seu nome para nós, ele assume uma postura verdadeiramente poética ao sugerir como seria o seu nome, apelando para as experiências do leitor a fim de que imagine como ele se chama, baseado em determinadas sensações, sentimentos, estados de espírito. É nos mistérios, nas incertezas, na simbologia e em indicações sutis que o texto se ergue a partir daí, e a preocupação não é fazer o leitor filosofar com capítulos gigantescos e parágrafos de 99 linhas com longos enigmas existencialistas. É na infantilidade literária de Brautigan que reside um dos elementos mais fascinantes de Açúcar de Melancia. O constante sentimento de descoberta.

Notem que, em dado momento, o narrador nos fala sobre como a cidade está em constante mudança, sobre como o Sol tem diferentes cores em diferentes dias da semana, e sobre como as melancias cultivadas em cada um desses dias também terão uma cor diferente; seu açúcar servindo como matéria-prima para as mais diversas construções (ferro e madeira também são utilizados, vale dizer). O olhar pueril que atravessa o livro é tanto o olhar de um indivíduo num território pós crise (portanto, o olhar de alguém que não conhece grandes horrores socais ou planetários em sua vida adulta) transmitindo para um olhar abismado, marcado por estranheza e desconhecimento de alguém que vive num mundo de grande horrores sociais e planetários: o nosso olhar, o nosso mundo. O autor propositalmente nos faz contemplar tudo como se fôssemos crianças conhecendo uma nova localidade cheia de “atrações impossíveis”, para as quais a gente não tem nenhuma explicação.

Alguns personagens como Margaret e naFERVURA ganham mais destaque no decorrer das páginas, às vezes em detrimento de melhor exploração daquele espaço, principalmente em capítulos que poderiam nos revelar um número maior de coisas sobre o futuro da humanidade, como a relação da população de euMORTE com Obras Esquecidas, o viveiro de trutas, as estátuas aos mortos e todo o drama dos tigres falantes. Apesar de todas essas coisas terem significados simbólicos, psicológicos e muito pessoais (cada leitor guiará a narrativa por um caminho interpretativo que achar melhor), há também a possibilidade de uma integração fantasiosa delas à trama, de modo que um tantinho a mais de conhecimento sobre como começaram não seria de todo mal para o livro. No entanto, entendemos muito bem por que o autor escolheu manter esse ponto de origem um mistério, olhando mais para o funcionamento da sociedade no “hoje modificado” e não no “passado crítico“.

Açúcar de Melancia pode ser uma narrativa de fuga, onde as regras de nossa existência são alteradas e onde temos de viver sob outros costumes, com outros códigos e ocupações. É o retrato de uma geração que vive livre de verdadeiras ameaças (a morte dos tigres assassinos acontece quando muitos deles ainda eram crianças) e que compartilha com o leitor o retrato dessa não necessariamente perfeita, mas chamativa, bela e poética existência. Um convite para olhar um mundo muito diferente do que a gente vive. E quem sabe nos faça sentir um pouco a textura, a doçura e as cores das obras de melancia, transformando-nos para que a gente também transforme o mundo em que vivemos. Construir coisas com base em uma matéria-prima aparentemente frágil, mas que se bem preparada, pode resistir a tudo. No fim, é um livro sobre cercar-se de construções variadas de amor.

Açúcar de Melancia (In Watermelon Sugar) — EUA
Publicação original: Four Seasons Foundation, 14 de junho de 1968
Autor: Richard Brautigan
Edição lida para esta crítica: José Olympio (16 de junho de 2016)
Capa desta edição: Lola Vaz
Tradução: Joca Reiners Terron
240 páginas

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