Crítica | Adivinhe Quem Vem Para Jantar

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Não é de agora que a inclusão de minorias nas telas de cinema causa discussões na sociedade civil. Recentemente (2018), ótimos filmes como Corra! e Infiltrado na Klan trataram a questão do racismo entranhado na história americana, mas esse tipo de debate remonta no limite à estreia de O Nascimento de uma Nação (1915), encontrando na década de 60, quando ocorreu a luta pelos direitos civis, um momento especialmente crítico. O rebuliço social se expressava em todas as áreas, passando pelo movimento pacifista, pela crítica do conservadorismo e, como não podia deixar de ser, pela vanguarda antirracista que encontrou em Martin Luther King seu maior símbolo. Dado esse contexto, o clássico de Stanley Kramer Adivinhe quem vem para jantar (1967) é um ótimo registro de época que reflete várias tensões que ainda não foram resolvidas.

O roteiro original de William Rose conta a história de John (Sidney Poitier) e Joey (Katherine Houghton, estreando como atriz), um casal que se conheceu no Havaí durante as férias e, febrilmente apaixonado, decide se casar. Ambos são de classe média, cultos e elegantes, mas… John é um homem negro e teme que a família de sua amada tenha restrições à união. Sua parceira tenta acalmá-lo, garantindo que seus pais são liberais e que educaram-na nesse sentido. Mesmo professando esses valores, no entanto, os pais reagem mal à surpresa, mostrando que sob o discurso humanista pode haver camadas inconfessáveis de violência.

O mais interessante da obra está na disposição de discutir o tema recusando o maniqueísmo. Em primeiro lugar, a família de Joey não é feita de monstros segregacionistas, mas de progressistas ligados às artes e ao debate jornalístico. O nó do problema é a contradição entre pose pública e comportamento privado, algo rapidamente percebido por Christina Drayton (Katherine Hepburn). Seu marido Matt (Spencer Tracy), um escritor liberal do Guardian, é quem mais se incomoda, alegando inúmeras justificativas que nada mais são do que desculpas para esconder a discriminação. A dupla histórica do cinema americano está mais uma vez excelente, com direito ao show de expressões de Hepburn, que vai da frustração à pura emoção. (Pode-se inclusive notar nessa escolha de elenco uma nota metalinguística, já que os dois atores formaram casais em diversos filmes, e tutelam agora a possibilidade de uma união inter-racial). Abrindo mão de qualquer reducionismo, o drama mostra ainda que mesmo o povo negro pode internalizar a submissão, recusando a mudança em nome de uma servidão voluntária; tal é o caso da empregada Tillie (Isabel Sanford), também negra, também racista.

Ao longo da projeção, estarão em jogo as diferentes camadas dos valores pessoais e coletivos, de maneira que nunca se descamba para uma simplificação dualista. A coisa fica ainda mais complicada quando chegam ao jantar os pais do próprio John, que igualmente não aceitam o casal e tentam impor barreiras ao amor. O desenlace do problema é uma aula de roteiro e de estudo psicológico, com direito ao famoso monólogo em que Spencer Tracy faz sua decisão final.

Tal qual No Calor da Noite (também de 67), Sidney Poitier aparece aqui num papel em que se confrontam, por um lado, as inúmeras virtudes e méritos do personagem, e, por outro, os valores regressivos de uma sociedade que se recusa a reconhecê-lo como igual. A participação do ator no aumento da representatividade afro é histórica, sendo um dos primeiros a se tornar um ícone do star system, com atuações de protagonismo e destaque, contrárias ao “normal” de Hollywood, que era colocar tais figuras em posição subserviente ou em chave cômica. Enquanto em Adivinhe quem vem para jantar ele vive um médico de sucesso, no filme que citei acima seu papel é de um genial perito da polícia.

A obra é em todos os sentidos refinada. Especialmente salta aos olhos o rigor clássico da direção, com (re)enquadramentos precisos e movimentos de câmera muito bem pesados para exprimir tensão; a direção de arte, primorosa, registra uma casa abastada, bem decorada e cheia de obras de arte, signos inequívocos do pertencimento social da família Drayton. Talvez a maior força esteja nos diálogos, que dão ao todo uma estrutura muito próxima do teatro, até porque seguem-se aqui a unidades clássicas de espaço, tempo e ação.

Se o tom é sempre alto, esse é um dado que chegou a incomodar os espectadores: parte do movimento negro vê em Poitier uma adaptação aos gostos da classe média americana, sem que sejam desnudados os conflitos étnicos realmente existentes; segundo essa opinião, seu retrato teria passado por uma “domesticação” que adocica problemas profundos, além de excluir uma cultura mais popular restrita a guetos. Não vejo o comportamento do ator como algo necessariamente problemático, mas nesse filme há um ponto muito incômodo: a clara tentativa de “higienizar” (com as devidas mil aspas) a relação do casal, que na única vez que se beija é mostrado diminuído, como um reflexo de espelho de carro; depois disso, não esboça nenhuma aproximação física, o que obviamente serve ao propósito de não chocar o público. Vislumbra-se, assim, uma contradição moral imperdoável: o progressismo do enredo é denegado pela timidez do tratamento da imagem. E, já que estou a falar de problemas, eis mais um: a participação de Houghton é fraquíssima, sua personagem é ingênua e tola e não consegue acompanhar as sutilezas do encontro em família.

Ora, sem dúvidas o saldo final é muito positivo. Apesar de uma certa hipocrisia na linguagem visual da obra, a mensagem é transmitida com muita competência. Os dois pontos altos- o roteiro de Rose e a performance de Hepburn- foram, com razão, premiados no Oscar de 1968. Àqueles que esperavam de Poitier uma postura mais agressiva, bastou que aguardassem os anos 70 para serem retribuídos com a visceralidade do Blaxploitation, sua estética, sua música, sua violência. A partir daí, o conflito ganharia uma roupagem mais radical, muito embora apelando para expedientes problemáticos e até hoje polêmicos. Essa, no entanto, é uma outra história.

Adivinhe quem vem para jantar (Guess who’s coming to dinner) – EUA, 1967.
Direção: Stanley Kramer
Roteiro: William Rose
Elenco: Sidney Poitier, Spencer Tracy, Katherine Hepburn, Katherine Houghton, Isabel Sanford, Cecil Kellaway, Beah Richards, Roy Glenn, Virginia Christine
Duração: 108 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.