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Crítica | Adoráveis Mulheres

por Rodrigo Pereira
295 views (a partir de agosto de 2020)

“Cansei de ouvir que, à mulher, cabe somente o amor.”

Apesar de ter marcado presença em seis categorias do Oscar 2020, a nomeação de Adoráveis Mulheres para Melhor Filme acabou pegando muita gente de surpresa, visto que a obra não apareceu em outras premiações. Entretanto, isso de maneira alguma é um demérito ou diminui sua qualidade, já que a nova adaptação do romance escrito por Louisa May Alcott é uma encantadora história de luta e amor, nos mais diversos significados possíveis dessas palavras.

Dirigido por Greta Gerwig, a fita gira em torno, essencialmente, de quatro irmãs: Josephine “Jo” March (Saoirse Ronan), Margaret “Meg” March (Emma Watson), Elizabeth “Beth” March (Eliza Scanlen) e Amy March (Florence Pugh). Filhas de Marmee March (Laura Dern), vivem suas vidas normais e sem grandes luxos enquanto os Estados Unidos passam pela Guerra da Secessão, cuja qual seu pai (Bob Odenkirk) é um dos combatentes. Enquanto aguardam o retorno do único homem da casa, as jovens, todas ligadas ao mundo artístico de alguma forma, precisam lidar com o adoecimento de Beth, que enfrenta uma doença que havia superado mas retornou ainda mais forte.

Os acontecimentos da película se desenrolam num período de sete anos, entre o final e os primeiros anos após o fim da guerra. Para contar os fatos ocorridos ao longo dos anos, a diretora opta por uma narrativa que viaja constantemente entre o presente e o passado. Ainda que logo no início do filme isso cause certa confusão, até pelo uso exagerado de cortes, fazendo a direção apresentar informações demais ao público, Gerwig não demora em acertar a mão e torna essa variação de tempo uma das principais qualidades de sua obra.

Para marcar o passado, onde a família, apesar de apreensiva pela presença do pai na guerra, vive momentos majoritariamente felizes, com as garotas cheias de energia em sua adolescência e com Beth saudável, a direção opta pelo uso de cores extremamente vibrantes tanto no figurino das personagens quanto em toda a mise-en-scène. Além disso, também há o uso bastante alto da saturação, causando uma forte impressão de vivacidade em todas as cenas.

Com relação ao presente, porém, acontece o contrário. A tela fica tomada por cores frias e tons escuros, assim como uma saturação baixa, trazendo tristeza e frieza ao filme, que ficam ainda maiores com as diversas cenas em meio às grandes quantidades de neve.

Essas idas e vindas no tempo também dialogam com os eventos da história. Por exemplo, a relação de Theodore “Laurie” Laurence (Timothée Chalamet) com as irmãs March poderia tranquilamente ser definida dessa forma. Por ter o ar galanteador e ser um jovem abastado, Laurie, mesmo tendo em Jo sua grande paixão, tenta, em maior ou menor grau, alguma investida com todas as March, com exceção de Beth.

Também é interessante perceber como cada área artística influencia na construção das personalidades de cada um. Peguemos a personagem de Ronan, por exemplo. Árdua leitora, Jo March escreve contos e romances e tem o sonho de tornar-se uma grande escritora. Dona de uma personalidade forte e até referida, após determinado incidente, como garoto, ela vai à Nova Iorque com objetivo de conseguir publicar seus escritos. No entanto, esbarra no machismo gritante da época, em que nada do que escreve é bom o suficiente, já que suas histórias possuem personagens femininas fortes e protagonistas e “isso não vende” porque “é heróico demais” e “falta romance”. Mesmo com essas adversidades, seu ímpeto questionador e irrefreável a fazem seguir em frente, demonstrando a influência dos livros em sua formação e sua enorme determinação.

Outro ponto de extrema importância na fita é a trilha sonora. Presente praticamente ao longo de toda a projeção, a composição de Alexandre Desplat é essencial para transmitir toda a emoção da narrativa. Por vezes crescendo gradativamente e em outros casos aparecendo com grande furor, Desplat transforma pequenos momentos em grandes acontecimentos, justificando por completo sua indicação para Melhor Trilha Sonora.

E impossível não comentar sobre o figurino, tão importante para um filme de época. Ainda que sejam absolutamente belas, as peças de roupas criadas por Jacqueline Durran se destacam, de fato, pelas cores. Trabalhando em perfeita harmonia com a paleta de cores, o figurino ajuda a identificar sentimentos e personalidades, como após um triste evento vemos Marmee March completamente de preto a não ser por um lenço vermelho em seu pescoço, marcando não somente seu amor pela pessoa mas também seu amoroso caráter.

Adoráveis Mulheres é uma obra visualmente encantadora e com uma ótima narrativa, que expõe as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no século XIX, criadas com o único propósito de casar, sem abrir mão do romance. Uma mescla de muita qualidade de Greta Gerwig entre a luta e o amor.

Adoráveis Mulheres (Little Women) — Estados Unidos, 2019
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Jayne Houdyshell, Chris Cooper, Meryl Streep
Duração: 135 minutos

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9 comentários

Luis Gonçalves 13 de fevereiro de 2020 - 15:33

Parabéns pela crítica. Queria compartilhar minha interpretação sobre o final do filme.

spoilers: A Jo March se torna bem sucedida e independente mas permanece solitária ao final do filme. A cena em que ela forma um par com o Friedrich acontece apenas na história que ela escreveu, pois o acordo para a publicação do livro era a protagonista se casar no final.

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Bruno [FM] 22 de janeiro de 2020 - 18:11

Logo nos primeiros segundos, tive a súbita sensação de que daria até vontade de aplaudir esse filme quando terminasse. O filme acabou. Estava errado sobre o pressentimento. Mas mesmo assim, saí do cinema muito feliz.

É uma história simples, mas capaz de tocar e jogar “ciscos nos olhos” de muita gente com essa simplicidade. O vai e vem do roteiro e a edição de cortes rápidos me deixaram um pouco perdido de início, mas quando fui me acostumar também entendi que era justamente esse ritmo que me pegaria de supetão uma hora (uma cena bem forte aquela. Não me contive. Chorei mesmo e fui obrigado a usar o guardanapo de papel da pipoca pra outro fim).

Ainda estou embasbacado como a atriz Florence Pugh rouba a cena sem nem pedir licença. Merecidíssimo a indicação como melhor atriz coadjuvante! Interpretação cômica e expressiva. Saoirce também está ótima. Emma nem precisa atuar, só de estar em cena nesse filme já deu peso e Eliza Scanlen foi a que simplesmente me emocionou em detalhes simples.

“Adoráveis Mulheres” concorre bem por fora a Melhor Filme nesse Oscar (em vista dos concorrentes), mas ainda assim é um belo filme e merece estar entre os indicados. Nessa era digital, sempre valorizei o livro de papel. Com esse filme tive a certeza de que talvez estava no caminho certo.

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Rodrigo Pereira 23 de janeiro de 2020 - 17:54

A sua descrição de ser uma história simples, mas que é capaz de emocionar é perfeita para o filme. A incômoda confusão no início torna-se pequena perto do que evidenciamos conforme os fatos vão acontecendo.

É difícil decidir qual das atuações é a melhor, não é? Tive uma sensação parecida com O Irlandês, que ainda tenho dificuldades em decidir qual é minha interpretação favorita. Um deleite completo.

De qualquer forma, é um filmaço. Não apostaria nele para vencer como Melhor Filme, mas, como bem colocou, é muito mais pela qualidade dos concorrentes do que qualquer outra coisa. Merece demais ser assistido. Abraços!

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Kleber Oliveira 22 de janeiro de 2020 - 00:48

O diálogo conturbado entre a Jo e o Laurie é simplesmente sensacional. Fiquei impressionado enquanto assistia e quando acabou fiquei sem palavras.

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Rodrigo Pereira 22 de janeiro de 2020 - 17:49

É uma relação muito bem construída, que marca claramente a personalidade de cada um até o final. A cena da declaração do Laurie é maravilhosa, chega a dar um aperto no peito hahaha. Abraços!

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Mariana Xavier Almeida 15 de janeiro de 2020 - 17:07

Esse filme é simplesmente maravilhoso, uma dos melhores filme do ano sem dúvida. Te faz rir, chorar, ter empatia com a impulsividade de alguns personagens, com os receios, a dor. Todos os personagens são ótimos e bem construidos, no seu tempo, exceto personagem do laurie que como não li o livro, fiquei meio confusa qual a dele. Pra mim quem rouba a cena é a atriz que faz a Amy, sem duvidas a personagem mais interessantes. Os monólogos da Jo são muito bem interpretados e impactantes.

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Rodrigo Pereira 15 de janeiro de 2020 - 17:54

Tive uma leve preferência pela Emma Watson. A atuação aparentemente contida dela gritava aos meus olhos sempre que aparecia em tela. Porém, todas as atuações são excelentes, sem dúvidas. O filme merece o destaque que vem tendo, é maravilhoso. Abraços!

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Juliana 15 de janeiro de 2020 - 16:11

Gostei muito da forma como a Greta Gerwig escolheu estruturar a narrativa; para mim, isso contribuiu para o bom ritmo do filme.
Achei todas as atuações ótimas e, em comparação com outras adaptações do livro, as personagens secundárias são mais bem desenvolvidas.
E também adorei o que foi feito no final, com alguns elementos metalinguísticos (é uma pena não poder comentar mais sobre o final em si, pois geraria spoilers…)

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Rodrigo Pereira 15 de janeiro de 2020 - 17:53

A estrutura narrativa escolhida também me agradou demais, fiquei encantado com o resultado. Sobre as atuações, como bem comentou, são ótimas. Difícil escolher qual se destaca mais (apesar de minha leve preferência pela interpretação da Emma Watson). E o final metalinguístico deu um tempero a mais para o filme. É, de fato, um trabalho encantador da Gerwig. Abraços!

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