Home QuadrinhosArco Crítica | Adventure Into Fear #10 a 19: Homem-Coisa [Primeira Aparição: Howard, o Pato]

Crítica | Adventure Into Fear #10 a 19: Homem-Coisa [Primeira Aparição: Howard, o Pato]

por Luiz Santiago
195 views (a partir de agosto de 2020)

Depois de sua estreia na Savage Tales #1, o Homem-Coisa passou por duas aventuras na Astonishing Tales antes de cair nas mãos Steve Gerber, o roteirista que daria verdadeiro relevo ao personagem, criando ao seu redor uma fauna de coadjuvantes marcantes e diferentões, desde os quais se destacou Howard, o Pato. Foi nas páginas da Adventure Into Fear (ou apenas Fear) que o musguento da Marvel recebeu um primeiro grande fôlego de desenvolvimento, a ponto de a editora criar, a partir dessas edições, uma revista solo para a criatura, título que contou com 24 números, publicados entre 1974 e 1975.

Na primeira edição da Fear em que apareceu, o Homem Coisa foi roteirizado por Gerry Conway, numa trama chamada Man-Thing! (Cry Monster!), onde um lado sentimental do personagem vem à tona e onde o autor nos relembra diversos elementos da história de origem desse monstro, batendo numa tecla que, para quem conhece o Monstro do Pântano, parece muito similar a coisas que já vimos antes (ou depois) em se tratando de seres dos charcos. Assim como o musguento da DC, o Homem-Coisa é inicialmente uma massa de força bruta e estranheza, mas ele guarda características próprias, como as memórias que vêm e vão, como seu toque ácido à pele humana, a incapacidade de falar e a capacidade de ler expressões e sentir emoções das pessoas, especialmente as negativas.

A maior diferença entre os dois personagens, porém, é que o Homem-Coisa desde a sua chegada à Fear, esteve inserido na fantasia, ao passo que o personagem similar da DC sempre esteve ligado ao terror e, posteriormente, à ficção científica. É claro que a maior parte das tramas aqui servem como uma espécie de construção de Universo e de entendimento geral das ações do protagonista, sem muita coisa sólida sendo verdadeiramente erguida. A pequena exceção à essa impressão geral é a criação de Jennifer Kale na edição #11, já pela pena de Steve Gerber, que escreve todo o restante das aparições do HC nesse título. A princípio, temos a impressão que se trata apenas de uma aventura boba, de uma garota que queria se aventurar pelo ramo da magia — e para falar a verdade, a história não é tão boa assim. Porém, o autor vai costurando a presença de Jennifer na vida do Homem-Coisa, fazendo viagens pelo Multiverso e criando pouco a pouco algo a que o leitor se apega e espera maiores informações a respeito.

No meio do caminho, alguns dramas de forte caráter social aparecem, e embora eles sejam, na catártica edição #19, relacionados a todo um enredo de fantasia onde aparecem uma porção de territórios que aparentemente passam por uma crise, possuem força o bastante para nos fazer pensar sobre uma porção de diferenças ideológicas, sociais e econômicas dos Estados Unidos nos anos 1970, isso sem contar o lado sombrio do comportamento humano que aparece representado inúmeras vezes. Ao cabo, um certo vilão está fazendo com que criaturas, pessoas, demônios e toda a sorte de seres viventes se transportem de uma dimensão para outra, causando, às vezes, cenários cômicos e impagáveis (como no caso da vinda de Howard, o Pato, para a Terra), mas em outros, implacáveis destruições. É nesse recorte que aparecem a dimensão de Katharta, o Reino de Sominus, que é governado por Thog (basicamente, uma versão do Inferno), o Nexus de Todas as Realidades e a antiga Terra-47920 (posteriormente fundida com a Terra-791021, criando o que conhecemos na Marvel como Duckworld).

O que a gente ainda sente falta aqui é de algo mais marcante para o Homem-Coisa como personagem. Penso que é um vício de percepção esperar algo mais racional, ativo, falante, relacionável de um protagonista, mas as coisas são como são. Tanto que Gerber precisou criar fortes coadjuvantes para tornar mais interessante o bloco com o protagonista da revista… que coisa, não é mesmo? Mas isso não significa que estamos diante de um personagem ruim. Ele só é paradão demais e o fato de não falar e nem pensar, com aqueles solilóquios mentais que às vezes encontramos em muitos personagens nã-falantes, faz com que sua participação seja apenas marcada pela força bruta aliada a uma narração existencialista, filosófica e, às vezes, sentimental, tudo isso embrulhado num Universo de fantasia que se torna cada vez mais instigante. Não é de se espantar que a Marvel tenha dado um revista solo para esse musguento, concordam?

Adventure Into Fear #10 a 19: Man-Thing (EUA, outubro de 1972 a dezembro de 1973)
No Brasil:
Superaventuras Marvel n°17, 18, 23, 25, 26 – (Editora Abril, 1983 e 1984) / Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel – Clássicos n°29 (Editora Salvat, 2017).
Roteiro: Gerry Conway (apenas edição #10) e Steve Gerber (edições #11 a 19)
Arte: Howard Chaykin, Rich Buckler, Jim Starlin, Val Mayerik
Arte-final: Gray Morrow, Jim Mooney, Frank Bolle, Chic Stone, Frank McLaughlin, Sal Trapani
Cores: Ben Hunt, Stan Goldberg, Petra Goldberg, George Roussos, Linda Lessmann
Letras: Artie Simek, Jean Izzo, John Costanza
Capas: Gray Morrow, Neal Adams, Jim Starlin, Frank Giacoia, Rich Buckler, Alan Weiss, Gaspar Saladino, Frank Brunner, Glynis Wein, John Romita, Gil Kane, Ernie Chan
Editoria: Roy Thomas
8 a 20 páginas (cada edição)

Você Também pode curtir

1 comentário

planocritico 15 de abril de 2021 - 04:21

Nossa… Eu me lembro de ter lido isso e não ter entendido muita coisa. Esse Gerber era muito doido!

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais