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Crítica | África Fantástica

Sonhos ancestrais.

por Luiz Santiago
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Raros são os quadrinistas que pegam os sonhos e os transformam em temas políticos sem cair no psicologismo barato ou no escapismo. Daniël Hugo, um artista sul-africano que eu não conhecia até a leitura desta antologia, está entre esses autores que descobriram na experiência onírica a matéria-prima para as narrativas onde a fantasia também serve para alfinetar ideologias e onde a psicodelia abre caminhos para reflexões sobre autoritarismo, guerra, existência e resistência. Hugo formou-se em design gráfico pelo Cape Technicon em 1996, e enquanto trabalhava nas Ilhas Maurício, entre 97 e 98, preencheu alguns cadernos com anotações de sonhos extremamente vívidos que originariam o Onironauta, personagem que protagoniza seis histórias dessa coletânea: A Estátua, Olho, Ao Viajar…, Equilibrium, Portal Relativo e Clivagem, publicadas originalmente em preto e branco nas revistas Igubu Zero e Igubu Helix do coletivo Igubu Comics, que Hugo integrou em 2001 após retornar à Cidade do Cabo. África Fantástica, lançado no Brasil pela Skript em 2022, com tradução do historiador e africanista Márcio Rodrigues, junta essas narrativas oníricas ao lado de Perspectiva (2003), Forças Sombrias (2011), Gênese (2013) e O Suvenir (2014), mostrando a evolução de um artista que partiu da influência de Moebius e chegou à sua própria estética, enraizada nas especificidades culturais, políticas e geográficas da África do Sul contemporânea.

A série do Onironauta tem total inspiração visual em Jean Giraud. O protagonista se aventura por paisagens desérticas, horizontes infinitos e indivíduos solitários em missões abstratas, mas Hugo reforça o tom político em seus enredos, não deixando que fique apenas no campo das hipóteses surreais. Clivagem, concebida em 2001, quando Hugo se tornou politicamente mais consciente e desenvolveu um olhar de esquerda, coincidindo com os atentados de 11 de setembro e o início da Guerra ao Terror de Bush, traz uma rejeição do autoritarismo, do patriarcado e das tendências fascistas semelhantes às da guerra corrente, levando o autor a transformar o Onironauta em mulher e observar a realidade sob outro filtro. A narrativa, então aparentemente escapista, explora um aspecto da violência política contemporânea marcado pela permanência de ideias extremistas (“a cadela do fascismo está sempre no cio“, como já dizia Brecht) e suas reconfigurações a cada novo tempo. Perspectiva, parceria com Moray Rhoda, publicada no zine Clockworx, em 2003, radicaliza essa abordagem, construindo uma meditação visual sobre a natureza da guerra e a formação de mentes e vidas, quase uma nova tomada para as consequências práticas de Clivagem. Na coletânea, a excelente colorização digital expandiu as sugestões críticas da arte em preto e branco, melhorando um trabalho que já era de alto nível, e melhor: sem descaracterizar a proposta, como muitas colorizações digitais já fizeram por aí.

Forças Sombrias, criada em 2011 com Moray Rhoda e Christo van Wyk para a Velocity Graphic Anthology, junta mitologia greco-romana, ficção científica e Lovecraft numa aventura que bagunça as nossas expectativas pela mistura de referências temporais e culturais. Gênese, concebida em 2013 com Jayson Geland e publicada na Velocity #4, mostra todos os elementos característicos do sci-fi a partir de um olhar africano, embarcando em discussões sobre afrofuturismo e fazendo questão de cercar a narrativa de elementos anticoloniais, tanto num olhar interno quanto externo à trama. Já a estupenda O Suvenir, a melhor trama dessa coletânea, escrita por Geland em 2014 e desenhada por Hugo, se ancora na lenda popular da Cidade do Cabo sobre o pirata Van Hunks e o Diabo apostando quem fuma mais, transformando conto de origem sobre colonização neerlandesa numa releitura crítica das violências, pactos e decisões fundacionais. É uma história com uma arte diferente das que Hugo apresentou antes, com estrutura de quadros e letras que lembram algo das “Grandes Navegações” e uma “temporalidade impossível“, criando um cenário propositalmente anacrônico e narrativamente perfeito para o tipo de história que está sendo contada e o tipo de personagens que fazem parte dela, do imparável Lúcifer ao gigante Adamastor.

A aplaudível tradução de Márcio Rodrigues parte do inglês da África do Sul, língua comercial falada por menos de 10% da população, que é uma variante cheia de expressões vindas do holandês, africâner e línguas africanas locais que não poderiam ser ignoradas. Rodrigues se preocupou em verdadeiramente entender a alma do projeto, fazendo da tradução um trabalho etnográfico, consultando obras literárias de peso e procurando verter para o português com o mesmo ímpeto e robustez aquilo que o original expunha nas narrações, balões e títulos. África Fantástica é uma das raras publicações de quadrinhos africanos que receberam edição aqui no Brasil, um feito que já traz consigo inúmeros significados, falando muito sobre o nosso mercado. O excelente projeto é a prova de que a ficção especulativa africana tem densidade filosófica, força política e sofisticação formal capazes de mudar a nossa compreensão sobre o que os quadrinhos podem dizer, quando estão livres das limitações impostas por hegemonias culturais que, durante décadas, ignoraram tudo que não vinha dos mercados quadrinísticos da Europa, dos Estados Unidos e do Japão.

África Fantástica (África do Sul, 2000 a 2014)
Histórias originais:
The Statue (2000), Eye (2000), When Travelling (2001), Equilibrium (2001), A Relative Portal (2001), Split Break (2001), Perspektief (2003), Dark Forces (2011), Genesis (2013) e The Souvenir (2014).
Roteiro:
Daniël Hugo, Moray, Christo Van Wyk, Amanda Cooper, Grant Muller, Jayson Geland
Arte: Daniël Hugo
Editora no Brasil: Skript Editora
Tradução: Márcio Rodrigues
104 páginas

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