Crítica | África Sobre o Sena e Cidade de Contrastes

O processo descolonizador da atual República do Senegal começou a ganhar força, por pressões internas e externas, ainda no início dos anos 1950, resultando no primeiro passo para a liberdade em 1958, com a elevação de seu status político a República Autônoma. Em 4 de abril de 1959, a nação juntou suas fronteiras com o então chamado Sudão Francês (atual Mali) e formou um país chamado Federação do Mali, que se tornou independente em 20 junho de 1960 (importante dizer que em abril, o território que era do Senegal tinha conquistado sua independência da França, sendo esta conquista de junho a marca independente para o território do atual Mali e, claro, para a Federação), dissolvendo-se em 20 de agosto do mesmo ano. Plano Crítico.

Aqui, trago dois filmes de destaque produzidos no Senegal por cineastas nativos ou ligados ao país, com foco no pioneirismo e tratamento de questões próprias de seu povo (mais especificidades sobre isso, ler os textos abaixo).
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África Sobre o Sena

Afrique sur Seine

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As tags de pioneirismo atribuídas a este curta-metragem de Mamadou Sarr e Paulin Vieyra são bem importantes, e falam das barreiras de “primeiro filme” que ele rompeu, tanto por apresentar um olhar de artistas africanos sobre o seu povo (mesmo que fora de seu continente) — daí a ideia de primeiro “Cinema Africano” — quanto de colocar uma marca de discussão sobre o exílio de jovens do Continente-Mãe para a terra dos colonizadores, nesse caso, a França.

Começamos aqui com algumas tomadas de crianças brincando na terra e no rio, dando conta de uma memória de infância no país de origem do narrador (Senegal). O tom poético do filme encerra-se nesse momento da obra, e daí saímos para um tratamento mais ambíguo do roteiro, ao olhar o momento futuro dessas mesmas crianças, que possivelmente buscarão melhores condições de vida, educação, talvez status e oportunidades na França. Num primeiro momento, a passagem é interessante e se apega a uma exposição da presença negra em solo francês. As condições sociais, agora dentro do capitalismo central, são tratadas com a devida distinção étnica: embora estivessem nas mesmas condições que alguns pobres estudantes brancos da metrópole, os imigrantes negros se viam numa corrente de privações que, no cumulativo, tornavam suas vidas cada vez mais difíceis.

O problema é que essa abordagem de trazer opostos à tona, falar (sem teorizar) sobre privilégios e colocar a questão da identidade dos indivíduos em cena simplesmente se perde no meio de situações cotidianas dos jovens de Paris. O filme segue, de sua metade para o final, como um documento histórico simples, um instantâneo da capital francesa nos anos 1950, mas agora sem o foco central que os diretores tinham pretendido desde cedo. África Sobre o Sena é de fato um marco importante e mesmo que se conteste as tags de “primeiro filme” disso ou daquilo, o fato é que a obra é mesmo uma das primeiras realizações escritas e dirigidas por africanos a falar sobre as mudanças que a colonização trouxe não só para as novas gerações, mas também para uma integração contrastante dessas populações com o Velho Continente.

África Sobre o Sena (Afrique sur Seine) — Senegal, 1955
Direção: Mamadou Sarr, Paulin Vieyra
Roteiro: Mamadou Sarr, Paulin Vieyra
Elenco: Mamadou Sarr, Paulin Vieyra, Marpessa Dawn, Annette M’Baye
Duração: 22 min.

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Cidade de Contrastes

Contras’ City

plano crítico Cidade de Contrastes (Contras' City)

Uma das vozes mais criativas do cinema africano como um todo, Djibril Diop Mambéty não teve uma larga filmografia (ele assinou apenas sete filmes, um curta e seis longas), mas expôs com bastante inteligência os dilemas identitários, as condições sociais reforçadas pelo novo tipo de colonialismo (o econômico) e as marcas deixadas no povo senegalês e em todo o território africano previamente dominado, lugares que, por influências externas, mantiveram sangrentas lutas territoriais, religiosas, étnicas e por domínio territorial com alguma riqueza mineral ou animal, como petróleo, diamantes e marfim, por exemplo.

O diretor faz aqui um misto de documentário e mocumentário, mostrando a cidade de Dakar (capital e maior cidade do Senegal) enquanto uma pequena costura narrativa pode ser ouvida: a conversa entre um senegalês (o diretor Djibril Diop Mambéty) e uma francesa (Inge Hirschnitz), onde ela se espanta com a semelhança arquitetônica de alguns lugares da cidade, perguntando diversas vezes “É Paris?!“, ao passo que ele responde com bastante ironia e acidez, sempre dando conta de um vício do colonizador impregnado nos mais diversos grupos sociais, culturas e organizações da nação colonizada.

Representando uma voz um tanto deslocada do tempo, um anacronismo proposital; marcando a estranheza daquele que observa, registra e opina sobre uma realidade, o diretor e sua equipe circula pela cidade em uma carroça puxada a cavalo, filmando prédios do governo, hotéis, teatro, igreja, muçulmanos fazendo suas preces na calçada e mercados populares, no estilo de grandes feiras, espalhados pela periferia. Através de uma simples rota geográfica e um pequeno recorte do dia, vemos o humor crítico apontar para o grande contexto cultural do lugar, dando uma maior complexidade para a análise ou definição de uma identidade local.

Para o povo comum, a vida segue a despeito dos muitos sofrimentos ou imposição dos hábitos de seus algozes europeus, vizinhos ou internos. O contraste representado neste meio-documentário é discutido, portanto, na vivência das diferentes classes, na percepção dos intelectuais e principalmente através de uma ressignificação do que é “Ser Senegalês” (pode-se abrir o campo aí para outras nações e continentes colonizados) via discussão artística. O cinema de um país dando os seus primeiros passos e sabendo reconhecer-se ou negar-se no próprio espelho. Isso que faz de Contras’ City um excelente registro irônico, cômico e inteligente de seu tempo, além de trazer uma aplaudível edição de som e uma trilha sonora excelente. Não é à toa que se tornou um filme referencial. E vejam que era só o primeiro projeto do diretor Djibril Diop Mambéty!

Cidade de Contrastes (Contras’ City) — Senegal, 1969
Direção: Djibril Diop Mambéty
Roteiro: Djibril Diop Mambéty
Elenco: Djibril Diop Mambéty, Inge Hirschnitz
Duração: 22 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.