Crítica | “After Hours” – The Weeknd

Abel Tesfaye, AKA The Weeknd, é uma daquelas figuras do R&B que surgem com uma inevitável e esdrúxula comparação de continuar o legado de Michael Jackson. Até aqui, The Weeknd seguiu um caminho de três mixtapes aclamadas, mas ainda obscuras, seguido de um debut (Kiss Land), um álbum que alçou seu nome ao topo da Billboard (Beauty Behind Madness) e uma obra que ganhou parceria até com os robôs do Daft Punk (Starboy). Desde 2016, de material inédito se restringiu ao bom e esquecido EP My Dear Melancholy. Entretanto, era chamado para participações em quase todo grande álbum pop, vindo de artistas como Beyoncé, Travis Scott, Kendrick Lamar e Nicki Minaj. Dito isso, embora comercialmente Abel tenha se provado, ainda era esperado um trabalho que justificasse referências a grandes figuras do escalão do pop. Talvez isso tenha chegado com After Hours, seu novo álbum de estúdio.

Toda essência que permeia a carreira de Abel segue firme em seu novo trabalho: um R&B que abusa de sensualidade e romantismo, incorporando um forte tom pop calcado em beats e voltado para as pistas. Aqui, no entanto, essa sua receita é brilhantemente aprimorada com densas camadas de synths sem perder seu apelo pop, fazendo uso de um belo contraste entre o melancólico e o dançante. Tudo isso com uma produção absolutamente magistral. Cada beat e synth, junto aos ótimos vocais de The Weeknd, possuem dinamicidade e textura própria, sendo esse um grande mérito do artista, que produziu todas as faixas em conjunto com um competente time de produtores montado por ele (Metro Boomin, Max Martin, Oscar Holter,  entre outros).

Veja como os teclados à la A-Ha de Blinding Lights se ressaltam e elevam a canção a um novo nível em conjunto com a veloz base da faixa. Note como a completa quebra de batida de Alone Again é catártica e feita com maestria, ou como os ótimos synths de aura melancólica e quase piegas de Hardest To Love se distinguem de tudo da obra sem soarem deslocados. A própria canção homônima muito provavelmente é candidata a magnum opus da carreira de The Weeknd: em seus 6 minutos é paciente, minunciosa e progride de forma espetacular como uma deliciosa refeição, recheada de synths e mudanças de beats, sabendo fazer um uso brilhante dos espaços entre as batidas (algo que poucos sabem fazer) e da bela voz de Abel.

Um fato interessante do passado recente de The Weeknd parece ter influências no novo trabalho: sua breve participação no excelente longa Joias Brutas, dos irmãos Safdie. A começar por toda escolha estética e temática dos videoclipes, acompanhando um Abel Tesfaye autodestrutivo e louco que se assemelha bastante ao papel de Adam Sandler no filme. Segundo, pela sonoridade cinemática incorporada ao álbum. Repleto de synths colossais e atmosféricos, After Hours possui influência de trilhas sonoras e imprime uma narrativa um tanto conceitual à obra, deixando com cara de álbum em seu conceito mais artístico e clássico. O próprio excelente compositor de Joias Brutas, Daniel Lopatin (conhecido pelo alias Oneohtrix Point Never), é um dos produtores do disco, presente nos synths cristalinos e espaciais das ótimas Repeat After Me (que também conta com Kevin Parker) e Until I Bleed Out.

After Hours faz jus ao título. Estamos diante de uma coleção de faixas que poderiam muito bem embalar qualquer fim de festa, pouco antes das portas se fecharem, com uma aura dançante e uma certa melancolia quase contemplativa. Mesmo com uma forte influência oitentista, é impressionante como a produção do álbum soa extremamente moderna, atual e até futurista – quase nunca parecendo um apelo a sonoridade retrô, salvo por uma ou outra exceção de faixa. O feito de The Weeknd neste trabalho é digno de aplausos, construindo uma obra de produção extremamente primorosa. A julgar por esse álbum – maduro, de intensa personalidade e corajoso – talvez, afinal, possamos colocá-lo entre os grandes do R&B/pop.

Aumenta!: After Hours
Diminui!:

After Hours
Artista: The Weeknd
País: Canadá
Lançamento: 20 de março de 2020
Gravadora: Republic Records
Estilo: R&B, Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.