Crítica | After Life – 1ª Temporada

Depois de Derek, Ricky Gervais aprofunda sua parceria com o Netflix com After Life, uma série que faz o ator, roteirista, diretor e produtor voltar ao tipo de personagem que o notabilizou: o babaca de bom coração. E o resultado, em apenas seis curtos episódios, é capaz de levar o espectador da risada compulsiva de causar dores estomacais ao choro copioso e descontrolado (para quem chora, claro, o que obviamente não é o meu caso), em uma daquelas obras que fazem tudo aquilo que normalmente não dá certo funcionar maravilhosamente bem.

E o que a série usa com abundância que deveria levar a uma avaliação baixa? Clichês, textos expositivos e situações repetitivas. Mas, como sempre defendo, clichês só são ruins quando jogados na de qualquer jeito na narrativa, textos expositivos só não funcionam quando subestimam o espectador e situações repetitivas só atrapalham a fluidez se elas tiverem um fim em si mesmo. Gervais tem perfeita consciência disso aqui e manobra todos esses ingredientes comumente destinados a resultar em pratos insossos em uma bela refeição de encher os olhos e satisfazer a alma.

A premissa é enganosamente simples. Gervais vive Tony, um articulista de um jornal gratuito de Tambury, uma cidadezinha onde nada acontece na Inglaterra, que perde sua esposa com quem foi casado por 25 anos. Isso o deixa deprimido e suicida, com Brandy, a cadela de sua mulher (sem trocadilho), sendo a razão (ou a desculpa) pela qual ele não segue em frente com seus pensamentos finalistas diários. O resultado disso é que ele conscientemente decide falar aquilo que pensa, doa a quem doer, transformando-se no tal babaca cujo bom coração permanece visível todo o tempo, ainda que só conheçamos a “outra” versão de Tony por intermédio de flashbacks e filmagens de sua esposa que ele assiste no computador. Em outras palavras, para lidar com a dor, ele decide infligir dor.

E causar dor com a palavra e com gestos, como muitos sabem, pode marcar uma vida, afetando profundamente a vítima. É isso que é, essencialmente, o bullying e o assédio e não é à toa que essas questões têm ganhado mais e mais relevância em nosso dia-a-dia. E é justamente por essa razão que a premissa simplista torna-se automaticamente mais complexa, pois Gervais nos pede para aceitar a comicidade de seu personagem que somente existe às custas dos outros. É o cunhado gente boa e editor-chefe do jornal onde trabalha que é explorado por todos, é o colega fora de peso e comilão que senta à sua frente e é alvo inclemente de piadas, é a responsável pela publicidade com quem ele cultiva uma inimizade destruidora, é o carteiro preguiçoso que ele insiste que faça seu trabalho e assim por diante. Ninguém fica incólume e o estilo de humor de Gervais – que eu particularmente adoro, por ser carregado de sarcasmo e críticas sociais, como um South Park live-action – é lancinante, que corta com força e gosto todas as bolas levantadas, transitando pelos mais diversos assuntos, de obesidade à religião, passando por vício em drogas, prostituição, bullying e, claro, a morte.

Todos os personagens coadjuvantes orbitam ao redor de Tony, tendo literalmente suas existências justificadas a partir do e em relação ao protagonista, sem arcos de desenvolvimento próprios, e servindo, primordialmente, como conduítes explícitos para nos informar, de diversas maneiras diferentes, que ele é sim um cara de bom coração. A repetição que levantei acima vem principalmente daí, mas há um ritmo e um propósito para isso. A vida em Tambury é de uma monotonia inacreditável. Nessa bela cidadezinha de praças e parques limpíssimos e casinhas de tijolo que parecem de Playmobil ou Lego, o dia-a-dia de todos é trivial, repetitivo e pacato. Nada acontece e não é mesmo para acontecer. Reparem, por exemplo, como, estruturalmente, todos os episódios começam pela manhã e acabam ao final do dia, com a câmera acompanhando o ritual diário de Tony: ele acorda, se arruma, alimenta a cadela, passa pela escola do sobrinho, visita seu pai com Alzheimer (David Bradley em uma atuação incrível), chega no trabalho, sai de tarde para visitar o túmulo da esposa, conversa com Anne (Penelope Wilton em outra notável performance), uma sábia viúva que também todo dia visita o túmulo de seu marido e assim por diante, com pequenas variações. Rotina é repetição e, ainda que isso seja mais particularmente detectável ali em Tambury, todos nós podemos nos relacionar com ela em maior ou menor grau. E essa repetição, portanto, justifica e explica a porta giratória temática, a ênfase no “você não tem justificativa para agir como age, mas mesmo assim é um cara bacana lá no fundo” que é a chave para solucionar – na verdade, o verbo mais apropriado talvez seja aceitar – o problema que Ricky Gervais nos apresenta: a vida com ela é. E, nessa toada, às vezes, o texto expositivo vem junto, ainda que ele erre a mão aqui e ali, como no caso da jovem recém-contratada pelo jornal e seu discurso motivacional emocionado para Tony no último episódio.

Temos escolhas. E nossas escolhas afetam todos à nossa volta mesmo que achemos que não. Quando alguém acorda de manhã zangado e briga com a primeira pessoa em quem tem o azar de esbarrar, ela pode estar catalisando eventos que reverberam de maneiras imprevisíveis, o “efeito borboleta” do cotidiano. Não que tenhamos que ser anjos toda hora, mas ter esse tipo de pensamento lá no fundo de nossas mentes talvez contribua para aquele clichê utópico de um tal de mundo melhor. Gervais, ao criar Tony, não cria um viúvo que está com raiva da vida. Ele cria um personagem muito humano que poderia ser qualquer um de nós em um dia de fúria.

Mas, não se enganem, After Life é uma comédia. De humor negro, mas sem dúvida uma comédia e há momentos genuinamente hilários, alguns que chegaram a me forçar a pausar o episódio para parar de rir sem perder muita coisa. São risadas que, sem dúvida vêm às custas de muitas situações difíceis, mas elas desopilam o fígado, limpam o palato e os canais lacrimais para momentos que, em contraste, nos fazem parar para refletir e para absorver as mensagens. Se a vida artificialmente mais do que perfeita de Tony e sua esposa que conhecemos em fragmentos empresta uma camada leve de conto-de-fadas com a função única de contrastar com o presente niilista do personagem, isso é equilibrado com diálogos ferinos que nos fazem rir mesmo quando não é para rirmos e subtramas pesadas que fazem o queixo cair como a do entregador de jornal viciado que Tony usa como fornecedor de drogas.

After Life, portanto, usa a morte para nos falar da vida e Tony é o nosso avatar exagerado e inflado para que vejamos com mais clareza que somos apenas uma peça em um quebra-cabeças complexo. E um quebra-cabeças não fica completo sem que todas as peças sejam encaixadas, mas, para que isso aconteça, precisamos compreender o quadro completo e perceber que a vida é mais do que só a nossa vida. Sim, After Life é uma comédia, mas uma comédia da vida que não trata a vida como uma comédia.

After Life (Idem, Reino Unido – 08 de março de 2019)
Direção: Ricky Gervais
Roteiro: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Tom Basden, Tony Way, Diane Morgan, Mandeep Dhillon, Ashley Jensen, David Bradley, Kerry Godliman, Paul Kaye, Tim Plester, Joe Wilkinson, Tommy Finnegan, Thomas Bastable, Penelope Wilton, David Earl, Jo Hartley, Roisin Conaty
Duração: 25 a 31 min. (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.