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Crítica | Aftersun

Esquadrinhando as memórias.

por Felipe Oliveira
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Embora soe aparentemente simples em sua abertura, o debut diretorial — e também como roteirista — de Charlotte Wells num longa-metragem detém uma gama de detalhes em fragmentos (atentar para o reflexo do frame paralisado, do vídeo registrado da câmera miniDV, é exemplo), o que significa que cada pedaço carrega um elemento chave para como a narrativa se apresenta e se estilhaça, para remontarmos, juntos a Sophie, o quebra-cabeça entre suas memórias e nos vídeos de uma filmadora sobre as férias que passou na Turquia anos atrás com seu pai. Navegar pelo passado é uma tarefa que por si só desafia as lembranças que conhecemos, e nesse forte e imensurável filme de estreia, Wells faz com que passear por essas recordações seja uma experiência inesquecível.

É interessante perceber como o filme nos coloca na perspectiva de Sophie, vivida pela estreante Frankie Corio, que marca com sua ágil performance. Seja nos planos fechados na cinematografia de Gregory Oke em Corio ou em como a câmera capta a observação da jovem enquanto se dirige para o hotel reservado pelo pai Calum (Paul Mescal), há um cuidado na construção das cenas para transmitir esse prisma em torno da personagem. Outro exemplo é na sequência em que Calum a põe para dormir, vai para a sacada do quarto e fecha a porta de correr de vidro atrás de si para que a fumaça do cigarro não incomode; ao tempo em que a câmera permanece no quarto escuro, num enquadramento que mais fixa na garota deitada, essa é uma das formas representadas no longa sobre como os universos de pai e filha às vezes eram desconhecidos, ao menos em como Calum isolava e omitia suas questões internas da paternidade que queria oferecer.

Talvez seja muito fácil se pegar cativado e apaixonado pela naturalidade com que o filme relata o cotidiano de férias entre eles, e Mescal e Corio formam uma dupla absurda pela sinceridade com que expressam seus personagens, o que faz esquecer que estamos vendo um filme, mas, no entanto, completamente imersos num diário de memórias que se permitiu ser reproduzido, compartilhado. E nessa beleza, ainda não era sabido o que a versão adulta de Sophie, Celia Rowlson-Hall, procurava ao acessar suas recordações, aliás, sequer alguém esquadrinha, muito porque a narrativa se sustenta em meio a infinidade de momentos de uma interminável férias de verão. Porém, é justamente quando a trama começa a ganhar novas nuances, essas sinalizadas na performance de Mescal, é que a longa fita de memórias nos obriga a buscar nos detalhes o que se perdeu entre os lindos versos da amizade entre pai e filha, os mesmos detalhes que agora Sophie rebusca. 

Enquanto Aftersun detém um recorte de uma história coming of age sobre a jovem Sophie, também não deixa esquecer que é um filme sobre cumplicidade, afeto e perda. Há uma carga de sensibilidade esmagadora nos diálogos que denota o estado de espírito e psicológico desses personagens em vários momentos, como quando Sophie comenta que de repente se sentiu triste mesmo tendo um dia proveitoso e alegre, ali foi um trecho em que Calum evita comentar qualquer coisa a respeito pois teria que falar de si, e esse era um lado seu que não conseguiria encarar, não queria externar a medida que tentava desempenhar uma paternidade exemplar para a filha. E ela sente isso, o que é notório nos seus esforços de usar as filmagens das férias para criar um cenário de descontração em que finalmente o pai conseguiria conversar, ou quando pergunta se poderiam viver sempre viajando e passando a estadia em hotéis, já que ter essa dinâmica parecia que os bons momentos poderiam ser duradouros, para sempre. 

Há uma bela poesia espelhada no visual quente e acolhedor de verão, o que acompanhava os momentos mais leves das férias, mas que parece atingir um tom denso e melancólico quando a noite surge, o que expressa traços mais sombrios, principalmente para Calum. São exemplos de como a composição estética do filme é usada como formas representativas de falar sobre seu escopo psicológico sem entrar num forro dramático e didático para uma história simples, mas que conta com uma abordagem inteligente e única de Wells. A maneira como a diretora bate o martelo para seu domínio narrativo aqui é louvável e fenomenal, pois Aftersun atinge um ápice quase em desconstrução de quando os estilhaços entre passado e presente, e os lampejos quase oníricos se tornam uma única coisa em seu desfecho.

É intenso e arrebatador como Wells encerra seu filme com uma balada alegórica e emocionante em luzes estroboscópicas; o paralelo entre as danças, o movimento, a música sobre proposta e o jogo de enquadramentos representando a próxima relação entre pai e filha se distanciar com o tempo, pela indiferença, pelo que não foi dito. A busca por sinais, por um sentido além do que Sophia já sabia, pode terminar sem respostas, o que indica que essa viagem em memórias se deu no exato momento da perda, na tentativa de ter a aceitação, ou nada disso foi sobre querer entender as coisas, e sim sobre o que encontramos quando paramos para esquadrinhar nossas lembranças: alegrias, descobertas, pequenos e grandes momentos, os medos, as inseguranças, o que se foi vivido e perdido. Em linhas gerais, Aftersun é um daqueles exemplos de filmes que marcam e transmitem uma sensação especial, que continua durando mesmo após o fim.

Aftersun (Reino Unido – EUA, 2022)
Direção: Charlotte Wells
Roteiro: Charlotte Wells
Elenco: Paul Mescal, Frankie Corio, Celia Rowlson-Hall, Brooklyn Toulson, Ruby Thompson
Duração: 101 min

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