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Crítica | Os Vampiros da Miséria (Agarrando Pueblo)

por Frederico Franco
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Os Vampiros da Miséria (Carlos Mayolo, Luis Ospina, 1977), é um pseudo-documentário colombiano que versa sobre dois cineastas que buscam, pelas ruas de Cali e Bogotá, captar a pobreza do país. Durante o percurso, os dois criam inúmeras situações fictícias para dar mais veracidade ao filme. Assim, diversas situações absurdas são desenvolvidas para valorizar o trabalho dos cineastas.

Inicialmente, a obra suscita um importante questionamento para o espectador, que é levado até o fim: é possível retratar a miséria sem impôr um olhar de superioridade e/ou dominância? Ou todas as relações humanas são baseadas em relações de dominância? Durante o filme, percebe-se que a relação de domínio entre os personagens é estabelecida, basicamente, pela presença da câmera – como se fosse um elemento de superioridade. Em um debate com um dos entrevistados, os cineastas afirmam estar apenas captando a verdade, como se não houvesse nenhuma subjetividade naquilo que é gravado. 

Indo além, o debate anterior traz mais perguntas sobre o formato de documentário: todos as obras incluídas neste formato captam a essência de algo? É, certamente, uma pergunta que não possui resposta imediata. Porém, há de se pensar pela ótica de famosos autores que discorreram sobre a questão. Jean-Claude Carriére, exemplificando, afirmou em A Linguagem Secreta do Cinema, que a própria escolha de posições de câmeras e entrevistados já compõem um arco de subjetividade. A nível imagético, pode-se citar autores como Immanuel Kant, Michel Foucault ou até mesmo Goethe (em Os Sofrimentos do jovem Werther). Tais pensadores acreditavam que uma imagem propriamente dita, seja ela produzida por uma película ou por uma tela, não é capaz de captar a essência ou, usando uma linguagem estética, a experiência estética da vida.

Evidentemente, a obra ainda é capaz de fazer um estudo sobre o espectador. Estaríamos nós, espectadores, condicionados a interpretar os documentários como uma verdade? Um exemplo como This is Spinal Tap, de Rob Reiner, é uma prova disso, já que inúmeras pessoas acabaram acreditando que este famoso mockumentary era, de fato, um documentário. Assim, por mais absurdas que fossem as situações criadas pelo diretor do filme, os espectadores acabam crendo cegamente que tudo aquilo que se passa na tela é verídico. A passividade do espectador é um argumento dos diretores de Agarrando Pueblo, já que criam momentos avulsos naquela realidade e, em sua concepção, o público não será capaz de duvidar daquilo que é visto. 

Conclui-se, portanto, que Agarrando Pueblo é, além de um estudo a respeito de relações de dominação sociais, um ensaio sobre os limites do documentário e sua interação com a função espectatorial.

Os Vampiros da Miséria (Agarrando pueblo) – Colômbia, 1977
Direção: Carlos Mayolo, Luis Ospina
Roteiro: Carlos Mayolo
Elenco: Luis Alfonso Londoño, Carlos Mayolo, Ramiro Arbeláez, Eduardo Carvajal, Javier Villa, Fabián Ramirez, Astrid Orozco, Jaime Ceballos
Duração: 29 min.

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