Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 6X06: Inescapable

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É por causa de episódios como Inescapable que eu assisto Agents of S.H.I.E.L.D. Nenhuma outra série mais mainstream baseada em quadrinhos consegue ser tão criativa e fazer tanto com tão pouco. E a reunião da melhor dupla da série em uma estrutura de “espaço confinado” que ao mesmo tempo não é tão confinado assim e que se utiliza de basicamente tudo o que de mais importante aconteceu nas últimas temporadas em uma viagem para dentro da mente dos personagens é a prova de que AoS tem muito mais a oferecer do que episódios cômicos bobinhos.

O aprisionamento de Fitz e Simmons pelos Chronicoms para que eles desenvolvessem uma máquina do tempo era um conceito fraco, artificial, potencialmente apressado e que poderia resultar em episódios maniqueístas, de saída fácil. Era esse meu receio, muito sinceramente, considerando o tipo de abordagem que a temporada vinha tendo até agora. Mas, no momento em que ficou estabelecido que a prisão da dupla era uma prisão mental, meu medo começou a se dissipar e ele desapareceu por completo quando notei que o episódio inteiro giraria em torno dos dois, dando a Elizabeth Henstridge e Iain De Caestecker o palco que merecem e que já provaram mais de uma vez saberem utilizar como ninguém.

Depois que começa o mergulho na mente “compartilhada” dos dois (ótimo uso do conceito de que os dois são um só!), com a visita de Fitz a uma Simmons criança (Ava Mierelle) e, em seguida, com um excelente “flashback sem ser flashback” que nos leva aos momentos seguintes da morte do “outro” Fitz, espaço narrativo que não havia sido preenchido ainda, com direito a Coulson pré-Taiti, Mack de luto e Yo-Yo decidindo ficar na Terra, o episódio já mostra toda sua força e toda a eficiência do roteiro de DJ Doyle, veterano na série e responsável por vários excelentes capítulos. A costura narrativa é invisível, levando-nos a passear, ou melhor, bailar, pelo passado recente tendo a dupla apaixonada como cicerone, transformando texto expositivo em ouro audiovisual, como poucas séries se dão ao trabalho de fazer.

Mas Doyle não para por aí e oferece outras camadas. A primeira delas é a introdução do lado sombrio de Jemma, na forma de medos reprimidos e encarcerados em sua caixinha de música. Trata-se de um conceito novo para a personagem e jogado um pouquinho às pressas ali, mas que é bem trabalhado e obedece a uma lógica básica de situações congêneres, além de, claro, funcionar como o outro lado da moeda do lado sombrio de Fitz, o Dr. Leopold do Framework. Vê-lo novamente em ação, confirmando que Fitz constantemente luta para mantê-lo sob controle, foi um deleite e um artifício perfeito para colocar o casal ao conflito verbal que os leva a lavar toda a roupa suja existente entre eles (as referências nos diálogos e nos “flashbacks” são de abrir vários sorrisos), saindo triunfantes ao final, somente para se depararem com Dark Jemma se agarrando com o Dr. Leopold, em um momento WTF? que prova que há espaço cômico em todo lugar se o roteiro souber inserir esses momentos de maneira cirúrgica como aqui.

Jesse Bochco, que dirigiu 4,722 Hours e Rewind, dois dos melhores episódios de toda a série e que não coincidentemente têm Fitz e Simons – separadamente – como estrelas, usa todo seu gabarito para lidar com a grande quantidade de informações por minuto que o roteiro traz, além dos diversos cenários que remetem a lugares clássicos de AoS, sem confundir o espectador e sem trazer nenhum tipo de solução de continuidade. São 42 minutos que passam quase que em um piscar de olhos e que mais uma vez reiteram a qualidade da atuação de De Caestecker e Henstridge, além de deixar às escâncaras o quanto seus respectivos personagens se desenvolveram.

Mas eu disse “quase”. E a razão para esse qualificador é que considerei que as sequências fora da mente da dupla foram não só desnecessárias, como redundantes. Aqui, Doyle não resistiu ao didatismo para explicar o óbvio: que Fitz e Simmons estavam mesmo em um “mundo virtual” e, além disso, em perigo, com apenas Enoch do lado deles. Como se isso não bastasse, esse vai e volta, que não foi tão constante, mas que a trama simplesmente não pedia, quebrou o mergulho na narrativa algumas vezes. Teria sido um episódio absolutamente perfeito se a imersão nas mentes geniais dos dois fosse completa, com a única sequência no mundo real sendo a deles acordando e vendo Enoch dono da situação. O resto foi “AoS for dummies” que não tinha lugar em Inescapable.

Mesmo assim, como comentei na abertura da presente crítica, são episódios assim que fazem de Agents of S.H.I.E.L.D. o que a série é. Inescapable pode ter vindo em uma temporada que ainda não se achou completamente, mas ele, sozinho, já vale todo o esforço de se acompanhar essa pequena e injustiçada joia televisiva da safra de séries baseadas em quadrinhos.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 6X06: Inescapable (EUA, 21 de junho de 2019)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Jesse Bochco
Roteiro: DJ Doyle
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wen, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Karolina Wydra, Christopher James Baker, Barry Shabaka Henley, Maximilian Osinski, Briana Venskus, Joel Stoffer, Ava Mierelle
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.