Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 7X04: Out of the Past

The poor dope – he always wanted a pool. Well, in the end, he got himself a pool.
– Gillis, Joe

  • Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aquias críticas dos outros episódios e, aquide todo o Universo Cinematográfico Marvel.

Os showrunners de Agents of S.H.I.E.L.D. devem estar se divertindo horrores com a temporada final de sua série. Sem freios e sem amarras e podendo brincar com um dos melhores artifícios da ficção científica, a viagem no tempo, eles vem oferecendo uma série maravilhosa de episódios que nos dá uma visão de bastidores sobre a história do Universo Cinematográfico Marvel e da própria série sem esquecer a crítica social relevante e bem inserida e referências mil não só aos acontecimentos desses mais de 10 anos de Marvel Studios, como também a uma infinidade de elementos da cultura pop em geral, com especial destaque à Sétima Arte.

Em Out of the Past, episódio que fecha o arco dos anos 50, os filmes de alienígenas como alegorias para a Guerra Fria – explorados brilhantemente em Alien Commies from the Future! – são deixados de lado, abrindo espaço para uma belíssima homenagem ao film noir, com direito à fotografia em preto e branco, narração em off, figurinos típicos do gênero e um MacGuffin que dão sabor a um assassinato misterioso. E o mais interessante é que, no lugar de apenas fazer uma homenagem do tipo “porque sim”, o roteiro de Mark Leitner ainda se dá ao trabalho de justificar as escolhas estilísticas como um estranho defeito no corpo cibernético de Coulson que é resultado direto dos momentos finais do episódio anterior. Só por isso o episódio já mereceria um lugar de destaque no panteão dos melhores da série, mas há mais.

Afinal de contas, não satisfeito em lidar com o destino de Daniel Sousa, o episódio é enquadrado exatamente como Billy Wilder fez no clássico Crepúsculo dos Deuses, de 1950: com uma morte na piscina, com direito a um corpo de rosto para baixo que leva a uma narração e, claro, um flashback. E a cereja no bolo é que, exatamente como na obra de Wilder, a narração é do morto, com a diferença que, aqui, só descobrimos essa circunstância ao final, juntamente com a revelação de que o morto não está nada morto. Chega a ser surpreendente essa sofisticação na estrutura do episódio que ainda ganha o já citado MacGuffin na forma de uma maleta com um objeto misterioso (não faço ideia o que poderia ser…) que é uma evidente homenagem ao falcão maltês de Relíquia Macabra.

Outra característica peculiar desse episódio é a coragem de manter a ação no mínimo possível. Não há lutas alongadas, não há tiroteios, não há sequer perseguições. Claro que isso exige que aceitemos que Sousa comprou a mentira contada por Coulson algemado, mas não creio que seja pedir muito, já que é simplesmente impossível resistir aos dois atores contracenando e eles simplesmente precisavam criar uma conexão imediata. O que segue daí é uma clássica divisão laboral, com Elena e Deke correndo para a casa do cientista que havia sido assimilado pelos Chronicoms para localizar o MacGuffin e entregar para Coulson e Sousa, que por sua vez precisam entregá-lo a Howard Stark, e o restante da equipe no Z1 lidando com o drama de May, aparentemente agora com o poder de empatia, ou seja, de literalmente sentir o que quem quer que ela toque esteja sentindo, possivelmente um efeito colateral de sua “morte” no templo da temporada anterior. E é claro que o alívio cômico que é Enoch servindo de telefonista no rebatizado Krazy Kanoe em uma gag constantemente repetida é ouro puro, ainda que dê pena que ele continue abandonado pelos agentes ao final.

A construção da tensão em cima do destino de Sousa é também muito eficiente, com o roteiro usando toda a argumentação do mini-arco dos anos 30, ou seja, que os agentes não devem criar ondas, apenas marolas no que diz respeito a alteração do futuro para deixar o espectador em dúvida (só um pouquinho, claro) sobre o que realmente acontecerá. Afinal, como Mack diz, uma coisa é não matar um vilão; outra bem diferente é deixar um herói morrer. E a decisão de salvar Sousa, mas deixando o mundo achar que ele morreu, abre uma Caixa de Pandora que Elena e Deke prometeram secretamente usar se houver oportunidade, de forma a mudar o status quo potencialmente relacionado com a discriminação racial e de gênero que, nesse episódio, fica circunscrita a diálogos entre eles apenas. Sobre Enver Gjokaj passando a fazer parte da equipe, só tenho a aplaudir, pois ganharemos, pelo menos por um tempo (será que dura mais do que um episódio?), a fusão entre Agents of S.H.I.E.L.D. e a infelizmente cancelada série Agent Carter de maneira elegante e bem resolvida.

E essa não é a única mudança no jogo, pois os Chronicoms, representado por “Luke” (Tobias Jelinek), no lugar de tentar mudar eventos futuros alterando o passado, provavelmente passarão a ser mais sutis, com um acordo com Wilfred “Freddy” Malick, agora vivido por Neal Bledsoe, para potencialmente tornar a infiltração da Hidra na S.H.I.E.L.D. ainda mais profunda. Será interessante ver como isso será abordado agora que “No More Mr. Nice Guy”, de Alice Cooper, serviu de anúncio para um pulo temporal para os anos 70.

Mas nem tudo são flores, ainda que quase tudo tenha sido. Se pararmos friamente para pensar, o arco dos anos 30 pareceu mais um arco único do que o do anos 50, que pareceu composto de dois episódios substancialmente independentes. E não falo somente em estilo, vejam bem, mas em estrutura e objetivos, já que os Chronicoms, na primeira parte, queriam explodir o Projeto Helius para matar as cabeças pensantes da S.H.I.E.L.D. Como parte do plano, eles assassinaram justamente o cientista que tinha o MacGuffin para entregar para Sousa, no que pareceu ser uma coincidência, pois, se assim não fosse, os seres sintéticos teriam vasculhado a casa e achado a valise. Portanto, ainda que a presença de Sousa na Área 51 seja explicada por essa tarefa (levar a pasta até Stark), os Chronicoms ficaram razoavelmente soltos aqui, embarcando na história do MacGuffin apenas indiretamente. Em conclusão, apesar de o arco dos anos 30 ser melhor como arco, o dos anos 50 é composto por dois episódios que, separados, são melhores do que os que compõem o anterior. Confuso, eu sei, mas foi minha impressão e a razão da retirada de meio ponto na avaliação final.

Com mais uma delícia de episódio, a derradeira temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. tem se mostrado como uma das mais agradáveis de toda a série, um verdadeiro deleite nostálgico que já começa a me fazer sentir falta dessa maravilha tantas vezes considerada como o patinho feio do UCM. Mas que os embalos dos anos 70 venham logo!

Agents of S.H.I.E.L.D. – 7X04: Out of the Past (EUA, 17 de junho de 2020)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Garry A. Brown
Roteiro: Mark Leitner
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wen, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Enver Gjokaj, Joel Stoffer, Tobias Jelinek, Neal Bledsoe, Philip Alexander, Stephanie Drapeau, Paul Rogan
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.